A gente não sabia o que viria pela frente, embora as previsões não fossem muito animadoras. Mas horas antes de começar o longo show de horrores que vai nos envergonhar por um bom tempo, no domingo 17/4 em Copacabana algo importantíssimo acontecia: o funk tomava conta da Avenida Atlântica, que alegre cantava refrões como “Eu sou favela / Eu sou e sempre serei favela”. Fina ironia.

O aparato policial indicava que o esperado era uma guerra de galera: uniformes robocops, carros de vários tipos, e até um caveirão, que felizmente não vi. Mas o que se viu foi um bailão no asfalto, é bem verdade que com muito menos funkeiros do que se imagina nos bailes, mas que fez a pérgola do Copacabana Palace ficar cheia de cabecinhas curiosas, câmeras em punho, vendo aquele povo passar, ao som do batidão.

Admirando a vista: os hóspedes do Copacabana Palace e o povo na rua

É aquela história: ”é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado”. Nem a PM: cruzando a multidão na diagonal para encontrar amigos do outro lado da rua, quase passei com o pneu da bicicleta em cima da botina de um policial que, encostado no camburão, tamborilava os dedos e cantarolava os funks que saíam das caixas do carro da Furacão 2000, anfitriã do baile promovido pela Frente Brasil Popular. “Ai meu pé, tia”, fez graça — ainda que o “tia” fosse totalmente dispensável. Os policiais estavam tranquilões.

Nos dias que antecederam essa manifestação, foi curioso ver as reações de expectativa: o morro vai descer? Como vai ser? Em sua página no Facebook, Rafael Dragaud resumiu brilhantemente um tipo de sentimento que tentou ser reproduzido e que indicava as conclusões a que se podiam chegar a partir dali:

A postagem de Rafael Dragaud no Facebook

Dos apartamentos, o racha de opiniões era visível: num prédio, uma faixa de fora a fora, pegando as várias janelas fechadas, a palavra “impeachament” se impunha enorme na horizontal, com as cores verde e amarela. Algumas janelas abaixo, um casal saudava a multidão acenando com dois pedaços de pano vermelhos, sinalizando que apoiavam a causa. Num outro prédio, um casal fazia gestos obscenos e exibia a primeira página do jornal do dia que previa o placar favorável do impeachment. O povo na rua não perdoou e o coro de volta para a mulher foi rápido: “burra, burra”.

Mais à frente, já no Leme, uma faixa vertical tomava metade da altura do prédio: “não vai ter golpe”. Poucas janelas acima, duas panelas solitárias tentavam fazer frente ao pancadão e à algazarra da multidão. Antes, um fortão do alto de uma janela alta gesticulava com raiva, alternando o gesto que levantava os dedos médios com outros em que apontava para o povo, o próprio suvaco e abanava o nariz, que às vezes também fingia que assoava. Tomou uma estrondosa vaia. A rua estava mais alegre!

Em Copacabana, a faixa a favor em Copacabana e o morador com um pano vermelho, duas janelas abaixo. No Leme, a faixa a contra o impeachment. Algumas janelas acima, alguém batia uma panela

O baile seguiu, debaixo de sol a pino, com gente de todas as idades, todas as cores, requebrados desajeitados, letras de cor cantadas na ponta da língua, alguns discursos intercalados, e o coro “não vai ter golpe” repetido a cada tanto, às vezes com o complemento emendado na sequência: “vai ter luta”. Mas ali ninguém queria briga. O funk — olhado torto por uns, adorado por muitos, associado a vários estereótipos cariocas, trabalhado com esmero por inúmeros raios gourmetizadores -, esse ritmo que desafia a ordem da cidade e seus corpos, estava ali, sambando sem pudor na cara da sociedade, num alegre domingão de sol de outono com cara de verão. E arrastando a multidão pela democracia. Memorável.

No ritmo da Dança do Quadrado, performers seguram a faixa e cantam: Pedro Paulo bate em mulher

Mesmo depois de finalizada a manifestação, rigorosamente às 13h, como combinado entre organizadores e prefeituras, aqui e ali apareciam grupinhos isolados adaptando alguma palavra de ordem ao batidão: “Pedro Paulo bate em mulher, Pedro Paulo bate em mulher” era cantado no ritmo da “Dança do Quadrado” por uns performers.

Saindo de uma das ruas que vêm da Babilônia/Chapéu Mangueira, apareceu uma turminha com uma enorme bandeira vermelha e meninas com estrelinhas nos bicos dos peitos de fora repetindo, no compasso do “Tô ficando atoladinha”: “Eu vou apoiar a Dilma, eu vou apoiar a Dilma, eu vou apoiar a Dilma. Calma, calma, burguesia”. Rapidamente o bar em frente engrossou o coro e, de novo, a explosão do “não vai ter golpe”.

Como o domingo não era de folga política e a orla estava reservada para os pró-impeachment na parte da tarde, os grupos contra foram diminuindo e, provavelmente, se deslocando para a Lapa, o lugar de concentração dos que acham que o voto de 54 milhões de eleitores tem que ser respeitado e que eleições, afinal, só em 2018.

Saí de Copacabana pouco depois das 16h e não fui pra Lapa. Assisti à votação dos deputados na Zona Norte da cidade, sem que panelas batessem, nem fogos espocassem. Nenhum alarido nem ali ou em outros bairros que cruzei depois, no caminho de volta a Laranjeiras onde, para minha surpresa e vergonha, uns gritos e uns rojões — ainda que isolados — comemoravam o resultado alcançado por aquele assustador conjunto de pessoas que teoricamente nos representam. Com raras e honrosas exceções, como estamos mal de representação…

O dia terminou amargo, triste. Mas começou como um belo domingo de funk na orla, de uma alegria sem medo dançando solta, de uma talvez quebra de barreira importante para um movimento que há anos batalha para mostrar o valor que tem, que luta para ter direito de existir sem medo de se expressar — e do qual a cidade se aproveita quando e como quer.

Como a luta de todos continua, tomara que haja mais bailões para unir essa cidade e juntar com força e alegria a turma que vai continuar na rua gritando “não vai ter golpe” ao som de todos os ritmos que conseguirmos cantar!

A democracia — que tem que ser para todo cidadão desta cidade, deste país — agradece, empinada.

E como vi na camiseta de um manifestante, mesmo com luta, este não será um país do ódio!

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