Desfiz as malas

Talvez fosse tarde demais para mexer em algo que estava ali, parado, sem causar incômodo a ninguém. Mas, por algum motivo, depois de anos, resolvi desfazer as malas.

Por todo esse tempo, ela ficou fechada, quietinha. Eu até pensei que essa caixinha não existia mais. Mas não. Ela estava lá em todo o tempo.

Muita coisa dentro dela eu não lembrava mais que existia. Tinha muito pó e coisas que não me serviam mais. Cada parte do meu corpo estremecia ao ver tudo de novo.

Tentei parar no meio do caminho, mas eu já tinha desfeito metade da mala.

Durante o processo perguntava para mim mesma “por que não desfiz isso antes?”. Maldita mania de achar que as coisas vão se resolver sozinhas, ou que alguém vai chegar, abrir, tirar tudo e me livrar de todo sofrimento.

No meio do processo, resolvi ligar para um amigo e contar sobre o que acontecia. “Menina Ana, certas coisas a gente não esquece, simplesmente aprende a conviver”. Como um soco no estômago, as palavras dele mexeram comigo e me fizeram entender algo que ainda não tinha entendido.

Chorei por horas e pedi um colo.

No final, deu tudo certo e terminar de desfazer as malas e deixar tudo organizado no armário da vida foi bem menos doloroso do que imaginei.

Passei meus olhos pelo quarto para ver se tinha mais alguma mala para ser desfeita e parece que desse trauma eu não sofro mais.

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