Quase uma Ficção.
"o tempo presente é quase uma ficção". Acordei com essa frase me molestando. Havia lido num texto sobre a história da psiquiatria um dia antes. Infelizmente, não sei quem é o autor. O mais importante é o impacto que me causa esta intrigante construção frasal. Me faz pensar. "[...] quase uma ficção?". O que está faltando para ser por inteiro?
Minha vidinha é uma ficção dramática surreal. Quase um livro jurídico escrito por Kafka (O Processo é um livro perturbador). Por vezes iniciei textos falando sobre minhas presentes angústias, porém, corro o risco de incluir fatos mal resolvidos ou cometer crimes contra a corporação gonocócica para qual presto serviço. Não há distinções entre quem eu sou e o que faço. Por isso tento depurar minha identidade na escrita. Na minha profissão, reclamar das próprias condições precárias de existência é crime. Quer saber, foda-se meu emprego.
O pior de tudo é acordar cedo para desperdiçar oito horas da minha vida na corporação gonocócica. Documentos para redigir, arquivos para organizar, reclamações dos patrões, intimidações, ironias com pitadas de dores de cabeça. Dentro do sistema, é impossível sair.
Por vezes me encontro nos fundos da corporação, escondido, lendo Foucault (este autor é censurado, se me pegam com qualquer de seus livros é prisão na certa). Outro personagem que escapa as vezes para fumar cigarros é o responsável pela limpeza geral do prédio, Dom Armandino. A presença dele se faz notar por sua voz estridente e seu uniforme azular.
Ao me ver, Dom Armandino me cumprimenta e me oferece sua bituca. Recuso. Ele prossegue e diz "que houve meu lindo? Estás tão triste, o que houve?". Nada, meu querido Dom. A vida que é sofrida. Viver é sofrer. "Nossa, isso soa tão pessimista. Pois eu adoro viver, é maravilhoso", o Dom abre os braços e gesticula sua devoção a vida, com cigarro pendurado na boca.
Poxa Dom, a partir do nascimento começamos nosso martírio nesse mundo. Não podemos evitar, nem a doença, nem a velhice, muito menos a morte. A boa notícia é que há meios para superar todas as nossas aflições, porém, ninguém leva a sério. Dom Armandino me oferece outro cigarro e uma chupada no meu pau para me animar. Recuso. Seria bem vindo um café.
