A terrible person
Eu recebi uma ligação. Eu não gosto de ligações. Sempre que posso as evito, nunca soube dizer bem qual é o meu desgosto em ligar ou receber ligações, mas é assim. Talvez o desprazer em ligações tenha me feito pensar e me sentir mal de maneira mais exagerada do que deveria, hoje.
O fato é que esta ligação, como outras que já recebi das mesmas pessoas, me lembra da minha culpa e da minha indiferença com aqueles que deveriam estar guardados com carinho, atenciosamente em algum lugar aconchegante em mim, ao invés disso, lhes dou esquecimento. Meu egoísmo. Minha vida distante somada ao meu instinto em distanciar-me. Minha falta de interesse. Minha aversão às ideias trazidas com tal aproximação. Meu egoísmo.
Enquanto eu fico horas na cama a cada dia dessas curtas férias, alguém me espera em algum lugar. Alguém de quem eu mal lembro — bom, mal lembro é um termo sutil, praticamente nunca lembro — no dia a dia, no qual eu não dedico pensamento e se dedico, muitas vezes sou incapaz de me ater a bons pensamentos. Por vezes, quando o assunto é trazido à tona é como se fosse um passado muito, muito distante como se não fizesse mais parte dos meus dias e estivesse enterrado em minha vida. Por que tanta indiferença? Por que eu não guardo carinho genuíno por eles? Por que eles não me preocupam e não estão em minha mente dia após dia como tantos outros problemas e não-problemas incrivelmente banais, nos quais eu me debruço esmiuçando cada vertente do assunto. Mas não eles. Eu posso ter motivos para mágoas, mas ainda assim, estou além disso. Tenho mais motivos para guardá-los bem, mas não o faço e então penso se meu carinho, afeto e laço são apenas frutos de obrigações que sinto ter, conexões invisíveis que me seguram.
Sou muito boa em estar sozinha. Sou boa em ser sozinha.

Eu faço os mais mirabolantes planos. Imagino os mais diversos cenários. Crio imensas ilusões de vida, de morte, de carreira, de amigos.
Eles nunca estão incluídos. Não estão nos meus planos, nem nos cenários ou nas ilusões. Isso deveria ser óbvio, são coisas que crio justamente para sair da realidade que estou ou estive, mas por que não? Por que nenhum pensamento ou fragmento de papel em minha vida — ilusória ou real— cabe a eles? Não os desprezo, do contrário tenho apreço por tudo que passaram, fizeram, fazer e com certeza farão.
O que acontece é que sou, de fato, muito boa em ser sozinha.
Não são eles que não incluo em minhas ideias ou em meus planos. Não incluo quase ninguém.
Em qualquer cenário inventado, seja ele um verdadeiro ideal ou não, estou só. Não levo ninguém comigo. A imaginação sempre cria um mundo, uma realidade na qual eu vivo só; onde não há eles de lá nem eles de cá, só eu, de alguma forma em paz, de alguma forma bem, apaziguando minhas paranoias e inseguranças acerca de meus relacionamentos pela vida.
Estamos todos sós neste mundo, não estamos?! Então qual o grande problema?
Primeiramente, não são muitos que realmente acreditam nisso e os que no fundo acreditam, na superfície estão ignorando e vivendo como se nunca tivessem pensado isso, pois é uma angústia. Tendo isso, são muitos os que não creem nisso — há poucos niilistas na sociedade.
Ao entrar em relacionamentos com os que não acreditam estarem sozinhos no mundo estou fadada a desapontá-los, cedo ou tarde.
Os inúmeros cenários que posso me imaginar vivendo, nos quais eles não estão, são perfeitamente plausíveis para mim. Não porque não tenho carinho por eles, de fato, tenho muito e é justamente isso que me faz sentir uma pessoa terrível. Mas simplesmente porque fico bem sozinha.
Como eu posso, tão displicentemente, ter em minha mente vidas longe deles? Não os acho dispensáveis, mas não acho indispensáveis. Eu poderia me assustar com tal afirmação, que parece incrivelmente indiferente a quem quer que se dirija, porém, para mim sempre foi o toque especial de todo relacionamento que travei, sempre foi o que me fez querer realmente dividir meu tempo com tais eles. O fato de eu não estritamente precisar estar com nenhum deles, mas querer, escolher dividir meu tempo com eles; isso é que me faz ter ainda mais carinho por cada um. Mas isso não me tira, jamais, do posto de sentir-me como alguém terrivelmente cruel, por não encaixar nas minhas imaginações de vida, de futuro: eles; que são tantos, que conheci de tantos lugares, que já dividiram tantas coisas. E eu estaria em outro lugar, em outra vida, completamente diferente, incrivelmente longe, se pudesse, sem pensar muito.
A minha “mania” de isolamento e distância tem boas chances de machucar as pessoas mais próximas à mim, que eu quero e que me querem bem. Mas é algo natural, eu acho. Simplesmente me vejo bem, seja como uma velha professora num pequeno apartamento, sem filiações, sem conexões, a sós comigo mesma e meus devaneios. Seja como uma escritora, muito longe daqui, talvez com outro nome. Seja como uma aeromoça, a cada dia em um lugar distante, sem contato. Seja como uma editora, há muito isolada, vivendo em café, paçocas e poeira das literaturas empilhadas pelos cantos. Perco-me tanto nesses cenários, confesso, não penso em colocar mais nada, mais ninguém.
Talvez minhas inseguranças estejam acima do que eu imagino, fazendo imaginar tais coisas para o bem deles. Ou eu realmente só tenha um dom para ser/estar sozinha.
Em qualquer cenário, sou aquela pessoa péssima que não pensa e não lembra tanto quanto deveria, em quem deveria e que pensa poder passar muito bem sem e como se não fosse o bastante é ainda cruel para irritar-se e ficar aborrecida de receber tais ligações.
Se eu posso ficar sem eles, eles não estariam melhor sem mim?
“Just a dream in the moonlight.
My honey I know, with the dawn, that you will be gone.”
