Viagens culinárias

É questão de amor ou ódio. Cozinhar é uma necessidade, mas não é uma unanimidade. No meu caso é amor. Sou herdeira de cozinheiras de mão cheia. Minhas duas avós e minha mãe sempre conseguiram transformar ingredientes simples em pratos deliciosos. Impossível esquecer a carne de panela da vó Amélia ou a sopa de feijão da vó Romilda. Tudo que a minha mãe faz é delicioso. Tudo. Cresci com a mesa farta e cercada de pessoas queridas. Mas só fui encarar o meu primeiro arroz quando saí de casa e voltei para São Paulo. Mesmo assim não era assídua frequentadora da cozinha, pois sempre contei com o apoio da Nice lá em casa. Mas com os anos fui gostando cada vez mais de cozinhar. O jornalismo me levou para o mundo maravilhoso das revistas de culinária e editei nos últimos nove anos duas delas, a Mais, para o grupo Pão de Açúcar, a Com Você, para a Nestlé e a implementação do novo site de receitas da Nestlé. A partir daí a culinária e todo o seu entorno viraram uma paixão. Gosto de todo o processo. De folhear livros e revistas, de ver programas de TV, de pensar nas receitas, de comprar os ingredientes, preparar o mise en place, arrumar a mesa bem bonita. Mas a melhor hora é quando sentamos à mesa e todo mundo elogia!

Esse prazer foi aumentando ao longo dos anos durante nossas viagens em família. Como as meninas eram pequenas, sempre preferimos alugar flats ou apartamentos (bem antes do airbnb existir). Assim podíamos garantir um bom café da manhã e um jantar mais adequado ao paladar infantil sem cair nos fast-foods da vida. Ir ao supermercado nas cidades que conhecemos se tornou um prazer familiar. Adoramos experimentar novos ingredientes, nos encantamos com a variedade e os costumes locais, enlouquecemos com os temperos.

É desafiador encarar as cozinhas alheias ou as planejadas apenas para esquentar alguma coisinha. No final do ano passado fomos passar duas semanas na Colômbia e escolhemos atentamente o apartamento em Bogotá para que fosse confortável, bonitinho (a gente gosta!) e num bairro bacana. Também ficamos atentos à cozinha, pois queria ter forno, além do fogão. Pelas fotos e descrição parecia ok.

Quando chegamos corremos ao mercado para garantir o jantar e o café da manhã, já que era véspera de natal. Já tinha em mente o que preparar e quando comecei a organizar a pia descubro que havia apenas duas frigideiras no armário. Isso mesmo. Só tinha isso para levar ao fogo, nenhuma panelinha a mais. Rolou um estresse na hora, mas consegui preparar duas omeletes. No dia 26 voltamos ao mercado e compramos uma panela de verdade. Passei o restante dos dias me divertindo em criar receitas que coubessem no meu parco arsenal. E acabou dando certo! Todos adoraram as receitas e passamos muito bem.

Quando decidimos que iríamos fazer um mini sabático, uma das condições que o tornariam viável era evitar ao máximo comer fora. Só assim a conta fecharia. Os astros ajudaram e acabamos alugando o apartamento de uma amiga querida, bem no coração de Florença. Como ela sempre vem com a família, o lugar é aconchegante e tem uma estrutura ótima, com muitas panelas, utensílios e louças. Quem me acompanha no Facebook e no Instagram viu que aproveitei bem o espaço. Especialmente porque adoro os ingredientes italianos e peguei a temporada de alguns legumes que mais amo, como alcachofra, aspargos e flor de abobrinha.

Agora, já na segunda fase da nossa viagem (que ainda terá uma terceira etapa), encaro uma nova cozinha, daquelas feitas apenas para esquentar uma coisinha ou descongelar uma pizza. Mudamos para um flat instalado num edifício histórico, lindo de morrer. Tem até um jardim para os hóspedes e uma biblioteca. Mas a cozinha é de lascar. Não tem tábua de cortar, não tem vasilhames, não tem quase nada. São 3 panelas, 4 pratos rasos, 4 fundos, 4 xícaras e 4 pratos de sobremesa. E a mesma quantidade de talheres.

Mas não esmoreci e sigo cozinhando e me divertindo. Já fiz ragú, polenta, sopas, canja, arroz, feijão, purê. Faço todos os dias uma boa refeição em casa. O que tem nos garantido manter a saúde e o orçamento em ordem. Hoje rolou uma exceção. Quem encarou a cozinha foi o Villas e de lá saiu uma iguaria tipicamente mineira: frango com quiabo! Achamos o legume no lindo Mercado de San Lorenzo. Teve também angu, arroz e feijão (compramos já cozido) para acompanhar. Estava delicioso. Agora vou dar um ponto final neste texto para consultar as revistas e os livros de culinária que comprei aqui e que estão me inspirando nessa temporada na Itália. Nossa sorte é que temos andado uma média de dez quilômetros por dia, senão voltaríamos rolando pra casa.

Ratatoulle de legumes

Flor de abobrinha recheada de ricota e empanada