Necessidades básicas

Durante toda a minha vida eu ouvi as pessoas dizendo que ter um lar e uma família eram coisas fundamentais pra uma vida boa. “Bobagem”, era o que eu pensava. Sabia que existiam pessoas que tinham família e mesmo assim eram tristes — e eu, no auge da minha sabedoria, me considerava parte desse grupo. Ansiava ser uma dessas pessoas solitárias que vivem em mansões em meio a gatos, livros e paredes nuas. Eu me imaginava como uma pessoa bem sucedida que se veste bem, tem o carro do ano e come o que tem vontade. Essa era a minha pirâmide de maslow. Considerava “lar doce lar” uma farsa e ria dos que eram iludidos por ela.

O tempo passou e fez com que eu tivesse mais certeza disso, mas abalou a minha ideia de vida perfeita. Mudei de ares e conheci pessoas que tinham a vida que eu sonhava e, assim como eu, viviam na companhia do cão negro. Não fazia o menor sentido. Como é que alguém pode ter tudo e não ser feliz?

Em momentos de lucidez, eu lembrava a mim mesma que as pessoas têm diferentes necessidades: que o que é supérfluo para mim pode ser fundamental pra plenitude de outrem, e que algo que é irrelevante pra alguém pode fazer parte do meu ideal de vida. Mas, na maior parte do tempo, eu pensava que a vida dos outros era muito mais fáceis que as minhas e que as reclamações eram vãs.

Porém, num lapso de sabedoria, proporcionado por um momento de melancolia, eu entendi. O grande problema está na ideia que temos de “lar” e de “família”. Um lar não é, necessariamente, uma casa com quartos, sala e cozinha, e uma família não é definida por laços de sangue. Um lar pode ser um parque, uma biblioteca, uma praia. E uma família pode ser feita de amigos, de gatos ou de desconhecidos encontrados por acaso num dia qualquer. Família é o que faz a gente se sentir bem, e lar é onde a gente se sente confortável.

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