O que você tem a ver com a carta da Apple

Você tem um smartphone? Usa internet? Não tem um smartphone ou usa internet mas conhece alguém que tenha ou use? Se você respondeu sim a uma dessas perguntas então você tem a ver com isso.

Carta aberta da Apple aos consumidores

Você já imaginou o que aconteceria se alguém entrasse na sua casa sempre que quisesse sem o seu consentimento para te observar? Vou te dar 10 segundos pra pensar.

Provavelmente você se sentiria desprotegido e com raiva porque alguém estaria violando uma das coisas mais particulares que você tem: a sua privacidade.

Imagine então uma segunda situação: esse alguém não pode entrar no seu apartamento porque você deixa tudo trancado. Mas alguém do governo pede pra o seu porteiro deixar uma cópia da sua chave debaixo do tapete sem você saber, com o pretexto de só te observar. Como você se sentiria?


Estamos vivendo uma situações parecidas mas em uma esfera muito mais delicada e perigosa. Utilizando a internet e smartphones nós deixamos rastros da nossa vida em todos os lugares. É possível saber todos os nossos passos (literalmente), com quem temos mais contato, o que falamos. Nossos pontos fracos e fortes. O que gostamos de comprar, o que pesquisamos, onde clicamos, quanto tempo passamos lendo uma página. Nossos segredos. Nós somos como João e Maria da era digital, deixando migalhas da nossa vida em todos os lugares.

A princípio, apenas as empresas onde utilizamos esses serviços teriam acesso a esses dados — e o que elas fazem com os dados deve estar previsto nos Termos e Condições de Uso (aquele documento que raramente lemos). Entretanto, como todas as outras, essas empresas estão sujeitas a legislação dos seus países de origem e por lei devem cooperar quando solicitado pela justiça.

O problema é quando um governo abusa desse poder para espionar todas as pessoas. No planeta inteiro. Embora isso pareça um papo de teoria da conspiração pra alguns, infelizmente é um problema bem real e há alguns anos estamos enfrentando.

O governo dos Estados Unidos solicita a liberação dos dados isso não apenas do povo estadunidense mas, pelo menos, de todos que usam algum serviço que seja de empresas de lá, como Google, Facebook, Apple. Entretanto, algumas empresas tem negado informações dos seus usuários com o intuito de protegê-los. Mas isso não impede diversas solicitações para espionar usuários sem a permissão devida.

Achando pouco, o FBI (serviço de segurança e inteligência americana) solicitou a criação de um backdoor no iPhone, alteração no software que tornaria mais fácil a espionagem não só do governo mas de qualquer um com habilidades técnicas — um perigo generalizado. O CEO da Apple, Tim Cook, escreveu uma carta ao público explicando a situação e o posicionamento da Apple.

Tweet do Edward Snowden: "As mudanças técnicas que o FBI demanda tornaria possível invadir um iPhone (5C ou mais velho) em meia hora.

Como sabemos disso?

Muitas decisões são tomadas por governos diversos sem o conhecimento do povo. Com o objetivo de trazer a luz algumas dessas decisões, alguns anos atrás alguns hacktivistas (hackers que usam suas habilidades como ativistas em uma causa) começaram um movimento de compartilhamento de informações privilegiadas. Uma das iniciativas foi o Wikileaks, uma organização sem fins lucrativos que compartilha documentos de empresas e governos que sejam de interesse público. O Wikileaks já compartilhou documentos (incluindo vídeo) sobre a morte de civis no Afeganistão, casos de corrupção no Quênia e também da espionagem dos Estados Unidos nas ligações da presidência do Brasil. Nesse TED Talk o Julian Assange, fundador do Wikileaks, explica porquê o mundo precisa do Wikileaks. Vale a pena conferir!

Há alguns anos atrás o Edward Snowden, ex-analista de segurança do NSA se viu em um dilema entre aceitar assistir os abusos de poder do governo ou agir como um cidadão e denunciar. Felizmente Snowden resolveu denunciar. Não da forma tradicional pois temia que o governo arquivasse o seu caso e o público não ficasse sabendo do que realmente estava acontecendo. Por isso, Snowden resolveu compartilhar os documentos que provavam a espionagem sem autorização com jornais sérios, como o The Guardian.

