JamesGatz
JamesGatz
Jul 21, 2017 · 6 min read

“Fazer o pior parece a melhor decisão.”

Não é difícil que eu me interesse ou mesmo me fascine por coisas ao meu redor, das mais simples às mais complexas. É interessante admirar o mundo como ele é ou como se apresenta, conhecer as pessoas como são ou como se apresentam. Não é com pouca frequência que me pego distraída com os detalhes do ambiente, refletindo — provavelmente muito mais do que deveria — sobre suas formas, seus jeitos, seus propósitos… Talvez eu precise trabalhar a minha atenção, talvez eu seja um tanto louca, talvez eu deva estabelecer um foco e talvez não.

Mas é verdade, eu me perco em reflexões mirabolantes e fantasias cotidianas. Uma imaginação fértil e infantil — talvez demasiadamente infantil — sempre me ajudou a nunca largar o hábito de observar as coisas por entre suas facetas. É nas entrelinhas das verdades do mundo que a vida fica interessante, pelo menos a mim.

Veja bem, como muitos já fizeram, crianças ou não, e como muitos ainda farão, eu já me coloquei a olhar o céu e achar desenhos nas nuvens e já parei por um (por vários) instantes o que fazia para ver um avião que passava. Atualmente, quando vejo um avião, já não é com o mesmo entusiasmo, pois já vi vários, não penso exatamente as mesmas coisas e não tenho o mesmo sentimento de arrebatamento que tinha quando era menor. Mas estou procurando um caminho de volta.

Sim.

…toda vez que eu via um avião eu imaginava como deveria ser estar lá, dentro dele, lá encima, olhando para baixo, vendo as pessoas como formiguinhas, da mesma forma que naquele momento eu via o avião como uma formiguinha voadora passeando no azul. Eu criava mundos no qual eu estava sempre a um passo de entrar num deles e sair pelos céus, fosse para escapar algum dia ruim ou para entrar em alguma lunática jornada galáctica que a minha cabeça de criança tivesse inventado.

Crescendo mais um pouco eu fui descobrindo, um dia de cada vez, as nuances da vida, da existência humana que me cabia e fui me dando conta do futuro, de um futuro que eu não tinha, mas que estava sempre vindo de frente e de alguma forma me atropelando porque eu estava distraída demais olhando estrelas, fazendo bolhas de sabão ou encarando o teto à noite. Neste ponto, cada avião se parecia com uma chance única — one shot! — de sair dali, onde quer que “ali” fosse. E era tudo que eu queria. Voar pra longe, qualquer lugar com grama e árvores e estrelas e vento e tudo o mais que a minha mente me permitiu sonhar. Sonhos com o céu.

Eu costumava querer muito voar ou flutuar, porque eu queria voar sem asas e me disseram que isso seria na verdade flutuar. Detalhes à parte, cada vez que via um avião era como uma estrela cadente. O problema é que eu nunca acreditei em estrelas cadentes. Eu nunca acreditei em Papai Noel e para este efeito, há muitas coisas nas quais eu nunca acreditei que não cabe serem listadas.

Eu me lembro desses sonhos com o céu. De descobrir profissões que me permitiriam a contemplação do mundo todo, descobrir caminhos que não me levariam necessariamente para frente, mas para cima. Lembro-me de sonhar em manter o curso da minha vida nas alturas, mas recair sempre na mesmice dos meus dias, sem visões, pois eu não acreditava em muita coisa. Sempre acompanhada do meu pessimismo, do meu olhar negativista e da falta de fôlego para a vida, eu aquiesci. Deixei estar todas aquelas vontades.

Não é muito difícil para um pessimista deixar de lado projetos ou sonhos e aceitar, resignar-se com a vida em sua forma mais medíocre e insossa, é, na verdade, a forma mais racional, mais lógica de se seguir em frente. E logo estava eu, fazendo outros planos, pensando em outras coisas, seguindo outros caminhos. E foi o que fiz, resignei-me.


