Rails Girls São Paulo 2017 e o meu primeiro deploy
Um breve depoimento sobre empoderamento de mulheres na tecnologia e a sensação de rodar um site que você fez pela primeira vez.

Foram dois dias chuvosos (18 e 19/08/2017) que abrigaram aqui em São Paulo mais uma edição do Rails Girls, uma iniciativa global para inclusão de mulheres na tecnologia através de palestras e mentorias técnicas. O projeto é completamente gratuito para quem participa e além de um time de organizadoras e mentoras voluntárias, ele acontece graças ao apoio de várias empresas locais.
Eu sempre vejo muitas pessoas falando sobre o benefício de programas que incentivam diversidade dentro da tecnologia, mas raramente vejo os resultados desses projetos mais escancarados, ou participantes comentando fora do espaço do evento sobre a experiência, o que fazer depois para seguir aprendendo e como contribuir de volta.
Eu trabalho com Marketing há uns bons 10 anos, e qualquer experiência que eu tenho com desenvolvimento foi completamente autodidata e focada em frontend, mas de maneira muito rasa. Na época que a internet brasileira era bem menos zueira e bem mais mato, eu comecei a criar blogs e mexer em cores, estilos e tudo mais. Mais tarde, durante o meu mestrado, eu comecei a criar peças um pouco mais complexas, mas ainda assim focando muito em frontend. Se eu tivesse seguido com isso, provavelmente hoje eu estaria muito melhor no que eu faço e não teria abandonado uma atividade que além de ser super legal, é muito valorizada no mercado de trabalho.
A verdade é que não sei o que me afastou disso. Algo dentro de mim sempre disse que seria difícil demais, custoso demais (financeira e emocionalmente), e que, de alguma forma, mexer em código não era pra mim.
Estar há cerca de um ano e meio trabalhando em consultorias de tecnologia me mostrou que todas as limitações colocadas nas minorias da área são apenas fumaça, mas esses dois dias foram fundamentais para que eu entendesse na prática que é possível (re)aprender.
O processo de ter mentoria técnica e prática aliadas à construção de uma comunidade ao redor de um propósito bem simples não é algo novo em áreas mais técnicas, especialmente na tecnologia, onde meetups e dojos são bem comuns, mas esses espaços raramente são inclusivos e convidativos para qualquer tipo de pessoa que fuja o padrão de nerd que a gente conhece.
O site do projeto PrograMaria explica de maneira bem sucinta e baseada em estatísticas o que é #SerMulherEmTech, então vou me manter no foco de falar apenas o impacto que eu senti ao participar do Rails Girls São Paulo 2017.
Existem algumas coisas que acontecem na sua vida que te fazem perceber o quanto você é sortuda, três delas ficaram bem óbvias pra mim nesse fim de semana:
- Ser amiga da Maitê, que é mentora do projeto há três anos seguidos, e poder ter certeza que ela vai ficar feliz de verdade quando eu mandar mensagens tipo essa:
- Estar com um parceiro (que é menos de crime e mais de Pokémon) como o Bruno, que não só me faz pensar sobre cada comando que escrevo, mas também comemora comigo minha primeira tentativa de deploy, e minha primeira falha.

- Estar na Lambda3 e ter passado pela ThoughtWorks, ambos ambientes onde é possível contribuir para esse trabalho incrível e de formiguinha que é cuidar de comunidades e apoiar um ecossistema mais inclusivo e diverso na tecnologia;
Mas trabalhar em empresas inclusivas e ter pessoas que além de conhecimento técnico, te dão suporte pra seguir em frente é um baita privilégio, e é por isso que comunidades como o Rails Girls são importantes.
Desde o início das atividades, existe um esforço muito grande para que todas as participantes se sintam confortáveis em estar ali, seja pela escolha de um ambiente bem estruturado e receptivo (essa edição rolou no escritório do Nubank), até a paciência infinita e irrestrita das mentoras, que sentam ao seu lado ditando comandos e explicando o que cada um deles faz.
É muito importante ressaltar o esforço que a organização faz em ter um grupo de mentoras formado 100% por mulheres, mesmo que nem todas sejam pessoas seniores ou desenvolvam em Ruby. Dessa forma, o projeto faz um esforço dobrado de instruir pessoas que estão interessadas na tecnologia e possibilitar a formação contínua de quem já está no mercado (o que não significa que se você não se identifica como pessoa do gênero feminino, não possa apoiar e participar da iniciativa).
Agora vou colocar o chapéu de participante, e contar que sentar durante um dia todo aprendendo coisas novas e chegar ao momento em que um monte de palavras e sinais (antes) sem sentido viram uma página, e essa página funciona te dá uma sensação bem grande de empoderamento, além do sentimento do que significa poder mudar uma vida ao compartilhar conhecimento (o que parece algo bem óbvio e um tanto autoajuda, mas que a gente só se dá conta em momentos como esse).
Sentir que as mentoras ficam sinceramente felizes em te ver fazer algo que para elas é (muitas vezes) extremamente simples é a forma mais pura de sororidade que eu vivenciei nos últimos tempos.


