As plataformas de VOD ameaçam a pirataria?

No dia 28 de Abril, a Netflix anunciou em suas redes sociais que séries da FOX sairiam do seu catálogo a partir de Julho, até aí nada de mais, pois a saída de conteúdos licenciados da plataforma de streaming são comuns, no entanto, não seria nada de mais se as produções em questão não fossem How I Meet Your Mother, Prison Break, Arquivo X, Sons of Anarchy e entre outras.

Não é costume da Netflix anunciar abertamente quando alguns títulos sairão do seu acervo, este tipo de informação os usuários descobrem através de postagens em grupos e fan pages nas redes sociais ou em portais de entretenimento, mas por se tratarem de produções de um grande canal, tal divulgação faz sentido.

Porém, a decisão da FOX de não renovar o contrato para o licenciamento de suas principais séries chama a atenção, ainda mais porque em Julho de 2016 ambas as empresas fecharam um contrato de exclusividade para o licenciamento da prestigiada American Crime Story, demonstrando um estreitamento na relação.

Outra coisa que chama a atenção para a não renovação do contrato é o FOX Premium, serviço da FOX focado em suas séries que vem sendo amplamente divulgado e onde os lançamentos mais recentes do canal acontecem simultaneamente com os EUA. E, apesar, deste serviço ser exclusividade de assinantes de operadoras de TV a cabo, eu não me surpreenderia se em poucos anos ele for oferecido de forma independente, assim como aconteceu com o HBO Go.

Mas o que me leva a acreditar nisso, na oferta do FOX Premium de forma independente? O próprio mercado de Video On Demand (VOD).

Precisamos falar sobre o mercado de Video On Demand (VOD)

Vamos começar por alguns dados relevantes. Durante o Festival do Rio 2016, evento voltado para o mercado de audiovisual, também ocorreu um evento integrado, o Rio Market, onde foi apresentado um estudo que coloca o Brasil como o maior mercado de VOD da América Latina, sendo o 8º maior do mundo.

Este tipo de serviço teve um crescimento de 415% no país entre 2012 e 2016, a expectativa é que o segmento continue a crescer por conta do preço baixo — se compararmos a mensalidade de uma TV por assinatura — e qualidade do serviço oferecido pelas plataformas.

No Brasil, a briga pelo Market Share se concentra na Netflix, Globo Play, HBO Go e Amazon Prime.

A Netflix reina soberana e absoluta no país, a chegada de seus principais concorrentes não foi capaz de causa grandes impactos. Vamos começar falando da HBO Go, responsável pelo grande fenômeno atual da cultura pop: Game of Thrones. GOT para os íntimos.

  • Fato 1: Game of Thrones nunca será disponibilizado na Netflix, assim como outras produções da HBO.
  • Fato 2: o valor e as condições com quais o HBO Go chegou ao Brasil são pontos negativos. O valor R$ 34,90/mês e a parceria com a operadora OI não são, exatamente, pontos atrativos.

Fora GOT e, mais recentemente Westworld, o catálogo da HBO não é muito atraente para o grande público, não justificando o preço da assinatura. As restrições geográfica também não colaboram, o serviço não está disponível em todo território nacional, o que dificulta o acesso do público.

Durante muito tempo a HBO foi referência em conteúdo de qualidade, mesmo nos EUA a sua assinatura na TV a cabo é para quem tem poder aquisitivo superior ao da média, no entanto, a presença e a rápida expansão da Netflix fizeram com a conhecida emissora saísse da sua zona de conforto, mas os seus esforços quase que preguiçosos para conquistar o consumidor e, consequentemente o mercado, não parecem promissores.

O caso da Amazon Prime Video já é mais complicado. Apesar de ser o serviço de uma plataforma conhecida mundialmente e ter desembarcado no país com um valor mais competitivo (US$ 2,99, em torno de R$ 9,40 nos seis primeiros meses), o seu catálogo é muito limitado e não muito mainstream.

Mr. Robot, série produzida pelo canal USA e disponível na Amazon Prime Video

Em seu acervo se encontram as aclamadas e premiadas séries Mr. Robot, do canal americano USA, e a original da casa Transparent. No entanto, a popularidade de ambas as produções não chega nem perto das de suas principais concorrentes.

Há quem diga que a Amazon pode agradar um público mais seleto, que busca por produções independentes, contudo, nem este público parece ver benefícios em pagar pela plataforma, já que é possível encontrar este dois programas em específico em outros meios.

A maior emissora do país entendeu a mudança de comportamento da audiência e não ficou parada esperando. A Rede Globo (sempre ela) lançou em 2015 o seu streaming independente das assinaturas da TV a cabo, o Globo Play, que pode ser adquirido por R$ 14,20/mês.

