Filhos e os falsos moralistas

Já faz um tempo que rolou pelas redes sociais posts do tipo “na minha casa era assim, assim e assado”, como uma espécie de “campanha” para dizer que as crianças de hoje não respeitam nada nem ninguém, e que “na nossa época” era diferente.

Eu tenho tantos questionamentos em relação a isso que eu nem sei por onde começar, mas vou tentar! Por favor, tenham paciência e me acompanhem nessa breve, mas importante, reflexão:

Primeiro: sim, a infância era outra, os tratamentos dos pais para com os filhos eram outros. Mas não me digam que ninguém discutia com os seus pais, ameaçava fugir de casa, batia porta, chorava por ter que comer aquele abacate odioso ou limpava o chão da cozinha com raiva no coração. Por favor!
Segundo: se fôssemos nascidos hoje, com os mesmos pais e o mesmo tratamento, ainda assim seríamos muito diferentes do que somos. Isso porque o meio influencia, as oportunidades, a consciência cultural e comunitária, os acontecimentos, a alta do dólar (rsrs), tudo. Antigamente um bebê demorava dias pra abrir os olhos, hoje eles nascem encarando o obstetra. Acreditem ou não, é uma evolução da espécie.
Terceiro: somos ótimos. A conclusão é essa, certo? Tivemos uma infância diferente, incrível e maravilhosa, cheia de valores e bons costumes e, portanto, somos ótimos. Mas as crianças horríveis de hoje, estão sendo criadas por quem, mesmo?

Não sou psicopedagoga, não tenho background nenhum para opinar sobre educação. Mas sou mãe, sou filha, sou facilmente irritável com certos tipos de discurso ou “conselho”, e gosto de escrever. Então azar. Apenas não considerem a minha opinião como teoria irrefutável, e estamos acertados. :)

Eu sempre sonhei em ser mãe e tive milhões de expectativas sobre o que fazer e o que não fazer quando tivesse filhos. E quer saber? A gente não cumpre nenhuma. Isso porque o nosso papel — ou, pelo menos, o meu — é o de aprender a manejar a situação de acordo com o que ela se apresenta, com as ferramentas e possibilidades a mim disponíveis no momento.

Uma vez, adolescente, li um e-mail que minha mãe escreveu para a minha tia. Nele, ela descrevia a filha que ela sonhava ter, e concluiu dizendo que eu não era nada daquilo. Me deu aquele susto, mas continuei lendo a mensagem, onde ela finalizava: “é diferente do que eu sonhei, mas é melhor”. Porque é assim que as coisas são, especialmente no que se refere à maternidade. Vivenciamos uma surpresa atrás da outra, em um mundo onde tudo é novidade e não existe regra, histórico ou manual que te digam o que fazer.

Tenho um texto antigo em que conto uma situação que passei num café, quando minha filha tinha cerca de 4 anos. Ela, educadíssima, me perguntou se poderia comer o doce antes do pão de queijo. Quando eu disse que era melhor não, ela se sentou e comeu o pão de queijo, feliz e conversando, como sempre fez. Uma senhora passou por mim e me parabenizou pela educação e postura da minha filha. Eu agradeci, dizendo: “obrigada, mas eu não fiz nada, ela já veio assim”. E veio, mesmo.

A questão é que eu sempre conversei com ela como o ser racional que ela é, nunca menosprezei ou subestimei suas vontades e pensamentos. Ela começou a falar tarde, mas quando falou já conjugava verbos, gênero e plural. De que jeito eu poderia ver aquela criatura como alguém incapaz de se expressar? Como não dar ouvidos? Quem sou eu para dizer pra ela o que ela pode ou não pode, deve ou não deve, a não ser quando existam, realmente, motivos para isso? Porque não dialogar, para que ela aprenda ao invés de ser obrigada? Para que eu aprenda, ao invés de obrigá-la?

Então, não, eu não crio a minha filha da mesma forma que eu fui criada, especialmente porque ela é completamente diferente do que eu era. Ela tem muito mais cultura, muito mais sabedoria, muito mais liberdade de espírito, e eu seria uma idiota completa se tentasse reduzir isso a um “aqui em casa quem manda sou eu”. Para ela respeitar a mim, aos outros e ao mundo, eu preciso respeitá-la também.

É o exemplo que educa, não os gritos ou o cinto na bunda. Existem crianças horríveis? Existem. Mas elas só existem porque existem adultos horríveis.

Para todos esses que criticam e que se dizem melhores, porque “na minha casa era assim”, tentem aprender mais com os seus filhos. “Eu apanhei e deu tudo certo” não é argumento. Busquem fazer dar certo da forma que vocês gostariam que tivesse sido (porque certamente na hora ninguém achou legal apanhar, né?), para serem capazes de despertar ou reforçar o que há de melhor nos seus filhos hoje, não para encaixá-los no seu padrão.

Assim, quem sabe, ficaremos a salvo dessas campanhas fajutas e hipócritas de rede social.