Sete vidas

Uma carta para Ivete.

Foto: Ana Paula Batista

Você usou suas sete vidas para me dar lições para a minha e me fazer conhecer um amor enorme, diferente de tudo o que conheci.

Pesquisei bastante e resolvi criar um gato. Uma gata, pra ser mais precisa. Queria uma fêmea. Não foi daquelas coisas que simplesmente acontecem em nossas vidas, mas sim uma decisão. Quando fui ao local onde você vivia com sua mãe e irmãos, não sei dizer o motivo, mas entre tantos gatinhos absolutamente iguais, você me chamou atenção. Até hoje não sei dizer quem escolheu quem, se eu ou você.

Quando chegamos em casa, você tinha seis meses e tínhamos que escolher um nome. A Lu disse “Poderosa”. Ela chamava a Ivete Sangalo, de quem somos fãs, de “Poderosa”. Disse pra ela que “Poderosa” ficaria um nome muito longo. Que tal chamarmos nossa gatinha de Ivete?

A Lu era pequena e acredito que você estava sempre permeando suas memórias de infância. Conviver com gatos é uma experiência muito interessante. Se esperamos que eles sejam como cães, talvez não iremos gostar, mas se aprendemos a respeitá-los como felinos que são, vamos ver o tanto que esses bichinhos são incríveis.

Você foi muito carinhosa e companheira sempre. Tá certo que ficava algumas horas de mal de mim quando eu te levava para tomar banho, mas quando passava a cara fechada vinha me fazer companhia. Parece que sabia quando eu estava doente ou triste. Subia na cama, o que inicialmente eu não deixava, mas acabava desistindo de pedir pra você descer do tanto que você insistia em ficar pertinho. Depois li algum texto que dizia que os gatos limpam a nossa energia, descarregando aquilo que há de negativo na água. Não sei se procede, mas passei a acreditar piamente nisso.

Bravinha depois do banho

Para a felicidade geral da casa, você era uma caçadora de cigarras de primeira! Depois de longos períodos de seca em Brasília, clamamos por chuva. O canto das cigarras, que coincide com as primeiras chuvas, era bem-vindo. Mas elas bem que podiam ficar quietinhas nas árvores, cantando, e não entrar em casa. Quando isso acontecia, você se divertia e mostrava que dentro daquela bola peluda e preguiçosa havia um pouquinho que fosse de instinto felino de caça. Acho que só queria brincar, na verdade, mas as cigarras não resistiam. As pequenas lagartixas também não. Quando paravam de mexer, você largava pra lá. Me restava recolher os cadáveres.

Você adorava ficar no parapeito da janela olhando o movimento e tomando sol. Passava horas, cochilava, chamava atenção de quem passasse embaixo do prédio. Você era muito linda! Toda branquinha, com pelos longos que voavam com o vento, igual cabelos em propaganda de shampoo. Olhos grandes e alaranjados que, muitas vezes, eram a primeira coisa que eu via quando acordava. Pois é… você ganhou o direito de subir na cama e de vez em quando ficava perto do meu rosto esperando eu acordar. Mas seu lugar favorito da cama era entre os meus pés. Eu tinha que levantar com cuidado, pra não te derrubar.

Quando eu chegava em casa do trabalho ou de qualquer outro lugar, você estava na porta me esperando. Onde li sobre a limpeza de energia, também li que os gatos sabem o momento em que o dono decide ir embora. Passei a acreditar nisso quando uma moça que trabalhava em casa me disse o quanto você se agitava por volta de meia hora antes de eu chegar. Quando ela via que você saía da janela que tanto amava ou de algum dos seus cantinhos do momento para ficar perto da porta da sala, sabia que eu estava a caminho de casa.

Assim como uma mãe aprende a distinguir os choros do seu bebê, eu aprendi a distinguir seus miados. Reconhecia quando você miava porque sua vasilha de ração não estava tão cheia como você gostava, quando miava para trocar a água que não estava tão fresca, ou quando miava apenas pra pedir carinho e dizer que estava ali juntinho. Há quem diga que gatos não são carinhosos, que se apegam apenas à casa, que só se importam com a comida. Essas pessoas não te conheceram.

Quando nos mudamos, fiquei com muito medo de você não se adaptar ao novo apartamento. Você já não era tão jovem para a idade dos gatos e eu tinha medo de você adoecer ou se entristecer, especialmente porque no novo apartamento não havia parapeito nas janelas. Para meu alívio, foi justamente o contrário. Você rejuvenesceu alguns anos e ficou toda moleca. Corria pela casa e se divertia com o barulhinho das suas unhas no piso de madeira. Ficava batendo com as patinhas no piso e saía correndo. Era muito bonitinho.

