Caros simpatizantes, não vão à Parada do Orgulho LGBT antes de entender essas 6 coisas

A Parada pode parecer um evento muito divertido, mas é muito mais do que isso.

Parada LGBT de São Paulo, 2015

1. A primeira parada foi uma revolta política

A parada acontece todo meio de ano pra comemorar as Rebeliões de Stonewall em 1969. Naquele tempo, a maior parte do mundo condenava a comunidade LGBT; nos Estados Unidos não era diferente. Apesar de ilegal, as máfias abriam bares LGBT pra lucrar em cima da discriminação sofrida por nós. Esses bares eram os únicos lugares seguros para pessoas LGBT e eram frequentemente invadidos por policiais que procuravam por propinas. Cansados do assédio e da discriminação, os patronos de Stonewall protestaram e começaram uma série de ações que se tornou uma rebelião de vários dias. A esse ponto, mais de 1000 pessoas se juntaram nas ruas de Greenwich Village em um dos primeiros protestos organizados de pessoas LGBT. As matronas marjoritariamente trans não-brancas em Stonewall são creditadas pelo início do movimento LGBT.

Então você verá lanteoulas, arco-íris, eventos patrocinados nos arredores, mas entenda que a parada é igualmente uma celebração, um protesto e uma comunidade construindo um evento. É aquele dia no ano em que nos reunimos com a família que escolhemos. Pelos nossos corpos e identidades ainda serem policiados pelo governo, grupos religiosos, e inclusive pessoas que amamos, nós usamos a Parada como oportunidade de nos expressar da forma mais autêntica para a nossa comunidade. Às vezes isso é embalado ao som de Pablo Vittar e catuaba e às vezes isso é feito com muitas lágrimas nas homenagens às pessoas LGBT assassinadas. Nos permitimos ter vários sentimentos simultâneos enquanto celebramos nossas vitórias e velamos nossas perdas como uma comunidade.

2. Mulheres LBT não estão lá pra você

Como uma pessoa queer feminina (Meg Cale), eu já fui abordada por homens e casais cisgêneros em locais LGBT mais vezes do que eu consigo contar. Algumas mulheres queer são atraídas por homens, algumas não. Nós vamos para espaços LGBT para estar com outras pessoas LGBT e celebrar nossa identidade com pessoas que são como nós. Claro, devem haver pessoas interessadas nos seus avanços, mas também haverá uma maioria de pessoas que ficarão ofendidas e não se sentirão seguras. A Parada deve ser em primeiro lugar um lugar seguro para pessoas LGBT. Mantenha isso em mente e considere procurar pessoas para o seu ménage à trois com pessoas que estão interessadas (NT: existem vários grupos em redes sociais para isso, inclusive).

3. Não nos fotografe sem permissão prévia

Você verá fetichistas, artistas drags, pessoas trans binárias e não-binárias, nudez, gender fuckery e roupas incríveis. Não estamos aqui para o seu entretenimento. Estamos aqui pra celebrar com pessoas que são como nós. Não poste fotos nossas em suas redes sociais como forma de mostrar como você é “cabeça aberta”. E não faça graça com a gente na internet. Não existimos para divertir vocês.

NT: Gender fuck/fucking/fuckery é uma ação política dentro da comunidade LGBT, uma resposta às normas de gênero. As pessoas (especialmente pessoas homossexuais) vestem peças de roupas, maquiagens, acessórios e/ou adotam comportamentos designados a outro gênero, misturando com o seu próprio, criando figuras andróginas, incógnitas, negando papéis de gênero pré-estabelecidos.

4. Se você pensa “tudo bem com as pessoas serem gays e lésbicas, mas não entendo essa coisa de ser trans…”

…Não venha para a Parada.

5. A parada não é o lugar para a sua “noite das garotas”, despedida de solteira ou misoginia

Muitas mulheres cis-hétero já me disseram que adoram ir para bares LGBT porque elas podem dançar sem o assédio de homens cis-héteros (NT: e isso é uma justificativa muito válida, mas não faça esses espaços serem sobre você). Eu já vi muitas mulheres cis-hétero subindo no palco tentando ser o centro das atenções. Eu já vi essas mulheres sendo um pouco muito tóxicas e assediando homens gays dizendo “Você é gay então não conta…” E já vi ações igualmente repugnantes vindas de pessoas gays e lésbicas, então não vamos fingir que somos a parte inocente aqui. Uma vez eu fui pro Splash na cidade de Nova York com um casal de amigos gays e me disseram que “Amapoas não eram permitidas lá dentro”. Eu poderia prosseguir por horas sobre ações homofóbicas e misóginas dentro de espaços LGBT, mas eu tenho um limite de palavras para escrever. Ao invés disso, vou deixar vocês com esses textos sobre a relação de mulheres com homens gays e sobre a misoginia entre os homens gays.

NT: No original “Fish wasn’t allowed inside”. Fish (peixe em inglês) é uma gíria LGBT estadunidense para se referir às mulheres, muito provavelmente surgida do mito misógino de que vaginas tem cheiro de peixe. Não obstante, Amapoa (do iorubá usado no candomblé, significa vulva/vagina) é usado no pajubá para se referir às mulheres cis.

NT²: No original, o primeiro link redireciona para um artigo sobre a relação entre as mulheres cis-hétero e a comuniade drag.

6. Você está lá à convite, aja apropriadamente

O ponto principal aqui não é estimular o ódio entre a comunidade LGBT e pessoas cis-hétero. Tampouco quero desestimular pessoas cis-hétero a fazerem parte da Parada. É sobre um comportamento inapropriado e insensível que essas pessoas demonstram em espaços LGBT, causando desconforto e em um evento que foi feito por nós e para nós em primeiro lugar. Pessoas cis-hétero podem ir para qualquer festa e sentir-se livre para dançar, dar as mãos e dar amassos com a pessoa que elas estão pegando sem sentir que eles podem estar em perigo pela sua identidade. Pessoas LGBT nem sempre têm esse luxo (NT: SIM, LUXO). Se você quer ir à Parada, seja um apoiador ou participante, mas não tente ser o centro das atenções no evento.

NT: Isso inclui achar que heterofobia e cisfobia existem.

Bônus da tradutora: Entenda o que é a comunidade LGBT

Não estamos mais nos anos 1990. A comunidade não é sobre homens gays e mulheres lésbicas. A comunidade não é GLBT, não é LGTB, não é LTBG, não é LGBTTTXYZABCD. Eu pessoalmente uso a sigla LGBT por ser a mais difundida, mas não é à toa que hoje muitos grupos usam ALGBTQI+, simplesmente porque a comunidade não é sobre direitos para pessoas homossexuais. Também é sobre orgulho de identidades assexuais e não-binárias, sobre estar dentro do guarda-chuva roxo lindo das bissexualidades, sobre outras vivências de gênero pra além de transexual (e só pra lembrar: a comunidade trans é muito mais do que mulheres trans e travestis), sobre corpos que já nascem desafiando as noções preestabelecidas sobre macho e fêmea. Entenda que muitas dessas pessoas carregam outros estigmas sociais por não serem brancas ou serem gordas ou serem pessoas com deficiência. E além de tudo isso, sobre as demandas sociais de cada parcela dessa grande comunidade.

Por favor, respeite toda a comunidade. Nossa palavra chave é pluralidade, e pluralidade não quer dizer “colocar todo mundo em polos opostos”, mas sim reconhecer todos os espectros e nuances que nos constróem.

Free translation and adaptation from: Dear straight allies, please don’t come to pride until you’ve understood these 6 things, de Meg Cale para a Matador Network. 10 de junho de 2016.