As revelações contidas nos documentos vazados por Snowden continham informações como gravação de mensagens e ligações de cidadãos, espionagem de líderes de outros países, conexão direta a dados de empresas como Google e Yahoo — tudo isso sem consentimento do público.

Mas porquê o governo dos EUA faz isso?

Uma justificativa utilizada é que esse tipo de vigilância sem o seu consentimento é feita para te proteger. O governo utiliza do argumento de que espionar as pessoas é uma medida preventiva contra o terrorismo, por exemplo. Mas olhando para o número de mortes por terrorismo e mortes por armamento de fogo, por exemplo, a diferença é gritante. Dá uma olhada:

Comparação de mortes por terrorismo e homicídios com armas de fogo

Porquê então não focar esforços em medidas para reduzir o número de homicídios por armas de fogo ao invés de gastar dinheiro e esforços espionando pessoas?

A resposta é bem simples: poder. Informação é poder. Quando você tem dados de milhões de pessoas você pode manipulá-las ou induzi-las, sendo fazendo-as comprar algo de que não precisam ou até mesmo chantageá-las para fazer algo.

“Information is power. But like all power, there are people who want to keep it for themselves.” Aaron Swartz

Isso também esta acontecendo no Brasil!

Você já ouviu falar sobre a PL Espião? O PL215/2015, conhecido como PL Espião, é um projeto que prevê o uso de documento de identidade para acesso a internet em todos os lugares. Isso limita a liberdade de expressão e o controle por parte de políticos a quem tem opiniões contrárias.

Se você é contra pode ajudar ligando ou enviando mensagens para os representantes do seu estado através do projeto TeleMob. Lá você pode encontrar informações de como entrar em contato com os deputados estaduais.

Eu não faço nada de errado, porque eu deveria me preocupar?

A privacidade não é importante apenas quando você tem algo a esconder. Mas sim é o direito que você tem de escolher o que você tem interesse de contar as pessoas ou não. Isso vai muito além. Por exemplo, você tem registros médicos; você pode querer que seja divulgado abertamente para todos ou não. É uma escolha sua e deve ser respeitada como direito básico.

Eu não sou especialista nesse tema mas talvez essas informações sejam úteis para nos ajudar a tomar decisões no futuro. Em uma conversa com John Stojanovski, líder de segurança na ThoughtWorks, ele citou como o maior problema a falta de consciência das pessoas a cerca desse problema. Quanto mais pessoas estiverem conscientes disso, melhor. Se você tem conhecimento técnico, pode ajudar outras pessoas a se tornarem mais cientes desse cuidado. Se você não tem conhecimento técnico, pode procurar mais informações na internet ou com os seus conhecidos que tem. :)

O que você pode fazer?

Cuide dos seus dados como você cuida da chave da sua casa (ou como deveria cuidar). Algumas dicas simples e práticas:

  • Troque periodicamente sua senha e não coloque senhas fáceis de entender (e possíveis de memorizar). Se você tem dificuldades em gerar sua senha pode usar o Diceware;
  • Proteja seus dados de estranhos, como onde você mora, trabalha e estuda;
  • Use senha nos seus dispositivos e não esqueça-os desbloqueados;
  • Use senhas diferentes em diferentes lugares — se achar chato (como sei que é) gerenciar as senhas, você pode usar um programa que gerencia senhas :) ;
  • Criptografe os seus dados (se você não sabe o que é criptografia, sugiro procurar ajuda especializada);
  • Use antivírus e atualize-o, especialmente se você utiliza Windows (sugiro que você mude pro Linux na verdade :P);
  • Mantenha seu sistema operacional atualizado;
  • Leia e compartilhe informações com outras pessoas — conhecimento pode ser libertador.

A situação exposta pela Apple é um problema que está muito mais presente do que imaginamos. Por isso é importante manter-se atualizado sobre o tema! Com alguns minutos de leitura você vai aprendendo mais sobre tema e isso te ajuda a ter um pensamento crítico sobre esse tema e diversos outros.

Agradecimento especial aos meus colegas da ThoughtWorks por terem revisado o artigo :)

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