Não tínhamos parapeito nas janelas, mas agora tínhamos uma varanda espaçosa que dava pra você tomar sol. No início eu ficava sempre por perto, observando, pra ver se você teria a curiosidade de pular, pois no outro apartamento se acostumou a pular na janela. Coloquei telas nas janelas por sua causa. Mas logo vi que não precisava me preocupar, pois você soube se comportar direitinho, como uma lady — apelido que ganhou de uma amiga minha que se hospedou em casa. Era tão comportada que subia em uma cadeira para me acompanhar nos cafés na varanda que eu tanto gostava de tomar nos fins de semana.

Claro que nem tudo eram flores. Eu ficava muito brava quando você vomitava bolas de pelo pela casa. Brigava com você, colocava de castigo, xingava. Não me orgulho de nada disso, mas faz parte da minha humanidade e, consequentemente, da minha falta de perfeição. Mas da mesma forma como sua raiva de mim após levar para os esporádicos banhos passava rápido, logo estávamos de bem e você estava enroscada comigo no sofá.

Você sempre foi muito saudável. E sempre foi pequenininha, apesar de comer bem. Era seu padrão, imagino. Não tinha tamanho e peso de gato persa. Eu até esquecia que você estava envelhecendo e que o tempo pra você corria diferente. Era mais apressado. Você já não caçava mais insetos em casa. Inclusive, nos deixou na mão quando entrou uma barata voadora na sala. Eu mesma tive que enfrentar aquele ser horrendo e você ficou só olhando. Talvez avaliando se eu tinha aprendido direitinho. Seu pelo já não estava mais tão volumoso. Ainda dava umas carreiras pela casa, mas não corria mais como antes. Acho que, na verdade, eu não queria pensar sobre o seu envelhecimento.

Nos últimos anos, fomos nos apegando ainda mais. Ficamos mais coladinhas, apesar de você ficar toda enrabichada com o Nêgo quando ele veio morar com a gente. Onde eu ia, lá estava você por perto. Tinha hora que a gente até se embolava, quando eu não te via seguindo meus passos. Lembro de pegar você no colo e pedir que nunca morresse. Pedido infantil, eu sei, mas fazia mesmo assim.

Algumas de suas sete vidas foram gastas em suas peripécias. Há alguns anos, você se enfiou embaixo da cama da Lu e lá ficou presa. Achamos que você tinha fugido, que alguém tinha dado bobeira com a porta aberta. Passei o dia arrasada, inconformada, mas tive uma intuição. Um anjo soprou no meu ouvido que você estava embaixo da cama. Saí correndo do trabalho, cheguei em casa como uma louca, nem a porta fechei. Quando tirei o colchão, lá estava você. Eu te abraçava, chorava e agradecia a Deus e ao anjo que me avisou onde você estava, pois eu passaria uns dias fora de casa. Outra vez você entrou em meu armário e se escondeu. Viajei e passei três dias fora. Quando voltei, achei estranho não te encontrar na porta me esperando. Chamei por seu nome e ouvi o miado de dentro do armário.

No início do ano, eu tive uma visão. Não sei explicar direito o que aconteceu, mas vi uma cena em que eu me despedia de você. Pelo que entendi, você seria sacrificada e eu dizia pra você que não tivesse medo, que eu estava do seu lado. Naquele momento rezei, pedindo a Deus que eu nunca tivesse que tomar uma decisão dessas e passei o dia chorando. O que me acalmou foi te ver bem e serelepe. Mas acho que de alguma forma, eu já estava sendo preparada para o que estava por vir.

Suas outras vidas se foram no último mês que passou conosco. Apesar de extremamente doloroso pra todos nós, esse processo me trouxe muitas lições. Notei que você passou quase dois dias sem comer e achei estranho. Observei que você miava querendo comer, mas alguma coisa estava te impedindo. Não era falta de apetite. Percebi que estava com o focinho mais escuro, te peguei no colo e vi que sua boca estava machucada. Te levei no hospital veterinário, onde você passou o dia para fazer uns exames e ficaria com soro, pois estava desidratada. No fim da tarde, passei no hospital e a médica achou melhor você passar a noite lá para se hidratar melhor e se recuperar. Explicou que você estava com pancreatite, anemia, cistite. Explicou ainda que os gatos não costumam dar sinais claros de adoecimento e é muito comum descobrir doenças já em estágio bem avançado. Foi a primeira vez que você não passava uma noite em casa. Fiquei triste em te ver numa gaiola, mas sabia que era pro seu bem.

