Quando paixão não é o suficiente

Nem sempre paixão é o suficiente pra manter uma relação. O sentimento pode até existir porém as coisas nem sempre dão certo. Antes de tirar conclusões precipitadas sobre este não-meloso post, é melhor dar uma lida. ;)


Quem já ouviu alguém reclamar sobre o seu trabalho, levante uma das mãos!

Hoje temos uma diversidade muito grande de profissões e áreas de estudo. Com a evolução da ciência e das tecnologias, houve uma granularização dos campos de pesquisa e, para acompanhar também a nossa evolução quanto civilização, novos postos de atuação. Apesar de muitas opções profissionais, é muito comum encontrar pessoas que estejam insatisfeitas com seus trabalhos ou frustradas com a carreira que escolheram. Não se sabe* exatamente se isso ocorre por falta de conhecimento da área escolhida ou por não ter descoberto ainda onde querem atuar.

Bom, e o que paixão tem a ver com isso?

Antes de continuar, vamos a definição:

paixão1
sf (lat passione) 1 Sentimento forte, como o amor, o ódio etc. 2 Movimento impetuoso da alma para o bem ou para o mal. 3 Mais comumente paixão designa amor, atração de um sexo pelo outro. 4 Gosto muito vivo, acentuada predileção por alguma coisa. 5 A coisa, o objeto dessa predileção. 6 Parcialidade, prevenção pró ou contra alguma coisa. 7 Desgosto, mágoa, sofrimento prolongado. 8 Os tormentos padecidos por Cristo ou pelos mártires. (Michaelis)

Paixão é algo que nos move. É um dos sentimentos mais motivadores que existe. Quando se está apaixonado, as horas parecem passar mais rápido, nenhuma barreira é intransponível (para alguns) e tudo fica mais gostoso. Faz-se de tudo para estar perto, sem razão aparente. A paixão põe brilho no olhar. Bonito, não?

Na carreira profissional não vejo como ser diferente; a pessoa deve fazer realmente algo pelo que é apaixonada. Quem tem paixão pelo que faz, faz bem feito. Se perde entre o que é trabalho e o que é lazer. Um profissional apaixonado procura dar o melhor de si e ser muito bom. A sua atuação passa a ser movida pelo prazer em atuar e não cumprir horários apenas. Um vendedor apaixonado pelo que faz busca para o cliente um produto como se fosse pra ele mesmo. Um médico apaixonado pelo que faz trata o paciente como a um ente querido. E por aí vai.

Antes mesmo de eu pensar nisso, o Steve Jobs já “pregava” essa ideia há algum tempo.

Mas… Paixão não é tudo.

Antes eu acreditava que só ser apaixonado pelo que faz era o bastante para ser feliz e que o sentimento moveria céus e terra e daria tudo certo. Então, a carruagem virou abóbora e eu constatei que não é bem assim.

Tenho concluído que paixão apenas não é o suficiente pra manter uma relação. Por mais que você goste do que faz, caso não haja um ambiente agradável para trabalhar, com um clima bacana, reconhecimento e perspectiva, chegará um tempo que a paixão não será o suficiente.

Empresas e colaboradores mantém um relacionamento. As duas partes tem expectativas e coisas a oferecer. As empresas são criadas com o propósito de resolver um problema (seja qual for) e são formadas por pessoas. Para resolver o problema a qual se propuseram, precisa que as pessoas tenham as habilidades necessárias. Por outro lado, pessoas precisam ser compreendidas. Parafraseando a amiga Layz Costa, pessoas são histórias, feridas e motivos. Pessoas tem sonhos e objetivos de vida. Olhando para a pirâmide de Maslow, que ilustra as necessidades humanas (exceto a internet, por enquanto :) ), podemos perceber que as duas primeiras estão relacionadas sobre como o indivíduo lida consigo mesmo.

O indivíduo deve enxergar maneiras de realizar-se pessoalmente dentro do seu trabalho. Durante uma consultoria em uma empresa, o consultor comentou algo sobre isso que eu não esqueci: “Empresas e funcionários devem manter uma relação de namoro. Se não está satisfatório pra uma das partes, tem que conversar e mudar.”

Falhas cometidas por empresas

  • Querem o príncipe encantado…

Tem empresas que parecem umas amigas encalhadas que eu tenho: buscam um colaborador perfeito. Algumas descrições de vagas chegam a ser exageradas.

Nem todo mundo é o Aristeu

O colaborador não vai usar nem 50% das habilidades descritas na vaga mas está ali porque é uma projeção do colaborador que a empresa quer ter um dia. Caso consiga alguém com todas as habilidades, este alguém sente-se frustrado por “sobrar” em um lugar que não aproveita todo o seu potencial.

Cobram o universo mas oferecem NADA em troca. É muito cômodo oferecer o mínimo (sim, existe o trocadilho com o salário mínimo) enquanto tem-se muito mais que isso. Se você (presidente, gerente, sei lá quem) quer pessoas engajadas no seu time, dê a elas motivos pra isso. Motivos não necessariamente financeiros. Dinheiro é bom? SIM. Mas não é tudo. Reconhecimento, valorização do profissional e perspectiva de crescimento também são muito importantes. Se as pessoas crescem, a empresa cresce também. Reciprocidade é essencial em qualquer relacionamento (aqui falo eu com meus vastos vinte e poucos anos de experiência). Não cobre apenas algo bom mas seja também algo bom!

