A mulher na tecnologia
Quando voltava da faculdade, á noite, em uma cidade com altos índices de violência como São Paulo, a então estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas Nayara Alves foi abordada por dois homens que estudavam com ela, que a convidaram para acompanhá-los até o bar. Ela recusou, mas os dois não aceitaram, a prenderam contra a parede e um deles tentou beijá-la à força. Essa foi apenas uma das situações constrangedoras e abusivas pelas quais ela passou. Depois de ouvir frases como “mulher só estuda aqui para ficar rodeada de macho”, e de insinuarem que só tinha amizade com um colega de classe por conta de um relacionamento amoroso (que na verdade nunca passou da amizade), Nayara se afastou de todos, passou a fazer todos os trabalhos sozinha, ir embora sozinha e inclusive fez seu trabalho de conclusão de curso individualmente. Depois de se formar, começou a trabalhar na área, e continua trabalhando até hoje. No começo, ela diz que era comum ouvir piadinhas machistas, mas que aprenderam a respeitá-la depois de provar sua competência no trabalho: “É chato ter que ficar provando que sei as coisas, mas de certa forma já me acostumei e já pararam com isso”, diz.
A questão do preconceito com a mulher nos jogos e na tecnologia vai muito além do que a maioria acredita ser apenas uma falta de interesse. Desde pequenas, as meninas são ensinadas a brincar de boneca, escolinha, panelinha, atividades consideradas femininas pela sociedade. Enquanto os meninos ganham de presente o primeiro console para aprenderem a jogar, o primeiro computador, e daí surge o interesse, futuramente, em estudar e trabalhar nessa área. Muitas mulheres nunca consideraram a carreira de computação ou engenharia pela simples falta de conhecimento, de convivência. E aquelas que, por algum motivo, conseguiram quebrar essa barreira, não são incentivadas a seguir essa carreira. Para a família e grande parte dos amigos, esse é um trabalho de homem. E com isso muitas que pensaram na possibilidade desistem e vão fazer um curso considerado mais feminino. Ainda assim, restam algumas que enfrentam todas essas dificuldades e seguem em frente, e é aí que começa o verdadeiro desafio.
Segundo o MEC/Inep, em pesquisa divulgada em 2013, o número de mulheres matriculadas em turmas de cursos de tecnologia e computação é de cerca de 15,5% do total de matrículas. O número já é muito baixo, mas a situação tende a piorar no decorrer do curso: cerca de 79% das mulheres desiste no primeiro ano. Ao terminarem a graduação, a dificuldade vem por meio do emprego. O salário de mulheres que trabalham com TI é 30% menor do que o salário dos homens. E em cargos de gerência, a diferença é ainda pior, chegando a 65%.
Para tentar mudar essa realidade sexista, foram criados vários projetos no Brasil que incentivam garotas, desde jovens, a aprenderem a programar, com cursos gratuitos oferecido por diversas empresas e maratonas de programação. Um desses projetos é o blog Mulheres na Computação, criado pela Bacharel em Ciências da Computação pela USP Camila Achutti. A ideia de Camila era dividir suas experiências na faculdade com outras mulheres que estivessem na mesma situação, mas acabou tomando uma proporção muito maior, e hoje tem uma enorme importância para garotas que pretendem entrar ou já estão na área. Uma das colaboradoras do blog é Soraya Roberta, estudante de Sistemas de Informação na UFRN, que também é criadora do projeto Poesia Compilada, um manifesto literário escrito em forma de linguagem de programação, onde ela fala sobre diversos temas. A primeira poesia que ela escreveu se chama “E daí se sou mulher e programo? ”, inspirada a partir de um momento em que Soraya sofreu com a discriminação dos colegas de classe, que a impediram de fazer um trabalho junto com eles, deixando-a responsável apenas por escrever o artigo, uma tarefa considerada pelos colegas como feminina. “Estava pesquisando uns assuntos relacionados a computação e mulheres atuando na área em 2012 quando conheci a Camila Achutti por meio do Mulheres. Em 2014 descobri que haveria um evento por Natal, RN, falando sobre o empoderamento da mulher na área tecnológica, o Code Girl. Nisso, eu soube que a Camila estaria palestrando e como eu estava com a camisa do Poesia Compilada ela acabou vendo e achando bem legal o código em formato de Poesia. Depois disso passaram-se alguns meses e como já tínhamos feito contato ela me chamou para escrever Poesias Compiladas e outros textos que achasse pertinente para o Mulheres.”, explica. Mesmo com toda a dificuldade e o preconceito, Soraya pretende seguir na área, e no caminho ajudar outras mulheres com palestras, dicas, participando de eventos e, é claro, por meio do Mulheres na Computação e do Poesia Compilada.
O cenário geral para a mulher não é nem um pouco animador. As dificuldades são incontáveis e não têm momento ou idade para aparecerem. E é por isso que tantas pessoas estão lutando para mudar essa realidade, para torná-la mais justa, trazendo junto com cada pequena mudança a esperança de um mundo melhor.