A moça branca e rosa.

Ana
Ana
Aug 28, 2017 · 2 min read

Certo dia eu estava em um ônibus junto de minha amiga voltando para casa. Tipicamente o ônibus estava lotado, e em pé ao lado do banco onde eu estava sentada uma moça de pele muito branca conversava com um rapaz. Eu não olhei para ela, só vi que em seu braço tinha uma cicatriz roseada e um pouco retorcida. Queimado. Por ver a cicatriz e por me admirar pelo tom de sua pele, comecei a prestar atenção a suas conversas. O rapaz — que não sei sua aparência, pois não olhei para trás para o ver — tinha para com a moça um cuidado admirável. Toda a hora perguntava para ela se estava bem, se estava cansada, se queria descansar, se estava com fome. Se pudesse, tenho certeza que este rapaz abriria seu par de asas e voaria com ela para o lugar mais seguro do mundo para protegê-la. Era como se a moça fosse sua estrela que despencara do céu. Ele cuidava dela como uma concha protege a pérola. E naquele momento, eu desejei profundamente ser a moça de pele branca e de braço queimado para alguém. Eu desejei que no mundo houvesse um rapaz que me protegesse do mundo. Que perguntasse se meus pés estão doendo, e ficasse quieto escutando enciumado enquanto falo no telefone com uma amiga que me chama para uma festa. Que se interessasse em saber como foi meu dia e que suportasse minha voz. Eu quase levantei do banco e sai de perto por me sentir um intruso a conexão extrema do casal. Me senti como um erro, um defeito, um borrão que estragava o lindo cenário dos dois. Era como se eu estragasse a perfeição mutua que os dois transbordavam com uma tranquilidade invejável, como se tudo aquilo fosse rotineiro, normal, que o que para mim era motivo de espanto e admiração, para eles era o dia a dia, a volta do trabalho. Meu queixo caia de estupefação e ambos riam de uma piada interna. Tão leves, tão eles. A moça de pele branca e queimado no braço falava com ele sem gaguejar, sem tensão. Ali não havia nuvens negras, nem abismos. Eram eles. Apenas eles. E o rapaz a protegia. E ela o entrertia. Casal perfeito. A moça branca e rosa era a rosa dele. A moça era mais rosa que moça. Mais flor que mulher. Ele a protegia como os espinhos da rosa a protege. A moça rosa. O queimado de sua pele aos olhos do rapaz era um botão de rosa, delicado, sensível. A moça era mais rosa do que moça. Acho que sempre vou querer ser a moça branca de queimado rosa, para alguém. Eu preciso ser.

Nunca mais me esquecerei deles.

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    Ando tropeçando no que queria te dizer e não disse, no que eu queria ter feito e não fiz. O mal das pernas, nesse caso, é o talvez.