‘Você não está sozinha’

Eu não acreditava nesse slogan da campanha contra assédio e abuso sexual do Metrô. Não concordava até perceber que realmente não estou sozinha dentro de um vagão. Não importa o dia, a hora, a linha que estou, nunca estarei o sozinha. O medo sempre está me esperando na catraca ou na esquina de uma rua escura.

Sou usuária assídua do transporte público. O estresse por causa das falhas e atrasos nas linhas é algo constante nas minhas manhãs, mas o que realmente me incomoda é a falta do mínimo de respeito dos usuários. Pensei que não conseguiria escrever sobre isso, mas a gente precisa, algumas vezes, enfrentar nossos medos, traumas e coisas ruins que cismam em ficar na nossa vida/memória.

Era um terça-feira de novembro, 6h30. Eu tentava, mais uma vez, como em todas as minhas manhãs, entrar em um vagão. A plataforma da estação da Tatuapé estava mais cheia do que o normal. Resultado: todos os passageiros reclamando e pedindo para que um metrô vazio chegasse. Mas não adiantou. Passou um, dois, três, quatro trens. Em cada um, apenas 3 pessoas conseguiam entrar. Depois de 5, eu havia conseguido ficar na frente e logo pensei “ufa! No segundo eu entro e não chego tãaaao atrasada para aula”.

Na espera pelo próximo trem, um empurra-empurra começa. Alguém tentava me agarrar, mas a única coisa que conseguia sentir era medo, aquele mesmo que ficou me esperando na catraca. Não tive reação, apenas um gelo dentro do meu corpo, uma sensação de ser a culpada por aquilo e que aquela situação poderia piorar. Já havia acontecido algo semelhante e havia reagido. Virei, olhei para a cara do sujeito e pedi para que se afastasse, mas dessa vez não adinatou.

Alguns minutos depois, o trem havia chegado. Não tinha condições de entrar, mas entrei. Eu não queria ficar por mais nenhum segundo naquela plataforma. Ao entrar, senti um alívio, apesar das pernas e braços que me sufocavam. Não me sentia segura, mas me sentia melhor e menos invadida.

Mas aquele alívio durou apenas 2 estações. Um sujeito, que consigo, e talvez sempre conseguirei, lembrar de seu rosto, estava na minha frente. Ele não era muito alto, tinha cabelos brancos, uma barba rala e aparentava ter seus 40 e poucos anos. Usava uma camiseta polo azul, seus olhos não transpassavam tamanha maldade e falta de educação/respeito.

Como em uma guerra, eu tentava passar para a outra porta do vagão e fugir daquele olhar nojento que me cercava. Faltava apenas uma estação para a Sé, mas foi o tempo suficiente para que o sujeito me assediasse e ainda levasse meu relógio. Eu não consegui reagir a nenhum dos abusos e ao roubo. Fiquei calada. Sim, a Ana Paula, que luta e acredita no empoderamento feminino ficou calada.

Ao chegar na Sé, não sabia para onde ir e muito menos o que fazer. Minha cabeça girava, girava, girava e a única coisa que consegui fazer foi chorar. Depois de alguns minutos, me dei conta de tudo que havia acontecido e vi que precisava ligar para alguém. Esse foi um dia onde vivi a sororidade de perto. Minhas amigas me acalmaram, ficaram em silêncio e dividiram minha dor. Minha tarde foi de choro e meu pai, o cara mais estressado que conheço, não conseguiu falar uma palavra se quer para me acalmar.

Ouvi de algumas pessoas “nossa, mas ele só passou a mão em você”, ou “não teve penetração”. Não. Ele não só passou a mão. Ele me invadiu. Invadiu meu corpo. Eu não dei permissão, em nenhum momento, para que ele se quer olhasse para mim. Eu estava no transporte público, mas eu não sou pública. Ninguém é.

Fui assediada mais vezes depois desse dia e minhas reações foram diferentes. Consegui reagir e pedir espaço para o sujeito. Numa dessas vezes até gritei desesperada, porque é desumano o comportamento de alguns homens. Por um tempo me senti culpada por não ter reagido naquela terça-feira de novembro, mas a gente nunca espera esse tipo de coisa. Não sou culpada e nunca serei.

Não venha me dizer que tenho um aprendizado disso tudo, pois não precisava passar por isso para aprender alguma coisa.

Levo comigo que não estou sozinha, pois assim como minhas amigas, primas, mãe, tias, avós, conhecidas e milhões de mulheres, estou acompanhada do medo. Medo de sair de casa com aquela blusa que aparece um pouco a barriga ou aquela calça mais justa. Medo de pegar metrô lotado. Medo de voltar de uma festa tarde, porque minha rua é escura e vazia. Medo de sair sozinha e ser julgada. Medo de ser mulher em uma sociedade que cisma em dizer que “machismo não existe”.

Estou acompanhada do medo, mas também estou acompanhada de mulheres incrivelmente maravilhosas e que são o motivo de eu não ter desistido dessa luta diária.

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