Sob a garoa seca

La Madone de São Paulo, de Alexis Diaz e INTI

Acordei mais um dia, terça-feira, perto das 9 e meia. Acordei cedo pros meus padrões. Levantei e lentamente me preparei para sair e comprar pão, ao som dos carros passando e aquele dia a dia normal do centro de São Paulo. No meu curto caminho sempre cruzo com pessoas que estão vivendo sem um, passam os dias vagando de um ponto a outro, existindo mais um dia com um colchão mofado e um cobertor barato. Muitos que no inverno dormiam perto dos escapamentos e motores de carros e ônibus, agora se deitam horas sob o sol escaldante de começo de primavera/verão.

São Paulo não é uma cidade bonita. Não existe viço ou rubor em sua face acinzentada, suada, febril. São Paulo é uma cidade doente, que deliberadamente dá as costas para os seus doentes. Mas são milhares, milhões de pessoas passando pelas calçadas sujas de água de ar condicionado, óleo de carro, lixo queimado e urina humana diariamente, correndo para a 25, indo pegar o ônibus no Terminal Bandeira. Servem-se de pequenas doses ilusórias servidas pela Sereia Verde com nomes chiques em italiano ou inglês. Eu faço parte dessa massa.

São Paulo é uma cidade abandonada à míngua. As pessoas que habitam suas ruas já sabem disso, e diferente de nós que podemos pedir um balde de pedaços ou tirinhas, pra elas sobram as pedras que se queimam devagar e ajudar a fazê-las esquecer de como essa imensidão cinza as devora vivas e conseguir chegar no dia seguinte. Talvez dormir num sofá abandonado onde alguém pode pixar “mais amor, por favor”.

Sinto falta do teatro, de dançar, de estar em cima de um palco. O olhar de atriz ainda está em mim, observando cada passo de cada pessoa em meu campo de visão. Talvez devesse frequentar mais a Roosevelt, fazer amizades antropofágicas, comer doces canábicos pela liberdade de ser, estar, ir e vir. Não gosto muito desse pão feito com banha na massa, mas a padaria é muito longe de casa, e eu não estou afim de andar mais.

São Paulo é uma cidade que se vangloria de muita coisa, como qualquer criança fazia na escolinha: “Sou cosmopolita, plural, diversa — o mundo cabe em mim. Esses nigerianos ficam aí falando nessa língua esquisita, pensam que o Brasil é bagunça e qualquer um pode chegar e roubar, matar, fazer coisa errada o dia inteiro. Tenho uma arquitetura invejável, que vai desde o barroco, até o neogótico, chegando no Bauhaus e à arquitetura contemporânea envidraçada. Um monte de bolivianos naquele prédio velho do Brás, costurando dia e noite. Aqui você é bonita, elegante e fashion. Tá cheio de árabe, daqui a pouco começa os atentados terroristas.”

São Paulo é uma velha do interior, igualzinha àquela que deliberadamente furou a minha frente na Padaria Santa Ifigênia como se eu não existisse. Chinelo no centro e a pele escura falam mais alto que 3 formações e 4 idiomas. Só pode morar em invasão ou ser de rua.

Sempre tem alguém se sentando na porta do prédio, pra quem eu tenho que pedir licença. Quem mora no centro? Ah, a efervescência de São Paulo. Que cidade maravilhosa…