Ossos 2013

Estou sentada no comboio para casa e fujo para o banco de trás quando avisto um tipo a quem não quero falar. Não é uma história digna de orgulho. Não é alguém que me apeteça cumprimentar e dizer que “sim,estou bem”. Detesto dizer isso.

Lá atrás apoio a cabeça na mão, contra os vidros, estou mais magra e sinto os meus ossos. Sinto os meus ossos ainda mais sempre que cerro os maxilares irritada. O meu pai também faz isso. Sentem-se tanto quando estou nesta posição… então ajeito-me no banco e volto a pousar a cabeça no pulso. Não mudou nada. Ossos e ossos. Mas ninguém se importa com os ossos pois não? Só importa esta camada de carne que temos por cima, músculos e carne, como se isso mudasse o facto de termos ossos. É isso que nos torna magros e bonitos e interessantes e apelativos, a carne que temos sobre os ossos. Mas é só carne e eu estou em contacto com os meus ossos e é como se eles me dissessem isso neste momento: nós estamos sempre cá mas ninguém nos liga pevas. Começo a ter um ataque de ansiedade mas continuo a senti-los, e aos meus dentes e maxilares e olho em volta, para todos os ossos de todas aquelas pessoas e que ninguém vê e ninguém se lembra deles. Porque é que esta CARNE importa tanto? É miserável e decompõe-se rápido, com rugas, queimaduras, borbulhas, feridas mas os ossos…ninguém se importa particularmente. Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos, passei as mãos pelo rosto e tranquei as mandíbulas só para as sentir. Senti que elas estavam lá e iam continuar lá. Elas vêem-se quando estou mais magra e fico com um ar neurótico quando choro e as cerro com muita força mas eu gosto. Ossos e carne. Sei lá porque é que faz diferença, mas faz.

Fui ao hospital a uma consulta de psiquiatria. Não quis esperar na sala normal, cheia de gente doente e débil, mais um grupo de ciganos numa reunião familiar, faltava uma fogueira ali no meio. Gritos e cheiros e o meu coração a palpitar. Entrei para a ala psiquiátrica onde “não podem estar aqui, têm de esperar lá fora”. Bom, não me importei muito com isso. Havia um doente lá, crónico, louco, com um olhar pétreo, congelado na mesma posição e a observar-me a todos os momentos. Só havia um lugar, ao lado dele, mais ninguém lá. Eu, ele e um lavatório de mãos. Olhámo-nos e eu pensei em ir até ao lavatório. Li todas as instruções de como se lavava correctamente as mãos e depois achei que os doentes psicóticos tinham de sentir alguma empatia comigo e que ele devia estar medicado; ele não me inspirou compaixão, ele só parecia demente francamente e os olhos dele seguiam-me sempre. Então aproximei-me, “posso sentar-me?” “pode sim”. Sentei-me ao lado dele, com a mesma postura, da mesma forma, duas criaturas no mesmo sítio e não muito diferentes, no final do dia. Estranhamente, senti-me confortável. Fui aceite. Passou uma médica e olhou-nos. Estávamos os dois extraordinariamente sérios. Levantámos a cabeça para ela em simultâneo. Ela sorriu e continuou. Deve ter sido uma vista diferente do habitual. Apareceu uma mulher à porta e chamou uma médica. Eu e o homem olhámo-la hostilmente. Ela encolheu-se ligeiramente. Senti-me poderosa ali, que fazia parte daquilo. Ela perguntou se podia trazer a mãe dela para ali, numa cadeira de rodas, ladainhas, justificações etc. A minha apatia e do meu novo amigo manteve-se, friamente; a médica olhou para nós, nós não alterámos a expressão. Ela disse: hm…não pode estar ninguém aqui. A mulher olhou-nos e nós ficámos imóveis a olhá-la de volta. Ela repetiu: mas…por favor…está tanto barulho…estamos há horas à espera… a médica repetiu que não podia estar ali ninguém. Senti-me mesmo satisfeita, por mais miserável que estivesse por dentro. A médica condescendeu e lá entrou a mulher mais a mãe. Pareciam desenhos animados: eram incrivelmente iguais, só que uma era velha e a outra era ainda mais velha mas as semelhanças eram estupendas. Bom, em todo o caso a conversa delas começou a ser perturbante. Eu estava bem em silêncio, o homem estava bem em silêncio. Havia ali um NÓS pacífico e elas vieram estorvá-lo. Comecei a mexer-me desconfortável e não parei de fazer contacto visual com elas, o meu pior olhar, o meu olhar a franzir os maxilares, eu ao lado do homem louco que toda a gente tinha evitado e depositado ali. Mas ela continuou a papaguear. Então eu soltei um suspiro profundo, muito alto, que ecoou na sala, elas olharam-me e eu estava a fixá-las ferozmente. Elas silenciaram-se abruptamente. Eu continuei a intimidá-las com imenso prazer. Elas desviaram o olhar, em silêncio, olharam para o chão. Logo a seguir, mandaram-me entrar. Cabras idiotas, pensei eu. Se querem falar de banalidades, falem na vossa sala em casa ou na sala cheia de barulho, não NOS venham incomodar.

Apanhei um táxi para casa. Comprei dois bolos na máquina à saída e ofereci um bolo ao taxista, se ele gostava, ele disse que não gostava muito de doces, e eu disse “fica para o namorado então!”. Mas eu não tinha ninguém à minha espera, eu ia comê-los a chorar a seguir. Ele era um quarentão simpático, perguntou-me se era eu que estava doente, eu disse que sim. Se estava melhor e eu ri-me, disse que um pouco melhor, sim. Entretanto fomos falando, o condutor perguntou-me que se passava com uma rapariga como eu, que parece tão bem;eu disse-lhe que tinha uma tendinite no pé, que se tinha alongado pela perna, que estava de baixa. O que é que eu fazia, eu faço ballet e trabalho a servir à mesa, então deve ser chato. É, é sim, de baixa ganho uma miséria e cá vim gastar mais dinheiro, já gastei muito dinheiro com isto, não vinha nada a calhar. Azares… sim, azares... No final, ia pagar a viagem. Ele olhou-me para as pernas. Não me importei muito. Depois olhou para o meu pulso. A minha pulseira dizia “psiquiatria”. Isto deve tê-lo feito pensar que eu era totalmente passada e tinha inventado tudo aquilo provavelmente. Paguei-lhe e desejei-lhe boa noite, sempre a sorrir muito. Ele não sorriu tanto no final. Fui para casa, tirei a pulseira e comi os bolos a chorar. Eu e os meus ossos da cara.