A princesa em nós


Acabei de ver na Rua da Conceição, na baixa de Lisboa, uma miúda de 3 anos, não mais do que isso, cheia de caracóis, uma meia de cada cor, em variações de rosa, com umas asas de anjo, e uma varinha mágica na mão, agarrada à vitrine de uma das retrosarias vintage que enchem essa rua. Estava fascinada com as tiaras. Acho que a mãe ainda não a conseguiu arrancar de lá. E assim começa. Algumas de nós trazem um chip de princesa.

Adoro ver crianças assim, que não se reservam para o Carnaval ou para o Halloween. Que se sentem todos os dias fadas ou Zorros, princesas ou cowboys. Adoro vê-las, porque gosto de saber da existência dos pais delas, que impõem os necessário limites na educação, mas não na imaginação e nos sonhos.

Se forem princesas de alma, serão nobres e dignas no trato com os outros. Se forem zorros de alma, primarão pela justiça e pela defesa dos mais fracos.

Escolhemos os heróis e as personagens que admiramos e são eles que nos inspiram, a par dos nossos pais e educadores, nos primeiros anos de vida, e até pela vida fora.

“Era uma vez…” pode não acabar bem, mas também pode ser um “feliz para sempre”. Depende do guião que só está pronto no fim da vida, mas começa a ser escrito logo na infância.

Vale a pena deixar os filhos andarem na rua com o seu outfit preferido. Viver uma fantasia no mundo real é muito diferente de viver num mundo irreal de fantasia… e se proibirmos as crianças das suas asas de anjo, mais cedo ou mais tarde voam para essa terra do nunca, onde nunca mais as encontraremos, tornando-se adultos que não sabem lidar com a realidade, nem gerir expectativas e frustrações.

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