precisamos falar sobre os corações mecanizados

‘jack e a mecânica do coração’ é, de longe, um dos filmes mais sensíveis que tive a oportunidade de conhecer. Cada cena é cuidadosamente preparada para transpor metáforas que se solidificam além do espaço-tempo do filme e nos atingem na mira mais vulnerável do ser humano: o coração.

jack é uma metáfora sobre o tempo

o filme francês/bélgico de 2013 é dirigido por Mathias Malzieu e conta uma história que se passa no século 19, onde Jack nasce num dia tão frio que seu coração congela e a parteira, que se tornaria sua mãe adotiva, resolve substituir o coração congelado por um relógio para salvar a sua vida.

é interessante como o começo do filme enlaça o espectador com a metáfora a respeito do tempo. A nossa vida é pautada em vista de como administramos o tempo e, as vezes, ele nos guia de tal forma que substitui as decisões sobre sentimentos e sensibilidades. Também se pode perceber que quando o ambiente externo em que estamos inseridos é estático, o nosso coração se congela e não conseguimos perceber a própria sensibilidade.

a mecanização do tempo nos torna máquinas metafóricas que simplesmente reproduzem comportamentos, sem nos questionar a respeito do que estamos fazendo com a própria vida.

substituir um coração por um relógio não quer dizer que somos ruins ou insensíveis, pode ser a forma de defesa para nos proteger de um mundo que muitas vezes é cruel. Entretanto não significa que é a melhor maneira de lidar com o mundo.

jack cresce com a convicção de que deve seguir três regras: não deve tocar os ponteiros do relógio, deve controlar a raiva e não deve nunca se apaixonar. As duas últimas regras dizem respeito ao descontrole da mecânica do relógio que pode leva-lo à morte.

sua mãe constantemente diz que o amor traz uma dor imensurável:

“Quanto maior o amor, mais intensa será a dor. Sentirá falta dele, depois com o ciúme, a incompreensão, a sensação de ser rejeitado e de injustiça. A mecânica do seu coração explodirá”.

mas Jack não sabe lidar com a pressão externa de se manter mecanizado quando os seus instintos o levam ao amor. E a sucessão de acontecimentos do filme nos levam ao principal questionamento: vale a pena valorizar o sentimento?

vale a pena valorizar o sentimento?

honestamente eu não sei responder essa pergunta, acho que eu e você, caro leitor, podemos complementar nossas opiniões porque o nosso mundo é mecanizado sim, mas os nossos sentimentos nem sempre são e é por isso que talvez não exista resposta.

uma vez ouvi que “se você está nervoso é porque está vivo” e podemos concordar que uma das maiores afirmações de que estamos vivos é quando estamos amando. Assim, cabe dizer que existem vários tipos de amor e cada pessoa ama de acordo com o seu jeito. Pode parecer clichê, mas o tempo literalmente para e, de alguma forma, só existe você e seu amor no mundo. Talvez o tempo do seu coração mecanizado pare mesmo.

talvez o tempo do seu coração mecanizado pare mesmo

entretanto, constantemente temos que lidar com a rejeição. Dói, né? Qualquer tipo de rejeição é devastador. Muitas vezes parece que o coração vai explodir, você quer que alguém arranque seu coração porque não quer aqueles sentimentos pesados. De qualquer forma, você consegue passar por isso e continua seu caminho.

cada um tem a sua maneira de lidar com os espinhos da rejeição. Alguns projetam como defesa para afastar pessoas que podem causar mágoas, outros transformam em força para melhorar como seres humanos, outros tentam enterrar os sentimentos a força, mas tudo se torna um caos a cada chuvinha de emoções.

fato é que todo mundo que já se magoou um dia já ouviu a famosa frase “você precisa de tempo para esquecer”. O tempo, o tempo todo o tempo. E é verdade, não? O tempo, aos poucos, vai tirar os sentimentos pesados, vai deixar a vida fluir e você aprende a lidar com você mesmo depois das marcas que alguém que te magoou deixou em sua vida.

o tempo, o tempo todo o tempo

por isso, caro leitor, não precisa se descabelar. O mesmo tempo que pode te mecanizar e te tornar insensível pode curar as feridas que alguém deixou em você sem, necessariamente, te tornar insensível. Não sei se fui clara, mas estou tentando dizer que só você sabe lidar com você mesmo e, no final, só você tem controle do seu próprio tempo.

de coração mecanizado todo mundo tem um pouco.