COPING

Utilizar estímulos sociais para incorporar sequências de imagens complexas.
E o que fazes para impedir que a pilha de memórias seja uma pilha de nervos é beber uns copos, esticar umas linhas, andar por aí e vivenciar novos momentos que se tornam tão similares às recordações antigas que te faz doer os ossos. E então queres descansar mas não sabes bem como por isso viras mais, fumas muito concentradamente, e tentas focar-te em ti e isso tudo mas é em ti que está isso tudo então é uma granda treta não é? Todos os que dizem que se torna uma espiral estão bastante enganados, isto é antes a porra de um labirinto. 
No metro senta-se à minha frente a antiga professora de dança. A que dizia a todos que eu era completamente maluca. Destabilizada. Que me queimava… Que faltava às aulas. Que tinha problemas. Que ela não estava para aturar coisas assim, pessoas assim. Eu, na altura no meu ponto mais frágil, inofensiva, submissa, devastada, obediente. Um monstro.
 Ela senta-se e sorri-me “pareceu que te reconheci, estás boa?” e eu podia dizer que sei de todas as injúrias e de toda a hipocrisia e amargura da sua vida estúpida, mas não digo. Não digo quase nada. Porque nem tenho nada para lhe dizer, só um nó no coração por saber que ela não é um caso único. Nem eu sou um caso único. Sofrimento, incompreensão, corações partidos, tantos. Se calhar o dela também.
Queres luz às vezes, para variar, então vais para o sol, numa esplanada onde dois homens que te observam debatem se és um miúdo ou uma chavala, enquanto sorves chá verde lentamente e já só queres voltar para o escuro de novo. E vais voltar, mas pelo caminho fica o cemitério em que se celebra a morte em magotes de pessoas juntas pela ocasião, e se ignora a vida, crua, na figura de um homem doente, sentado no chão à espera de alguma esmola.

A porra de um labirinto, como já disse.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.