O que nos foi roubado em “A Garota Dinamarquesa”

Desde que fora anunciado no ano passado, “A Garota Dinamarquesa” dividiu fortemente as opiniões, especialmente da comunidade LGBT, por se tratar de mais um filme sobre uma mulher trans que era protagonizado por um homem cis.

Segundo palavras da militante pernambucana Maria Clara Araújo, Hollywood faz questão de colocar um homem branco cis e hétero pra fazer papéis relevantes à comunidade LGBT para se valer da repercussão da notícia como forma de divulgação do próximo blockbuster — essa é uma verdade mais que verdadeira, ainda mais se tratando de Eddie Redmayne cuja carreira está em forte ascensão pelos lançamentos deste filme, de “Criaturas Fantásticas e Onde Habitam”, do universo de Harry Potter e os passados “A Teoria de Tudo” e “Os Miseráveis”. Ele não poderia estar em melhor momento, e é isso, e apenas isso que a Universal deseja para impulsionar ainda mais sua última produção.

Confesso que não sei exatamente por onde começar a resenha. Quando o trailer saiu eu fui uma das que ficaram extremamente excitadas pelo novo lançamento, encantada por tudo que circundava a nova produção cinematográfica que prometia abalar as estruturas do cinema em 2015/2016. Tudo isso veio abaixo quando comecei a ver a repercussão do mesmo nos movimentos sociais dos quais eu faço parte, em especial, as duras críticas do transfeminismo. Agora eu era das que criticavam duramente a produção e todos os problemas sociais em volta da versão cinematográfica da história de Lili Elbe. O tempo passou e eu comecei a ver respostas ao filme de todas as direções: positivas, negativas, em português, em inglês, em espanhol, no Facebook e no Tumblr. Chegou um momento que eu cansei de estar dividida e resolvi dar meu próprio passo, assistir, refletir, levar em consideração toda crítica positiva e negativa em volta da produção.

Um crítica que eu faço aos movimentos sociais, e aqui farei brevemente, é a falta de sensibilidade para enxergar obras de arte como obras de arte antes de qualquer coisa. Entender que o que está ali na sua frente é a visão artística de uma pessoa sobre um determinado assunto, e não objetivamente um discurso político em um primeiro momento. Precisamos entender que arte é feita por seres humanos e que não, nosso trabalho não está feito — a nossa luta é diária, e que há de se aprender a criticar.

Quando eu paro pra pensar em “A Garota Dinamarquesa” eu entendo que preciso olhar por 3 ângulos diferentes de modo a entender qual é o ponto principal: o de artista/atriz que sou; o ponto de vista de pessoa trans que sou; o ponto de vista transfeminista e militante LGBT que sou. É complexo e difícil porque é conflitante. De uma perspectiva pessoal eu posso olhar pro filme com olhos completamente diferentes do que faço da perspectiva militante.

Antes de tudo, lanço meu olhar pra produção do filme: os planos são incríveis, o uso constante da profundidade, desfoques, alinhamentos não-centralizados, iluminação e cores faz com que você se sinta assistindo vários quadros europeus do século XX de diversas escolas — do meu querido Impressionismo até o Expressionismo, ao Realismo — levando em consideração, inclusive, o começo da iluminação elétrica e como os artistas plásticos enxergavam essa nova iluminação. Da trilha sonora também não posso reclamar de nada: todos os movimentos remetem a um estilo franco-centrado dos anos 1920 na orquestração e nas cadências, a dramaticidade pós-romantismo. Nada, nada, parece estar fora de lugar, tudo converge numa obra de arte maravilhosa, que tira o seu fôlego a cada cena, a cada plano, a cada nova fala. O filme enquanto obra de arte cinematográfica é simplesmente maravilhoso.

E esse é o pior defeito do filme.

Creio que eu deveria ter uma bagagem maior sobre a sociedade no início dos anos 20, sobre o que era ser homem e ser mulher, principalmente no que diz respeito à sociedade escandinava estabelecida em um continente entre guerras (Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, e Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945), com a forte onda feminista no mundo no começo do século XX. Todo e qualquer indivíduo tem sua história marcada pelo contexto histórico, social, religioso, econômico e racial na qual está inserido, é antiético e impossível liquefazer todas as vivências a partir de deduções; assim como impor as teorias científicas à natureza caótica das relações antropológicas é, minimamente, anticientífico. Dados esses fatos, tentarei me abster de qualquer julgamento moral.