“Nossa maior riqueza são os nossos clientes e colaboradores”. Quem nunca leu essa frase em valores de empresas? Não basta o discurso ser esse; na prática isso precisa acontecer. Palavras podem ser muito bonitas, podem massagear o ego, podem ajudar você a ponderar decisões enquanto aguarda alguma coisa acontecer porém, no fim das contas, não surtem nenhum resultado real. É bem clichê mas ao mesmo tempo muito verdadeiro: as atitudes falam mais alto que as palavras. As palavras devem estar condizentes com o que acontece no dia-a-dia, em cada conversa, em cada reunião, em cada decisão.

Falhas cometidas por colaboradores

  • Começa a namorar sem conhecer direito

Como assim?

Já devo ter feito mais de 100 entrevistas durante a minha carreira e já entrevistei muitos tipos diferentes de candidatos. Ao longo dessas entrevistas percebi que as pessoas sentem-se inibidas para perguntar sobre os valores dos salários, benefícios e planos de carreira.

Quem quer namorar com um mero desconhecido? A menos que o desconhecido seja Caio Castro, ninguém. Durante a entrevista é importante saber o que você irá fazer, qual o ramo de atividade da empresa e quais as perspectivas a empresa tem pra você. Não tem problema algum perguntar qual será a remuneração e se existe um plano de carreira. Caso exista algum problema, fique atento. Isto pode ser um sinal. :P

Durante uma discussão da lista de emails DEV-FSA alguém comentou que seria interessante que as empresas divulgassem qual o valor do salário junto com a descrição da vaga. Seria interessante também especificar possíveis benefícios. Endosso esta ideia.

  • Se permitir ser tratado como uma “aventura”

Trabalho também é rotina. São dias seguidos de horários geralmente pré-definidos e, em alguns momentos, tarefas repetitivas. É importante conhecer qual o objetivo da empresa, onde você está inserido e onde pode chegar (plano de carreira). Pense a longo prazo. Se a empresa onde almeja estar ou atua hoje não tem este plano, pergunte, afinal, ninguém quer se ver como uma “aventura”.

  • “I’ll be a fool for you…”

Eu acho linda a música Endless Love, do Lionel Richie. Tudo bem você bancar o papel de bobo desde que SEJA RECÍPROCO. O “bobo” neste contexto significa quem faz coisas que contrariam a lógica do senso comum. Ou seja, esforçar-se muito e não perceber/receber um retorno. Independente de onde você esteja, deves sempre fazer o melhor, não por onde está mas por você mesmo. Sua marca ficará registrada. Aqui chamo atenção para pessoas que continuam se esforçando além do devido e depois frustram-se por não serem reconhecidos ou não terem suas expectativas atendidas.

E quando paixão não é suficiente?

Em primeiro plano, você precisa saber o que quer.

Parafraseando um adágio bastante comum digo que se você não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve. Você pode ser ótimo em muitas coisas, ser apaixonado pelo o que faz mas está trabalhando num lugar longe de ser o dos sonhos. Culpa de quem? Sua.

Deixarei aqui alguns conselhos:

Coloque a sua paixão em um lugar que corresponda as suas expectativas. Não perca seu tempo. Esteja em um lugar que te coloque pra cima e que te realize profissionalmente dentro do que você espera.

Sonhe com metas. Sonhar apenas não leva a lugar algum. Mas se você colocar metas (específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e temporais***) terá um caminho a perseguir para realização do sonho.

Faça tudo o que depende de você. Alguém postou no meu Facebook uma certa vez: “desejo a você sorte porque sucesso só depende de você”. Isso ficou marcado em minha mente e o pensamento que carrego é: faça tudo o que estiver a seu alcance para ser realizado; o que não depender de você, se tiver de ser, virá de alguma forma.

Tenha um propósito de vida. Um certo alguém (que admirava bastante) me perguntou: “Porque você prefere ter uma startup a ter um emprego estável através de um concurso público ou em uma empresa privada? Não ganha dinheiro do mesmo jeito?” Eu prontamente respondi que estava empreendendo para ter a chance de fazer algo que eu acreditasse ser significativo e que fosse meu. Ele prontamente entendeu que não se tratava de dinheiro mas de um propósito de vida.

Às vezes eu vejo grandes revistas postarem por aí matérias como “5 dicas para ser feliz no trabalho” ou “como deixar seus colaboradores motivados” e me sinto cética. Em alguns momentos chego até a ler as matérias para rir entender melhor como pensam. Não dá pra colocar as coisas em um formato e achar que é uma receita de bolo. Existem diversas questões para se “colocar na mesa” antes de tomar uma decisão.

Se você quer salvar o relacionamento com a empresa em que trabalha ou com o seu colaborador, antes de qualquer coisa, converse. Pondere o que deseja e exponha suas expectativas. Tem coisas que não mudam, mas é preciso tentar antes de mudar o rumo.

E se você está “desanimado, triste, sem vontade de cantar uma bela canção”…

… aqui uma webserie chamada Continue Curioso, sobre pessoas que atuam com o que gostam (conheci através de uma matéria publicada no Catraca Livre). Também tem os conselhos do cartunista Bill Waterson, em uma tirinha traduzida e publicada no Papo de Homem (que também serve para as mulheres ;) ).

Este é o meu ponto de vista. Posso estar errada — ou não.

Quero discussões! O que você acha disso?

Ana. ❤

PS.: pra não dizer que não falei de amor, segue a recomendação de umapalestrabacana da Helen Fisher noTED, contando sobre o que acontece no nosso cérebro quando estamos apaixonados (e também quando levamos um fora). Enjoy!

* não encontrei nenhum estudo mas se alguém souber, fala comigo.

** estou coletando opiniões e mais insumos para um post sobre Colaboradores e Funcionários. Não esqueci! :)

*** metas SMART: definição de metas segundo o EMPRETEC. Melhor explicadas aqui.


Originally published at embuscadosim.tumblr.com.

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