Terminada essa edição do Rails Girls, uma das curiosidades que me veio é saber quantas dessas mulheres seguem adiante nessa jornada, que a gente sabe que vai ter dificuldades muito maiores que aprender o que é uma variável. Não existem muitos dados disponíveis sobre isso, mas se você é uma mulher na tecnologia que iniciou sua carreira por conta de um evento para inclusão de mulheres na tecnologia, eu adoraria que você desse um salve! nesse post.
O que eu posso fazer para ajudar nesse momento, é deixar algumas dicas sobre o que eu fiz quando cheguei em casa:
O meu primeiro deploy
Durante as atividades do projeto não tivemos tempo para rodar nossa aplicação na Internet, mas no site do Heroku você encontra as instruções de como instalar as ferramentas, e no Rails Girl Guide tem um passo-a-passo que vão te ajudar a fazer isso.
Em um primeiro momento, eu achei que ia ser besteira colocar minha aplicação online, eu já tinha feito, e ela tá meio feia e bem inicial, mas o Bruno me convenceu a fazer isso e me prometeu que ia fazer a diferença, e ele não errou. Mesmo sendo um site bem besta, eu tive vontade de mostrar pra todo mundo que eu achei que pudesse se importar com o que tinha feito, e isso nos ensina que celebrar as pequenas vitórias é tão importante quanto correr atrás da resolução de pequenos erros que acontecem no meio do caminho, e te mantém com um objetivo no horizonte, de maneira bem objetiva.
Aprendizado contínuo
Aproveitar enquanto você ainda está super empolgada com o que você fez para seguir aprendendo é uma das coisas que me mantém mais engajada em uma jornada de aprendizado, e aprender com recursos que te dão um resultado rápido, concreto e visível, é uma das maneiras mais fácil e seguir aprendendo. Essas foram as formas que encontrei de fazer isso:
- Try Ruby: 7 lições fáceis e rápidas que te ensinam o básico de programação e Ruby em 15 minutos;
- Rails for Zombies Redux: Rails é um framework (estrutura que te apoia na solução de problemas mais complexos) de Ruby, e o Rails for Zombies é a maneira mais divertida de aprendê-lo;
- Ruby Monkey: agora que você já sabe um pouco mais sobre Ruby, aqui você aprende como deixar seu código melhor;
- The Why Guide to Ruby: Como se convencer a seguir na linguagem, com raposinhas;
- Ruby Koans: a maneira mais zen de aprender Ruby.
Existem muitos cursos (pagos ou gratuitos) por aí, e essa é uma área que se move com uma velocidade absurda, então minha dica (super inspirada nesse texto)é:
- Escolha um recurso por vez, e foque nele até você concluí-lo. Aprender a programar e aperfeiçoar a técnica é algo que leva tempo, e fazer parte de um grupo de diversidade significa já ter um nível de cobrança bem alto em você desde o começo, então vamos com calma;
- Descubra qual o problema que você quer resolver (obrigada, Bruno!), e encontre qual a linguagem que vai ter ajudar a resolvê-lo da maneira mais fácil e rápida;
- Programar é uma série de resolução de problemas, comece a resolvê-los da base e construa complexidade em cima disso, metodologias ágeis e entrega contínua são ótimas maneiras de sempre agregar valor ao que você está construindo e enxergar resultados ao mesmo tempo.
Nesses links você vai achar um monte de formas de aprender a aprimorar seu conhecimento, mas fazer isso acompanhada é bem mais legal, então aqui no Twitter e no Facebook do Rails Girls São Paulo você pode se conectar com pessoas que também estão nessa jornada. :)
E isso tudo foi só pra dizer: só vem. ❤
