um joelho ralado e um coração quebrado

abri a porta do prédio e subi correndo as escadas, deixei a porta do apartamento aberta e fui direto ao banheiro

abri a tampa do vaso e em pé mesmo vomitei todas as palavras engasgadas

vomitei nossas primeiras conversas, vomitei nossos beijos, vomitei todas as promessas, vomitei a nossa primeira vez, vomitei tudo que me marcou como uma tatuagem desenhada na camada mais profunda da pele, da minha pele, a mesma pele que você tocou e disse que nunca ia deixar partir

ajoelhei e segurei os longos cabelos negros para não me sujar com a podridão de tudo que nós fomos; não queria me sujar ainda mais com o pouco que restou de nós

minha respiração foi voltando ao normal enquanto saíam todas aquelas palavras — de ódio, rancor, ciúmes, raiva, tanta raiva, medo, tristeza, solidão, abandono, traição…

como você teve coragem? a pergunta que ecoava em minha cabeça enquanto eu limpava o canto amargo da boca

por que fez isso comigo? as lágrimas rolavam pelo meu rosto sujo de batom barato e de rímel velho

não éramos uma história feliz de infância? minhas mãos tremiam ao lembrar da cena onde o recém casal mais feliz do mundo dançava no meio de todos sem se preocupar com a destruição que deixou para trás

estiquei as pernas e sentei no piso frio do banheiro. eu me sentia tão fria, tão abandonada.

olhei para as minhas roupas sujas de palavras não ditas e minha camiseta estava molhada de suor e minha calça estava rasgada e meu joelho estava ralado e doía tanto tanto

as lágrimas não paravam de cair. elas nunca vão cessar.

talvez porque eu me tornei o próprio caos. talvez seja mais confortável ser esse poço de rancor prestes a explodir, mas com certeza não é saudável

é muito difícil levantar a cabeça, limpar o machucado do joelho e prometer nunca mais cair por você