Olha ela!
Acredito que as pessoas são livres para se sentirem atraídas, ou não, por certos tipos de perfis. Há quem goste de loiras, há quem prefira as morenas. Tem os que gostam das magrinhas e aqueles que dizem que de “osso quem gosta é cachorro”. Mas é fato que existe uma fobia entre as mulheres, em relação ao que se considera adequado, bonito e sexy pelo “senso comum” (leia-se mídia e tudo aquilo que define os comportamentos de consumo e padrões aceitáveis). O medo de não ser atraente, o medo de engordar, medo de envelhecer, medo das cicatrizes, do corte de cabelo que deu errado, das celulites, das espinhas.
Existem algumas marcas trabalhando de maneira consciente, para buscar uma reviravolta nessa realidade, mas ainda são poucas. Cito, como um exemplo fantástico, o último comercial da Dove, em que ao mesmo tempo que me alegra, me entristece (como permitimos que crianças — crianças!!! — tenham problemas de autoestima por causa dos seus cachos?).
Nesta luta louca pela aceitação, a gordofobia, termo e tema cada vez mais recorrente nos últimos anos, pode levar a comportamentos compulsivos e autodestrutivos, como transtornos alimentares. Mas, ficando no “básico”, ela traz uma série de pequenos problemas enfrentados diariamente que mascaram a felicidade: a necessidade de apagar a luz para se sentir à vontade na cama com o outro, o medo de sair para encontrar alguém que conheceu online, a vergonha em tirar a saída de praia ou colocar um biquíni naquele sábado de piscina com os amigos, o desejo de ser percebida linda num vestido de festa, entre milhares de pequenas coisas que, consciente ou inconscientemente, impostas ou inventadas, acabam guiando à mulher ao abandono sutil da sua feminilidade, do seu direito de ser sexy, amada e desejada. Muitos lutam contra a gordofobia e a imposição de padrões. Admiro o engajamento, mas espero contribuir do meu jeito. Sem militância, estou aqui somente para contar a minha experiência.
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Eu luto com a balança há 12 anos. Quando completei 30, no ano passado, e estando um pouco mais lúcida sobre a vida, comecei a me questionar do porquê eu deveria me frustrar com a minha aparência, se, no fundo, eu sempre me senti bem. Então me dei conta de que a minha briga com a balança nunca teve a ver com falta de autoestima, mas com a minha dificuldade de enxergar no reflexo a mesma mulher que eu sempre soube que eu era. Entende?
Por isso, resolvi aproveitar essa nova mulher dos 30 para resolver esse problema de uma vez por todas. Chamei uma das fotógrafas mais incríveis que conheço e pedi para que ela me ajudasse a registrar a Ana mulher, linda e confiante, que por algum motivo era distorcida pelos reflexos de vitrines e provadores. E posso afirmar: nenhum espelho pode ser verdadeiro, porque é incapaz de refletir o que se tem por dentro (e é somente isso que importa, afinal). Ainda bem que, nisso, a fotografia dá conta.
O resultado você vê aqui. Uma Ana de 30 anos, com rugas, gorda, ora vesga, ora descabelada, mas sempre Ana. E sempre feliz.
Exponho como forma de resposta a alguns exemplos de comentários que poderiam me ofender (e ofendem a tantas outras, todos os dias), se eu não me conhecesse (e me amasse) tanto.
1) Tu é linda… de rosto!
2) Tatuagem grande só é sexy em gente magra.
3) Tu é tão bonita, deveria tentar emagrecer pra se sentir melhor.
Que a autoestima seja maior que os julgamentos — eles falam mais sobre os que julgam do que sobre você. Que o amor próprio seja mais forte que o medo da rejeição. Que a alegria de ser você te ajude a questionar o porquê de se querer ser diferente. E que você nunca esqueça que a infelicidade mata mais que o sobrepeso.
Um agradecimento muito especial à Luana Patrício Fotografia. Obrigada por ter me visto da mesma forma que eu me vejo. Para conhecer os trabalhos dela, incluindo outras fotos da minha sessão, clique aqui.
Um super obrigada também pro Atelier Carola, mostrando pra essa indústria com quantas rendas se faz uma lingerie plus size. Sigam ela no instagram: @atelier.carola ;)
Originally published at ahbendisdonc.wordpress.com on February 23, 2017.