“Fazer o pior parece a melhor decisão.”-Aristóteles

Roubo aqui um pensamento de alguém bem mais (bem mais!) letrado do que eu para fazer justas minhas palavras.

Eu deixei na nota de roda pé da minha vida, nas entrelinhas e nas letras miúdas dos meus dias tais sonhos com o céu; não necessariamente a vontade de estar lá, mas a vontade de fazer algo mais, além de onde estava. Dia após dia eu fiz aqueles sonhos serem suprimidos nas linhas, sufocados com as papeladas que toda vida nos traz. Um dia ou outro, eles se tornaram apenas um sonho longe, uma lembrança vaga de ilusões de uma criança.

Mas aviões continuavam a passar. Uma vez após a outra, cada um deles me lembrava um tanto mais do que eu quis, um dia.

Quando a vida parecia cada vez mais sem sentido e meus dias começaram a se tornar repetições doentias e massacrantes ficava mais fácil lembrar da imensa vontade que me enchiam aqueles sonhos. Pois quando olhei o futuro, tive a impressão de que minha vida não caminhava para frente, mas angustiantemente em círculos, que cada passo era um passo em falso e que não havia objetivos a serem atingidos. Quando o pessimismo me engoliu e eu sentia o dias irem e virem como os carros que vemos na rua enquanto andamos; mais rápidos que você pode vê-los, mais borrados do que você pode reconhecê-los e sem a chance de entrar em nenhum deles, quando o cenário se montou assim eu lembrei daqueles dias, daqueles sonhos. Tentei me lembrar dos motivos que me fizeram abandoná-los com tanta facilidade, logo eu me enterrei em ideias e pensamentos sobre a vida possível a minha frente, se eu apenas desse um passo aqui ou ali, com minhas próprias forças, vontade e com meu coração ao invés de movimentar-me como um ser tiquetaqueante.

Ora, eu cresci, pois não cresci?! Talvez agora eu pudesse, talvez agora eu conseguisse…

A minha própria mente às vezes parece escrever tramoias contra minha vida, caculando o melhor jeito de me destruir; “como faz pra parar??”.

Cada broto de ideia em minha cabeça foi decepado pela foice do meu enorme pessimismo. No decorrer da vida que existiu no entremeio, eu marquei-me com o estigma das escolhas erradas. Com a certeza de que existem decisões de todo tipo, para diversas situações, mas que para mim todas seriam a decisão errada. Nenhuma decisão é certa quando só se vê a possibilidade de erros finais. A impossibilidade de decisões frutíferas alimentou substancialmente meu negativismo.

Um trabalho árduo não é necessariamente um trabalho que requer grande esforço de uma vez só. E há tempos eu havia aprendido que não adianta de nada lutar contra “monstros” que vivem dentro de mim mesma, que o melhor é se aliar a eles, fazê-los estar do seu lado e aprender com isso. Não adiantaria, em absoluto, tentar desbravar para fora do pessimismo, o que eu podia fazer era encontrá-lo todos os dias, dentro de mim, entendê-lo e “conversar” com ele como se conversa com um amigo. A compreensão de nossas escuridões é a melhor forma de traçar um caminho de paz com eles. Talvez eu não esteja em perfeita paz, talvez eu nunca estarei, mas eu aceito isso e aceito continuar trabalhando com ele. E talvez essa seja a chave que eu encontrei. Porque com um pequeno trabalho a cada dia eu fui reconstruindo aqueles sonhos. E mesmo pensando que toda a decisão é a pior decisão eu fiz uma decisão.

Tenho coisas com as quais lidar e outras para terminar, mas o que eu vou começar após está decidido.

Como vai acontecer, o que vai acontecer, vai de fato acontecer? Não tenho a menor ideia. Mas todas a vontades que tive há muitos anos que se repetem e/ou permanecem hoje serão vistas, serão pensadas, não estão mais em notas de roda pé. Talvez dê tudo errado. Como o meu instinto pessimista insiste em me lembrar. Mas bem… que seja!

O que eu sei é que eu vou.

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    JamesGatz

    It’s hard for me to say.

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