No dia seguinte, te levamos pra casa. Teríamos um tratamento bem chato pela frente. Seguimos tudo direitinho. Os horários dos remédios nem sempre conciliavam uns com os outros. Então, tínhamos que te incomodar com medicamentos várias vezes por dia. Agendava meus compromissos de acordo com esses horários e estava sempre preocupada se teria alguém em casa para te dar a dose do remédio que chocava com meu horário de trabalho. Eu, que já acordo antes do sol, tinha que acordar ainda mais cedo para poder te dar os remédios antes de sair pra trabalhar. Você, como era de se esperar, detestava essas intervenções. Eu te embrulhava em uma toalha pra você não me arranhar, comportamento que você não tinha comigo de jeito nenhum em condições normais de temperatura e pressão. Sempre foi muito dócil.

Apesar do cansaço, eu nunca queria que você percebesse o quanto tudo isso era desgastante pra mim, não só pela rotina, mas também emocionalmente. Eu tinha escolhido ter sua companhia, então agora estaria ao seu lado, fazendo o que fosse necessário, cuidando de você. Um dia, cansada, perdi a paciência contigo, falei algo grosseiro, e na mesma hora me arrependi. Te abracei, pedi que me perdoasse e prometi que nunca mais aconteceria. Inicialmente eu até achava que você iria melhorar. Considerando a sua idade, eu sabia que talvez ficasse mais frágil e debilitada, mas eu realmente acreditava na sua recuperação. Estava errada.

Você foi definhando. Parou de comer completamente, mesmo a papinha que preparávamos, pois você não aceitava mais ração. Passamos a dar a papinha e água com uma seringa. Cada vez dávamos um pouquinho a mais. Você reclamava, não aceitava bem, mas eu não ia deixar você morrer de fome e sede. Também não fazia mais sentido levar pra um hospital, internar, te deixar sozinha em uma gaiola tomando soro. Eu já tinha percebido que seu caso era terminal e que eu lutaria para te dar o máximo de conforto nesse finalzinho de vida.

Tinha dia que você parecia mais debilitada, mas tinha dia que nem tanto. Circulava pela casa, tomava sol na varanda. Eu coloquei um pufe ao lado da minha cama para você dormir. Tinha medo que você tentasse subir na cama, que é alta, e caísse. Nos seus dias mais ativos, você chegava a subir no pufe e depois na cama. Me surpreendia, quando acordava, com seu corpinho magrinho enrolado entre meus pés. Mas com o passar dos dias, nem no pufe você subia mais. Deitava em um tapetinho ao lado da cama. E depois nem no quarto aparecia. Foi se recolhendo.

Todos os dias, quando eu acordava e não te via no tapete e nem na porta do quarto, tinha receio de te encontrar na área de serviço, onde você estava preferindo ficar, sem vida. Ficava imaginando quem de nós três a encontraria morta. Quem de nós teria mais estrutura pra isso? Eu conversava com você, dizendo que podia ir se estivesse cansada. Sentiríamos uma falta imensa, mas ficaríamos bem. Mas que se não estivesse em sua hora, eu estaria ao seu lado até o fim. Passei a rezar e pedir a Deus, caso eu e você tivéssemos merecimento para isso, para que seu sofrimento terminasse e você partisse sem dor, de forma serena.

Durante todo esse período tentei ser prática e fazer o que fosse necessário. Te dar papinha e água na seringa, dar seus remédios, lavar suas patinhas e seu rabo quando você perdia o controle do xixi, limpar o chão várias vezes ao dia, lavar as toalhas e tapetinhos que colocávamos pra você deitar, cortar seu pelo. Além disso, te pegava no colo, fazia carinho e conversava com você. Acontece que de vez em quando o emocional tomava conta e desabava em lágrimas. Era muito triste te ver doente. Era muito triste saber que estava chegando ao seu fim.

Não julgo quem sacrifica seus animais quando estão doentes, mas eu sempre achei que essa opção não seria pra mim. Eu chorava só de lembrar da visão que tinha tido há meses. Pedia a Deus pra eu nunca ter que tomar uma decisão dessas. Acredito que eu não conseguiria conviver com minha consciência. Quem era eu pra decidir o dia e hora da sua morte? Em minhas convicções, tudo tem um propósito. Se estávamos passando por aquilo era porque precisávamos, mesmo que ainda fuja de nossa curta compreensão.

Confesso que teve um dia que cheguei a pensar sobre o assunto. Pesquisei, conversei com sua veterinária, perguntei como era o procedimento. Chorei no banheiro do trabalho. Precisava conversar com a Lu e o Pedro, pois não poderia tomar uma decisão dessa sozinha. No caminho de casa, pedi a Deus que me iluminasse. Quando cheguei em casa, você, que poucas horas atrás estava prostrada, andava pela casa toda serelepe. Parece que tinha sentido meus pensamentos. Naquele momento, entendi o recado e tive a minha resposta. A conversa com a família foi suspensa.

