Não é caso para tanto — diz a tipa do espelho.

Não sei se posso confiar nela. Olho atentamente. Ela olha de volta e mimica todos os meus movimentos.

-Há muitos anos que olho para ti. Não te quero enganar. Sei perfeitamente que comeste duas torradas e vais lavar os dentes.

Estou pouco convencida. Viro-me, olho de novo e ela continua ali, e sorri. Sorri directamente para mim.

A tipa do espelho fuma da mesma forma que eu. Enquanto fazia isto os olhos dela olhavam-me de todos os ângulos.

-Tens de confiar. Não tens muito tempo, sabes disso? Não há propriamente um lugar onde tenhas de estar mas podias ser mais rápida.

Começo a pensar que ela é cínica quando bebeu do meu café descaradamente e revirou os olhos.

-Soberbo- sussurrou ela. — que agradável bebermos café juntas! — semicerrou os olhos — já não estas tão bem disposta… Põe-te a mexer daqui, estou cansada de te ver olhar para mim. Podia ser tão mais eloquente e tão mais bonita se não fosses idiota. Olha o que fizeste à minha tatuagem e ao meu pulso. A culpa é toda tua.

Ela olha para o ombro, eu também olho para o meu.

-Isso também, isso também…! Não tentes falar de amor universal depois de fazeres essas coisas, ou gratidão, ou fraternidade. Sou a única que pode ser tua amiga e vê o que fazes. És como uma vela a derreter e a consumir-se lentamente até desaparecer. Repara no que eu tenho na mão. Repara como quando eu cortar devagarinho tu vais sentir o sangue. É assim que funciona. Podes tentar impedir-me mas sei que não o vais fazer. Como te digo, há muitos anos que te ando a observar.

Fodasse, que maluca... Posso só dar meia volta e deixo de a ver. Mas assim como é que sei o que ela vai fazer com aquela faca? Não é melhor vigiá-la? E, de súbito, sinto um estranho relaxamento de demora finita, de concordância , uma flutuação rápida que me levanta e pousa delicadamente no chão novamente…e vejo uma mancha vermelha a aparecer no meu braço e a deslizar como gotas de chuva.

A tipa do espelho respira de alívio exactamente ao mesmo tempo que eu.

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