A representação feminina no Tantra: Deidades

Você já percebeu os arquétipos de representação feminina temos no mundo ocidental, especialmente cristão? Se identifica com eles ou entende que eles são limitados? Estou participando de uma cerimônia tântrica chamada Mahavidya, ou Goddess Festival — festival das deusas. Como já contei nesse outro texto, Tantra pode ser de uma corrente hinduísta, e nesse caso temos diversas deusas que representam cada um dos arquétipos femininos. No caso do Mahavidya, são 10 deusas personificadas (os dez poderes cósmicos) e apresentadas às pessoas, mostrando assim, a diversidade de papéis femininos que podem ser incorporados ao nosso repertório.

O hinduísmo usa arquétipos para aproximar conceitos filosóficos complexos de pessoas comuns, através das deidades. É uma forma bastante inteligente de facilitar o entendimento universal desses conceitos: através de símbolos representativos.Tantra entende Deus na concepção masculina e feminina, Shiva e Shakti. Shiva representa a consciência, o que planejou o universo. Shakti representa a energia, o poder, quem cria o universo. Shakti, o poder feminino, tem 10 diferentes representações — os poderes cósmicos, cada um com um arquétipo diferente, algumas doces e delicadas, outras terríveis e poderosas. Minha preferida delas: Kali, a matadora de demônios.

A deusa Kali representada na sua fúria destruidora

A origem de Kali

Há uma variedade de lendas diferentes que remetem à origem de Kali. Isso se deve ao fato de diferentes regiões da Índia e sudeste asiático que veneram Kali a entenderem e representarem de diversas maneiras. É importante lembrar que estamos falando de Hinduísmo, uma religião com 4 mil anos de história, e que com o tempo é natural que as percepções humanas e representações a respeito do mito de Kali tenham se modificado, recebendo inflências da cultura de várias épocas e regiões.

O comum a todas elas é que Kali é a deusa do tempo e da transformação, que transcende a dualidade da vida. Ela incorpora aspectos aparentemente inconciliáveis entre si: ao mesmo tempo é uma guerreira sanguinária matadora de demônios (representada na figura acima) e também é entendida como mãe cheia de compaixão e amor.

Kali é a primeira dos dez poderes cósmicos, deusa do tempo: primeiro o tempo precisou ser criado para que tudo mais pudesse ser criado. E tempo é algo invencível e impossível de parar; é ele quem traz a morte e decadência, mas também a tranformação, a nova vida. Assim, Kali é entendida como deusa do tempo, da morte, da transformação e ao mesmo tempo a mãe criadora.

Em escritos do século VI a origem de Kali remete à manifestação da fúria de Durga, que estava enfrentando demônios que se multiplicavam a cada vez que uma gota de seu sangue era derramado na Terra. Assim, Kali surge para matar e beber o sangue dos demônios, impedindo que mais fossem criados. Ela decepa suas cabeças e usa seus crânios e braços como adornos. Conta outra lenda, que em sua fúria aniquiladora, a dançarina guerreira Kali não conseguia ser parada por nenhum outro deus, e assim Shiva se deita sobre seu caminho, e assim que Kali percebe estar pisoteando seu companheiro (Ela também é entendida como cônjuge de Shiva), cessa sua matança.

Também representada em preto, com Shiva sob seus pés

A interpretação simbólica de Kali

Sendo Kali deusa do tempo, o chacka mais comumente associado a ela é o Vishuda: chakra da garganta. Através da abertura desse chakra que os conceitos de passado, presente e futuro são entendidos. Obter controle sobre o vishuda implica então controle sobre o tempo. Esse chakra é também associado ao elemento Éter, que na simbologia é representada pela cor preta: assim Kali também é representada em várias obras. Quase sempre seminua, com uma saia de braços decepados, cabelos desgrenhados.

Outra representação comum são vários braços (pelo menos 4): um com uma espada, outro com uma cabeça decepada, outra com um recipiente para coletar o sangue da cabeça e outra com o mudhra da bênção. Uma variação comum é também segurando o tridente de Shiva que está sob seus pés (ou Shava, a personificação de Shiva, já que esse é pura consciência e não possui corpo).

A primeira imagem, com o tridente de Shiva: na segunda, com o mudhra da bênção.

São tantas as diferentes representações dessa deusa e tantos os significados que são atribuídos a cada um desses itens que é difícil estabelecer apenas um deles. A variação do local, língua, cultura e elementos dessas culturas incorporados à deusa fornecem material de estudo para teses de doutorado. Dos vários materiais que tenho lido a respeito dessa deusa, o mais interessante (e completo) que tive acesso foi “Encountering Kali”, de Rachel Fell e Jeffrey Kripal, vale a leitura para quem se identificou com Kali e quer entender mais sobre seus aspectos representativos e sua história.

Goddess Festival: a vivência de 10 arquétipos femininos diferentes

Num festival organizado pela escola de yoga que estudo, são escolhidas 20 mulheres para representar as dez deusas. As duas mulheres que representam cada deusa tem papéis um pouco diferentes: as Vidyas (a representação energética) e as Devis (a sua manifestação). Eu fui presenteada para ser Devi de Kali, e tive oportunidade de entender e vivenciar um pouco mais cada uma das outras deusas.

Parte das 20 mulheres que representaram as deusas no Goddess Festival da Agama Yoga em 2016. Foto: Nadya Lukic

Através de tapas (auto-disciplina através de tarefas concretas), svadyaya (au-to aprendizado, ou estudo individual), danças, meditações, transfiguração, decoração de altar, fui absovida em 21 dias de preparação e 3 dias de festival absorvendo cada um dos diferentes aspectos da femininidade representados por cada uma dessas deusas. Tendo personificado Kali, tive mais contato com ela através de estudos, meditações com seu Yantra, entre outras práticas.

O que me fez pensar: o quanto no mundo ocidental estamos acostumados apenas com uma representação feminina positiva, apenas um arquétipo aceito como “ideal”: a bela, recatada e “do lar”. A santa mãe virgem, maior arquétipo feminino do cristianismo, está longe de representar a multifacetada variedade de nós, mulheres. E parece que chegamos num momento que não aceitamos mais sermos colocadas em apenas um rótulo aceitável e desejável: urgimos por sermos compreendidas, aceitas e amadas em cada uma de nossas manifestações. Kali não é bela, nem recatada, nem do lar. Mas é mãe criadora, guerreira sanguinária sensual, imparável em sua fúria destruidora, para nascer dela um novo tempo.