Logo você parou de aceitar inclusive a papinha na seringa. Antes reclamava, mas a gente conseguia dar. Mas depois, percebi que você estava entregando os pontos. Cuspia a comida, vomitava a água e só ficava deitada. Só restava te dar colo quente e esperar você estar pronta. Eu e Lu nos revezávamos nessa tarefa. Improvisamos uma fralda com um biquíni infantil e absorvente. Te enrolávamos em toalhas e cobertas, pois você sentia frio. Tiramos fotos contigo.

Trinta e quatro dias se passaram de quando descobrimos que estava doente. Era sábado, dia de São João. Todos nós tínhamos um monte de compromissos o dia inteiro. Os meus foram cancelados um a um. Cliente que adiou ensaio, desistência de curso, impossibilidade de reunião. Estávamos só eu e você em casa. Te coloquei no colo e fomos pra varanda tomar sol, já que não conseguia mais ir sozinha. Ali, te vendo existir apenas pela respiração e pelo bater de um coraçãozinho cansado, minha fé aumentou. Tinha que ter um propósito! Conversei com você, rezei, te aqueci. Chorei copiosamente. Assistimos filme, cochilamos. Fiz mais uma foto. A nossa última foto juntas. Fiquei com você no colo por horas, até o meio da tarde, quando a Lu assumiu o turno. À noite, eu e Pedro fomos a um show que tínhamos programado há dias. Por mais que tentasse me distrair, não conseguia parar de pensar em você. Não largava o telefone. Chegou a mensagem que até hoje aparece nos meus sonhos. Ivete morreu.

Nossa última foto

Eu achava que por ter presenciado todo esse processo contigo, por ter rezado pra você partir, seria muito tranquilo quando sua hora chegasse. Mas não foi. Não existe preparo. Por mais que racionalmente soubesse que foi o melhor pra você, que estava sofrendo numa vida que se limitava a respirar, na hora que a ficha caiu, meu mundo desabou. Ouso dizer que foi uma das perdas mais dolorosas de minha vida. Não teríamos mais você nos chamando atenção com sua patinha pedindo carinho. Não acordaria mais com você nos meus pés ou na porta do quarto. O seu não seria mais o meu primeiro bom dia. Quando eu estava triste, você estava sempre por perto me fazendo companhia e agora eu não tinha mais você.

Você morreu no colo da Lu. Eu não queria que você estivesse sozinha ou sentisse medo na sua hora. Cheguei em casa e vi aquele montinho de pelo ainda no colo da Lu. Ela te colocou pele a pele quando te viu agoniada. Te peguei no colo e dei um beijo demorado em sua cabeça, como eu fazia ao me despedir de você depois que ficou doente. Disse que te amava, o que também fazia parte do ritual. Te colocamos numa caixinha, com tapetinhos.

Sonhei com você nessa primeira noite. Sonhei que você saía pulando da caixinha. No sonho, ao mesmo tempo fiquei feliz por você estar viva, mas também com medo do que estaria por vir, de passar por tudo novamente. Acordei aos prantos. Era só sonho. Você continuava ali, naquela caixa que teimava em chamar o meu olhar. No dia seguinte te levamos para a roça de meus pais e hoje seu corpo descansa aos pés de um ipê que a Lu plantou quando tinha seis meses.

Ai meu amor… que saudade que eu sinto de você! A dor é tão grande que sufoca, me tira o ar e a fome. É muito maior do que eu imaginei que seria. Todo e qualquer cantinho da casa lembra você. Te vejo por todos os lados. Me peguei olhando promoção de areia no supermercado. Me peguei chegando em casa e chamando seu nome. Me peguei agarrada a toalhas sujas sem querer lavar, pois o seu cheiro nelas era o que tinha nos restado. E as fotos, claro! Aprendi que lágrimas não secam. Acho que já estou até me acostumando a elas, pois são diárias desde sua partida.

Apesar de toda essa falta, me sinto muito grata por nossos caminhos terem se cruzado pelos quinze anos em que vivemos juntas. Grata por termos escolhido uma à outra. Grata por ter vivenciado um amor tão puro. Também me sinto tranquila, pois consegui cuidar de você e te proporcionar uma vida feliz, cercada de carinho. Amo você, minha pequena! Descanse em paz.

Resolvi escrever essa carta para nunca me esquecer desses detalhes. Durante seu adoecimento, eu sentia falta de ouvir ou ler histórias de pessoas que passaram por esse tipo de situação. Por isso resolvi compartilhar um pedacinho de nossa história, que tem final triste, mas foi bem bonita.

Nesse post do meu blog, falo um pouco sobre a importância de fotografar nossa vida, mesmo em momentos dolorosos: http://anapaulabatista.com.br/index.php/nossa-ultima-foto-despedida-da-ivete/


Aqui escrevo sobre fotografia: www.anapaulabatista.com.br

Aqui escrevo sobre culinária: www.temlaranjanacozinha.com.br

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