Linhas

Eu fiz diferença num gráfico. Um gráfico simples, como os de batimentos cardíacos, que tem apenas uma linha que oscila de baixo para cima e de cima para baixo conforme os dados se alteram. Pois então, eu fiz os dados se alterarem. Eu fiz diferença num gráfico.


Adentrar um mundo um tanto desconhecido. Mergulhar em novas ideias, em novos mundos. Faz com que vejamos novas facetas. Desperta novos sentimentos. Eu gosto; conhecer novas coisas. Deixar-se impregnar, em tudo, por algo que lhe é interessante, entusiasmante, energizante, que lhe emociona, faz rir e sentir.

Entrei nesse mundo. A porta de entrada é provavelmente o único fragmento deste mundo que terei acesso, o único vislumbre (e que lindo) que me será permitido. Agarrei-me a esta porta, com força. Mergulhei neste mundo, com força. Li todas as linhas, entrelinhas, notas e observações. Nada pode ter me escapado, não, porque é só o que eu vou ter.

Eu sei. Conheço este meu comportamento, de lançar-me.

Quando encontro algo realmente estonteante, excepcional, algo que me faz parar o que faço, o que penso e pensar e sentir apenas aquilo.

Pode ser uma história, um ideia nova, um programa na televisão, uma série, um livro, um desenho animado, um sistema filosófico incrível, um engenho mecânico fascinante, etc. Podem ser tantas coisas… E o sentimento é inigualável, a vontade de conhecer e de conhecer mais e saber tudo que há para saber, o vislumbrar-se, como uma criança aprendendo a andar de bicicleta, a excitação com algo novo, acontecendo bem na sua frente, contigo.

Eu faço tanto isso. Deixo-me levar com tudo e vou mergulhando cada vez mais fundo, até parecer que não há mais nada para se interessar no mundo. Até me deixar extasiada, nocauteando-me profundamente com emoções…desta vez foi este mundo.

Eu faço isso tanto, por que fazer justamente com o que não me é possível mergulhar mais além do que a porta?

Este mundo é inacessível para mim. É um outro lugar, uma outra terra, da qual não tenho chances de me aproximar. Não importa o quão fundo tenha mergulhado, nunca vou ter mergulhado além daquele espaço de porta que tenho. E que tenho apenas por estar disponível a muitos além de mim. Este novo mundo, fez imensa diferença para mim, nas últimas semanas e fez parte dos meus pensamentos.

— Vejo-me debruçada, paralisada de comoção perante este magnífico mundo. Já sentiu isso? Já se maravilhou com algo? Já teve lágrimas tiradas de ti? Risos? Já mergulhou, por inteiro, com toda força, de todo jeito, com vontade em cada fibra do corpo dentro de algo? — Eu sei que não vai me fazer bem daqui um tempo, lembrar toda essa emoção em me jogar. Pois sei que os caminhos que ligam o mundo em que estou não tem mais muitos meios de conexão àquele.

Ah! Quanta bagunça, quantos enigmas, quanta dispersão de pensamento.

Pois fazer o que!? Estou perdida. Por dentro da fresta de mundo que tenho, não quero sair, é lindo demais para que eu deixe de lado.

Tenho que deixar de lado.

Há razões, há acontecimentos, há regras, há convenções, há decoro e há limites que não podem ser quebrados ou abandonados. Há tanta vida que me impede, há a vida que tanto impossibilita.

Tenho que deixar de lado. Aceitar o mundo como ele é. Aceitar que caminhos ligam diversos lugares em inúmeras possibilidades, mas não este mundo àquele.

Que bagunça!

Por que tomo sempre o rumo errado?

Decido, pois, que em honra a este mundo que adentrei tomarei as verdadeiras decisões, as que sempre ficaram escondidas em mim enquanto eu brincava de viver, pulando de um dia ao outro com meias decisões e meios pensamentos.

Por que dessa vez não podia eu ter ouvido a mim mesma?

Porque não. Paciência.

Inevitável. É inevitável não me deixar mergulhar, o encantamento é imenso, não resisto a tanta beleza, tanta vida. E não me envergonho disso, sei que ainda farei o mesmo outras vezes. No fim, sempre vale a pena. Admirar belezas, mesmo que de uma certa distância, não as diminui.

E é tudo tão incrível(!)


Eu fiz os dados se alterarem. Por causa dessa minha afetação e interesse com este mundo, por causa do meu mergulho, (o quanto me foi possível), eu fiz uma linha se erguer. Aquela linha calma de um gráfico que não se movia se moveu, por minha causa, o número que a acompanha também se alterou e eu soube que era real. Assim, de alguma forma, minha mente se acalmou, por perceber que algo tão deslumbrante existia, a mente se acalmou, feliz por saber que aquele mundo existe.

Eu fiz a diferença naquele gráfico, mas ele nunca terá noção da diferença que fez em mim.

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