Superproteção

Não me considero uma mãe superprotetora. Aliás, acho que estou longe de ser uma. Embora tenha apenas uma filha, não tive por muito tempo aqueles medos que normalmente afetam as mães de primeira viagem. Quando o nariz daquele porquinho espinho de borracha sumiu, eu esperei sair na fralda. Sem desespero.

Deixei ela comer com as mãos e sujar as paredes. Deixei ela engatinhar pela casa inteira sem tapetes, ir pra terra, beijar os cachorros, brincar nos parquinhos, tropeçar, cair. Deixo ela colocar as meias sozinhas, mesmo quando ela tá com preguiça e faz aquele biquinho quase irresistível ameaçando chorar. É uma coisa que ela já sabe fazer, portanto, não precisa da minha ajuda. Cruel? Talvez seja…mas eu estou lá quando ela precisa, quando eu vejo que a meia está engatando em algum lugar e ela se atrapalha de verdade. Agora, se é pura manha, não!

Mas então as monitoras da escola me deram essa notícia: eu não poderia mais ir até a fila com ela, teria que deixá-la na porta e ela iria sozinha. “Como assim, sozinha?”, eu pensei. Nessa escola enorme, com alunos enormes, com milhares de crianças. Sozinha? Nos primeiros dias, foi tranquilo. Chegando na porta, ela já se virava pra mim, dava beijo e ia correndo pátio adentro. Mas ontem…ontem foi diferente. Ontem eu tive uma visão, um sentimento louco. Tudo aconteceu em câmera lenta enquanto eu assistia minha menina crescer. E deu medo.

Na porta de vidro, ela me deu beijo como de costume. Se virou e começou sua caminhada, que deve atravessar o pátio aberto e ir até a cancha fechada, onde ela encontra o lugar que fica sua fila e aguarda, quietinha e sozinha, sua professora. Arrastando sua mochila de rodinha das princesas e segurando um livro enorme na mão, para devolver na biblioteca, com seu rabo de cavalo balançando a cada passo e sem olhar para trás. E eu lá…como uma estátua colada no vidro, esperando a hora em que ela teria medo e voltaria correndo pra mim, mas sendo obrigada a reconhecer uma menina já crescida, encarando suas próprias responsabilidades, carregando seus materiais, caminhando em direção ao seu compromisso, em uma escola nova, grande e repleta de desconhecidos. Sem medo. Minha filha. Meu bebê.

Chegando em casa, contei que eu iria em um evento com algumas pessoas que eu não conhecia. Ela me respondeu: “Que corajosa, mãe! Eu não consigo conversar com pessoas que eu não conheço”. Nesta hora pensei, relembrando o meu coração, cheio de orgulho — é verdade, mas apertadíssimo, vendo ela sozinha e toda imponente na escola — não, meu amor…corajosa é você. Muito mais do que eu.

À noite, voltando do evento, chamei ela para ir dormir comigo. Com aquele anjo deitado no meu lado, ocupando um espaço cada vez maior na cama, pensei no medo que eu tenho em vê-la indo cada vez mais para longe do meu colo, e percebi que, no fim das contas, é ela quem me superprotege.


Originally published at ahbendisdonc.wordpress.com on March 16, 2016.

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