Como se dá a descoberta da identidade de gênero de cada indivíduo, seja trans ou cis, é uma experiência única e que, como eu disse acima, depende de diversos fatores sociais. Por exemplo, para Meredith Ramirez Talusan que cresceu em uma comunidade cuja língua não possui flexões de gênero, essa descoberta é diferente do que foi para João Nery. O que incomoda no que é mostrado no filme é a insistente relação com a vida sexual de Lili Elbe, o que faz quem assiste reforçar a ideia de que a transgenereidade é, na verdade, uma “evolução” da homossexualidade. O que não é.

A perspectiva é fetichista, mostra apenas o que é sensacional, apenas aquilo que fará barulho, que fará os expectadores deixarem o cinema cochichando. É uma imagem que reforça quando o CID e o DSM dizem que nos vestimos com roupas designadas ao “gênero oposto” para nos satisfazer sexualmente.

Ponto positivo pro filme quando mostra como a comunidade médica pode ser (e é) nefasta e violenta conosco até os dias de hoje: 90 anos depois, ainda é muito comum endocrinologistas se negarem a nos oferecer reposicionamento hormonal; ainda há muito pouco interesse da comunidade médica pública brasileira em aprender e desenvolver métodos de transgenitalização; ainda temos psicólogos e psiquiatras que viram e dizem “Você não é trans”, negando nossa identidade e tudo aquilo pelo qual lutamos na nossa jornada em busca de nossa prórpia identidade.

Não é à toa que muitos comparam “A Garota Dinamarquesa” com “Transamérica”, já que existe um enorme foco na genitália. No entanto há de se entender também que um dos focos do filme é a transgenitalização experimental, pioneira, a qual Lili Elbe se submeteu em junho de 1931.

Uma falha ultrajante é o pouco de atenção que se deu à corporalidade, já que é sabido — embora contestado — de que Lili era intersexo. Várias de suas características condizem com o que a literatura médica aponta como comuns aos indivíduos Klinefelter e Insensibilidade Androgênica: personalidade tímida, pouco desenvolvimento muscular, possível esterelidade. E por que isso é importante? Porque a história das pessoas intersexo tem sua origem entrelaçada com a das pessoas transgêneras, uma vez que durante o boom científico do século XX, os estudos do psicólogo Robert Stoller sobre identidade de gênero tinham como foco crianças intersexo que se comportavam de “forma desviante” em relação ao gênero que lhes fora designado no nascimento. Obviamente, isso aconteceu décadas depois da morte de Lili Elbe, mas ainda sim tem sua relevância histórica.

Em suma, tomo a liberdade de dizer que “A Garota Dinamarquesa” é um crime contra a comunidade LGBT, especialmente Trans, Intersexo e Bissexual.

Ao não dar importância pro relacionamento entre Lili e Gerda, preterindo a realidade em troca de um casamento que se arruína lentamente pra enaltecer a dramaticidade da obra, o longa promove o apagamento bissexual e da sexualidade feminina.
Lili e Gerda em ilustração feita pela própria, possivelmente no tempo em que viveram em Paris: Lili podia viver sua identidade de gênero e as duas não seriam perseguidas politicamente como “sexualmente pervertidas”.

É uma produção artística magnífica, deslumbrante. Foi um momento do cinema que nos foi roubado em troca de divulgação, em troca de enaltecer a carreira de um ator que já tem portas abertas em Hollywood. Foi-nos tirado a oportunidade de sermos protagonistas da versão cinematográfica (e aqui friso fortemente que é uma versão cinematográfica, já que muitos fatores divergem ou não ficam muito claros em relação à história registrada) da nossa própria história. Mais que qualquer outra obra de ficção que já tentou nos representar, esse era o momento da nossa história. Parafraseando o dramaturgo Alexandre Mate:

História com H. Historicidade.

E para além disso, nossa realidade foi levada ao glamour. “Trans é o novo gay”, como vem sendo dito pela internet, porque sim, agora o interesse é falar sobre pessoas trans. Já podemos esperar travestis, homens, mulheres e pessoas trans binárias e não-binárias em seus apartamentos do Leblon na Globo, normativas e passáveis em filmes e séries e o completo desserviço que vai ser isso. Pois enquanto cobrem nossa história de glamour, a violência assola nossa população.

Hoje, no dia que escrevo esse artigo, fui agraciada de manhã com a notícia de que a 49ª travesti de 2016 foi morta nessa madrugada.

Por fim, também preciso dizer que o filme rouba não só o nosso protagonismo, mas a nossa voz, e faz afirmações por nós, calando toda a luta que vem sendo travada nas últimas décadas.

Então, sim, é um filme lindo e maravilhoso, mas que esconde e cala muito sangue, realidade e luta. Tal como foi feito em “Stonewall”, tal como foi feito em “As Sufragistas”: nossa história é de novo lavada e glamourizada em “A Garota Dinamarquesa”.

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