24gr de amor

Eu ganhei a paçoca da foto de uma amiga, há mais de um ano. Foram, em verdade, duas delas, mas eu não quis comer a segunda, quis guardar.
Por alguma razão, no dia que ela me deu — sem motivo nenhum, apenas me levou aquelas paçocas — era exatamente o que eu precisava, um gesto simples e cheio de amor.
Frequentemente pode-se ter dias em que as coisas não estão bem; na cabeça, nas ideias, na vida. Eu nem sequer me lembro bem o motivo do meu desânimo naquele dia, mas o principal é que eu lembro a beleza de um gesto tão doce, (licença poética para ambiguidade, por favor).
Faz mais de um ano e até hoje essa paçoca estava ao lado do meu espelho, junto com muitas outras pequenas coisas que vou guardando; fechada, como se o embrulho protegesse também o amor que veio junto, ali dentro, aqueles 24 gramas guardados para nunca se perder.
Em casa já tinham me dito para jogar fora, há um bom tempo. Mas me pareceu sempre algo inadmissível. Como eu jogaria fora amor? Como alguém podia me dizer para fazer tal coisa? Era quase impensável, absurdamente insensível, na minha cabeça.
No meu quarto tem muitas coisas que são tranqueiras, lixos, bobagens, papeizinhos à toa, bonequinhos infantis demais para alguém com mais de duas décadas de vida. Eles são tudo isso, para qualquer um que não eu. Eu guardo grandes significados em pequenas coisas. E me lembro de todos esses significados, dos momentos que tive com essas coisinhas, quem estava do meu lado e de onde vieram: uma dobradura de cachorro, que foi chamado de Stuart, que um aluno me deu, dois tsurus (aves de origami) do casamento da minha prima, um chaveirinho com um minion que ganhei d’um amigo, um caule de uma rosa que ganhei de dois amigos, um copo com o desenho do Snoopy que ganhei de uma amiga, um papelzinho de anotação com um “unicórnio bebê” desenhado que guardei de uma aluna, uma fita de cetim vermelha que peguei numa escola numa abertura de jogos de interclasse de alguns alunos meus, três joaninhas que ganhei de outra amiga… isso.. aquilo e aquilo outro. Conseguiria escrever um livro com todas essas lindas bugigangas e tudo que elas significam. Elas são de extrema importância para mim.
Veja bem, ou talvez, leia bem.
Desde que tive alguma noção do que é o mundo, dentro da minha visão, e de como são as coisas, tive dificuldade de me enxergar como parte real deste mesmo mundo. Carrego-me pelos dias num constante sentimento de ser/estar alheia. Alheia à realidade. Alheia à vida. Já me peguei apertando meus dedos, meus braços, para tentar ter alguma certeza de que estou aqui mesmo. Crises existenciais à parte, isso me acontece também com sentimentos, com ideias, com comprometimentos invisíveis, com conexões humanas e emoções. Então, esse jeito distorcido, (“acúmulo”), é como eu consigo me manter certa de que essas coisas existem e que fazem parte de mim e da minha vida. É bobo. E deveria ser desnecessário, mas pelo menos por enquanto é isso que me faz acreditar em laços de amizade, de amor, de carinho, de admiração, é o que me faz crer na concretude deles em mim, além de me fazer guardar, tanto o concreto quanto o abstrato, com o maior carinho que consigo.
Enquanto eu não aprender a acreditar nessas coisas dentro de mim com a mesma força que consigo acreditar quando tenho essas mil quinquilharias em mãos, vou continuar apegada as minhas caixas de lembranças e aos meus cadernos com mil histórias contadas dos dias que já passaram, das alianças que se formaram e que se foram. Morrer de nostalgia todo dia.
Se você estudar o desenvolvimento infantil, de acordo com alguns autores, vai ver que deve-se seguir uma linha em que a criança sai do concreto e vai adentrando o abstrato, cada vez mais perto do abstrato ela deve ser capaz de abandonar o concreto. Pois sou uma criança, emocionalmente. E aceito ser. Acima disso, aceito, para mim e para mim apenas, que devo andar novos caminhos para atingir à abstração que me é necessária.
Por isso, hoje, eu joguei aquela paçoca no lixo, minha mãe deu glória a deus e disse que uma alma irá para o céu por isso, sobre almas eu não sei, mas por mais que tenha sentido jogar aquela paçoca fora, eu continuo acreditando no carinho que veio com ela e que existe entre mim e a pessoa que me deu. Fez-me bem.
Claramente eu guardei a embalagem. Acredito que nunca eliminarei o hábito de obter e guardar todos esses resquícios de vida, mas com tempo estarei mais certa da real existência do que essas coisas representam, sem a indissolubilidade deles com esses resquícios concretos.
Não tenho mais como segurar em mãos aquele pequeno amor que foi oferecido — meio concreto, meio abstrato, assim como eu: 24 gramas de amor, mas sua existência real e abstrata em mim, hoje pesam imensamente mais.
