“Nacionalismo e Fascismo” Jesús Sepúlveda

Capítulo 20 (sem título) de “O Jardim das Peculiaridades”

Para desterritorializar o Estado há que se opor ao militarismo e à sua base ideológica: a idéia de estado-nação.
Se fosse possível suprimir o imaginário das comunidades imaginadas, existentes nos diversos projetos de construção nacional, a comunidade se transformaria num grupo real de pessoas com rostos e nomes identificáveis.
Sua interação diária seria a escala humana e a comunidade seria verdadeira.
Assim se desterritorializa o Estado.
À idéia de estado-nação une-se a noção de raça: fundamento da xenofobia e do racismo.
O Estado nunca deixou de ser um instrumento classista e racista de controle e opressão.
Sua territorialização ocorre mediante o movimento de tropas e o despregue militar.
Para desmaterializar o Estado há que desmantelar o militarismo e o armamentismo.
O Estado opera como se fosse um grande galpão nacional, que investe em terrenos de ensaio bélico: as guerras.
Com a desmaterialização do Estado se desterritorializa a nação e as fronteiras limítrofes perdem realidade, tornando-se o que são: limites artificiais construídos pelos predicadores de todo tipo de nacionalismos e regionalismos, responsáveis dos vínculos políticos impostos pelo Estado aos sujeitos.
O nacionalismo tenta subjugar-nos sob as práticas sedentárias derivadas tanto do controle urbano como da economia territorial agropecuária.
O efeito dessas práticas é a domiciliação, que traz aparelhada a ação domesticadora do Estado.
Não obstante, quando o dispositivo que promove o conceito de território nacional se dissolve, um dos mecanismos da padronização também deixa de funcionar.
Deslocar-se livremente de uma zona a outra — de comunidade a comunidade — sem ser controlado pelos sistemas aduaneiros nem pelas intendências policiais implica que a liberdade se corporalize numa prática cotidiana.
O movimento constante é uma força incontrolável.
Seu caráter libertário radica em sua capacidade de abolição do sedentarismo e da domiciliação, desbaratando todo controle estatal.
Deslocar-se é desdomesticar.
Ir de um lugar a outro, conhecer gente, aprender seus idiomas e entender outras visões de mundo, é uma praxe libertária.
Dita praxe agudiza a peculiaridade.
O fascismo é fomentado pelo nacionalismo: sentimento de propriedade nacional que as classes possuidoras e endinheiradas exacerbam.
Esse sentimento é transferido aos despossuídos e pobres da cidade por meio dos mecanismos de propaganda e doutrinamento cívico, oficial e nacional.
Algumas pessoas, por exemplo, repetem discursos — que publicam a ideologia — na primeira pessoa plural.
Conjuga-se o verbo na forma do nós, promovendo o controle idiomático e reforçando as identificações entre pátria, bandeira, governo e gente.
Dizer por exemplo: “temos um parque, uma cordilheira, uma boa equipe ou uma economia estável” implica um grau linguístico de aceitação de certa identidade coletiva nacional atribuída e/ou imposta.
Este é o nós da realeza, adaptado aos tempos modernos para fazer a gente pensar que o governo e suas instituições financeiras representam o indivíduo comum.
A gente fala das ações do governo como se tivesse tido alguma participação nas decisões governamentais ou na repressão militar.
Esta é a alienação nacionalista que facilita a aparição do fascismo.
O doutrinamento se reproduz através das escolas, do esporte, dos valores tradicionais, das regras, das narrativas oficiais e dos meios de controle.
A propaganda se aviva através das telas luminosas (por exemplo a televisão, o cinema, a informática etc.), dos meios impressos, do rádio, da educação etc.
O fascismo se cristaliza na noção de nação.
Por isso, toda identidade comunitária atribuída e/ou imposta tende a reforçar ditas noções: nacionalidade, regionalismos, idioma, papel social, colegiados, crenças religiosas, clãs familiares, irmandades, relações de trabalho, ofício ou profissão etc.
A comunidade real não transita pelo caminho destas aplicações identificáveis.
A comunidade real tem a ver com o companheirismo e a amizade.
E não é difícil imaginá-la.
Constituem-na todos aqueles familiares, amigos e amigas que vemos diariamente e com quem nos preferimos relacionar e desfrutar cada dia.
Ali se vivencia a solidariedade cotidiana e se nega presença do Estado.
Ali há reconhecimento mútuo e respeito até a morte.
Ali também se desterritorializam as fronteiras e se baixam com bravura as torpes bandeiras da xenofobia.
Jesús Sepúlveda