Por que o cinema LGBT é tão triste?

Não importa em quais esferas da comunidade você se inclui, sempre haverá um filme triste pra você.

Rattanaballang Tohssawat (Maek) e Chaiwat Thongsaeng (Iht) protagonizam a cena mais sensual e triste entre dois homens que se amam no longa Bangkok Love Story, de 2007

Maek é contratado para matar o informante Iht, mas ao perceber que o mesmo não é má pessoa, acaba mudando de ideia. O irmão de Maek, Mhok, é um garoto de programa que fora infectado com HIV pelo padrasto abusivo, e sua mãe já se encontra no estado terminal da AIDS. Por outro lado, Iht está noivo com a jovem Sai. Ação, romance, drama e problemas sociais da Tailândia são expostos no longa Bangkok Love Story, escrito e dirigido por Poj Arnon. Além de tudo, o filme possui a sequência mais sensual e triste entre dois homens que se amam. Na minha opinião, o melhor e mais envolvente filme sobre o tema.

Se por um lado as diversas produções cinematográficas com temática LGBT levam pras telonas (telas e telinhas) as histórias de amor entre homens, o amor entre mulheres, a jornada para a descoberta da identidade de gênero e o que vem em seguida, a relação com o próprio corpo, o desejo e o ímpeto de externalizar e desafiar as normas da sociedade, por outro, a mesma produção nos mostra como ainda vivemos num mundo de discriminação, e como essa discriminação afeta as nossas vidas. Ainda que a representatividade com artistas LGBT seja escassa, muitos filmes e séries mostram como a LGBT-fobia molda uma sociedade que funciona como uma engrenagem que destrói vidas e corações.

“Viados são meninos que gostam de meninos. Como você.”

Um dos filmes mais difíceis pra eu assistir com certeza foi o belga Ma Vie en Rose (Minha Vida em Cor de Rosa), de 1997, dirigido por Alain Berliner. Aos 13 anos, Georges du Fresne deu vida à personagem Ludo, que ainda criança sabe que não é um menino. Por todos os lados, ela é bombardeada com bullying transfóbico e homofóbico, incluindo da própria família. Imagine assistir a uma versão de 89 minutos da sua infância em formato de filme. O filme também mostra, em uma versão reduzida, a breve história de Chris, um menino que vive o mesmo que Ludo.

Para além do amor da família e da própria pessoa por si, ainda outros temas abordados pelo cinema com temática LGBT, é o amor sublime que se constrói entre duas pessoas — nos moldes do romantismo do século XIX, ou, mais próprio pra discussão, o idealizado amor shakespeareano que termina na tragédia movida por questões sociais e políticas — o chamado amor proibido.

“Não procuro apenas por sexo. Eu quero encontrar o amor.”

Boy Meets Girl (de Eric Schaeffer, 2014) deixa claro que amor é proibido a nós, pessoas LGBT, e não só o amor, como a orientação sexual. Afinal de contas, pessoas trans não são homossexuais digievoluídos? A heterossexualidade compulsória é desafiada no longa, quando a atriz Michelle Hendley dá a vida à também transgênero Ricky, que se encontra no centro de uma teia amorosa e de ressentimentos que perduram desde o ensino médio. Um final de história diferente do que encontrará a drag queen Señorita ChiChi Rodriguez.

“É muito importante para uma mulher ter amigas mullheres. E eu tenho sorte de ter uma amiga que tem pomo de adão.”

O clássico To Wong Foo, thanks for Everything, Julie Newmar (Para Wong Foo, obrigado por Tudo, Julie Newmar — de Beeban Kidron, 1995) esconde por trás da irreverência e das cores exuberantes em plumas e paetês do universo das drag queens uma sequência de problemas sociais: transfobia, homofobia, abandono familiar, abuso sexual, violência doméstica, solidão — tudo isso pode até passar desapercebido por uma pessoa cis-hétero que assista ao filme, ou até mesmo pela população LGBT mais nova que vem enfrentando cada vez menos as sombras e o apagamento social. Infelizmente, quando se é da “Semi-Nova Guarda” LGBT, você ainda sente alguns socos no estômago ao acompanhar a viagem de Vida Bohème, Noxeema Jackson e Señorita ChiChi Rodriguez.

E se nos anos 1990 a vida ainda era difícil, o que se imaginar das gerações anteriores? O Beijo da Mulher Aranha (de Hector Babendo, 1985) e Madame Satã (de Karim Aïnouz, 2002), nos mostram outras pessoas, outras épocas, outras situações que nos mostram que não importa a década, se 1970 ou 1930 respectivamente, a discriminação não é de hoje — assim como a comunidade LGBT não é uma criação dos anos 90, mas está aí, viva e latente desde tempos imemoriáveis. Que o diga Alexandre, o Grande.

“A vida é melhor quando a gente canta. É ou não é!?”

E afinal, que conclusões devemos tirar?

Como atriz negra, transgênero e bissexual que sou, contemplar a história do cinema no que tange a comunidade LGBT é ver que por diversas vezes a vida imita a arte, a arte imita a vida; e muitas vezes também, as duas se confundem e nos mostram o quão longo ainda é o caminho que temos a trilhar pela representatividade — e não só uma representatividade de pessoas trans interpretando pessoas trans, pessoas homossexuais interpretando homossexuais, pessoas negras não sendo apagadas das histórias, etc.

O cinema com temática LGBT é triste porque, infelizmente, a realidade da nossa comunidade ainda é triste. Porque, se a mãe de Ludo corta seu cabelo em um ato desesperado que mistura proteção e agressão e isso ainda nos comove, não é pela barbaridade da ação, mas porque nós ainda vemos isso acontecendo e compartilhamos nas redes sociais o milagre de travestis sendo salvos (sic) em Cristo. Porque se nos parte o coração vendo a mãe de Vida Bohème lhe dando as costas na porta de casa, é porque ainda temos mães que viram as costas para suas crianças. Porque ainda precisamos lutar contra a polícia opressora como Madame Satã fez, porque ainda existem pessoas negando o amor que existe entre si, como Maek e Iht. Porque ainda apagamos a bissexualidade de Ricky e Iht, porque não nos damos conta de como são diferentes as agressões fóbicas — por mais que o resultado social seja o mesmo, mas que importa sim se você é negra como Madame Satã, filha de família rica como Vida Bohème, ou de uma família paupérrima como Maek, ou gorda como Big Boo.

O que eu desejo é uma sociedade que não esmague as pessoas LGBT, e que isso se reflita na produção cinematográfica, que deixe as tristes trajetórias listadas acima (e não listadas também) em um passado inimaginável. E para ilustrar isso, pra mim, nada melhor que a minha fase favorita de Lea Delaria em Orange is the New Black, como Big Boo:

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