O acesso às telenovelas e sua programação jornalística e de entretenimento pode ser vistos a qualquer hora, no entanto, o sinal de que a Globo está atenta ao mercado veio com o lançamento da série Supermax (2016).

Na TV aberta a série seguiu o protocolo e foi transmitida semanalmente, mas os assinantes do serviço streaming da emissora tiveram acesso aos 11 primeiros episódios de uma vez, não tendo acesso apenas ao season finale (12º ep), que foi liberado simultaneamente com a transmissão na TV, fazendo que as duas plataformas fossem igualmente relevantes para a experiência.

Dentre as emissoras nacionais, a Globo está sendo a pioneira no segmento de VOD, mesmo não acompanhando a sua programação há alguns anos e não me identificado com o seu conteúdo, é impossível negar que ela não fica atenta ao comportamento do consumidor.

O VOD ameaça o mercado pirata?

Essa é uma pergunta complicada de responder.

Para o mercado fonográfico, as plataformas de streaming são um respiro contra a pirataria, pois dois estudos lançados em 2016 mostram que o consumo de música através de plataformas como o Spotify, Deezer, Rdio e tantas outras, aumentou nos últimos anos.

No Reino Unido, por exemplo, mais de 80% dos ouvintes consomem música através de meios legais, por lá o consumo de produções audiovisuais por plataformas de streaming também cresceu de 2015 para 2016.

O Brasil está indo na mesma direção, no entanto, quando falamos de música, os canais de streaming não são a primeira nem a segunda opção, o rádio ainda reina soberano e as novas plataformas aparecem à frente apenas do vinil.

O “fechamento” dos principais sites de torrent (KickassTorrents e Torrentz) em 2016 estão levando os usuários a buscarem por novas alternativas de consumo de conteúdo.

Os pontos levantados acima são positivos para as plataformas de streaming, porém, elas ainda não conseguem competir com algo que está cada vez mais presente na nossa cultura: o imediatismo.

Por conta dos licenciamentos, serviços como o Netflix ainda não conseguem ter os últimos lançamentos em seu catálogo com a mesma velocidade que é possível encontrá-los em sites piratas e o prazo de validade dos filmes e séries dentro da plataforma nos mantém sempre em alerta porque a qualquer momento aquele filme que você gostaria de ver pode sumir da sua lista.

Apesar de no mês de Maio indicados (e ganhadores) do Oscar como Moonlight, Lion e Até o Último Homem serem disponibilizados no acervo online da principal referência do mercado, na época da premiação, muitos já haviam assistido aos filmes, se não no cinema, através de meio ilegais, pois eles foram lançados no final de 2016 lá fora e no início do ano já era possível encontrá-los com boa qualidade na internet.

O timing para o consumo imediato destes filmes em particular também contribuiu para a busca dos mesmos em todos os meios possíveis.

Outro dado — de 2014 — que mostra que o streaming ainda sofre com a sombra da pirataria é que, de acordo com a consultoria Tru Optik, o Brasil é o segundo país que mais consome conteúdo ilegal, pendendo apenas para os EUA. Há 3 anos, os acessos em sites piratas a partir do Brasil era oito vezes maior do que o acesso na Netflix.

Mas o que tudo isso tem a ver com a FOX retirar as suas principais séries da Netflix?

Mad Men, série aclamada e premiada produzida pela AMC

Não há nada oficial e isso é mais um achismo meu, mas cada vez mais a FOX vem divulgando o seu serviço, o FOX Premium. Atualmente, este serviço ainda é vinculado a uma assinatura de TV a cabo e pode ser acessado online ou na própria grade da TV por assinatura.

Na minha visão, as plataformas de streaming já são uma realidade e não uma tendência, eu já vejo este mercado bem consolidado nos próximos dois anos e como mostrado logo acima, as emissoras não parecem dispostas a perderem o público que já conquistaram.

A HBO foi a primeira a dar o primeiro passo e se desprendeu das TVs pagas, a AMC, responsável por séries renomadas e premiadas como Breaking Bad e Mad Men já demonstrou interesse em seguir o mesmo caminho, pelo menos lá fora.

Se este caminho realmente se consolidar, com cada emissora criando a sua plataforma independente, a pirataria pode ganhar novo fôlego.

As emissoras têm que levar em consideração que vestimos camisetas de personagens e estórias, não de canais de TV. Se a fragmentação de conteúdo audiovisual se tornar realidade, nós, consumidores colocaremos no papel quanto custa cada plataforma e se o seu custo benefício vale a pena.

Para finalizar, eu vou deixar logo abaixo dois podcasts que debatem o assunto, um do SpoilersTV e outro do Cinem(a)ção.

E eu gostaria de saber a sua opinião sobre o assunto, o que eu falei no texto faz sentido para você? Ou eu viajei demais? Comente, todo feedback é válido se bem embasado.