Trechos de “Como criar para si um corpo sem órgãos” de Mil Platôs

“…
Trata-se de criar um corpo sem órgãos ali onde as intensidades passem e façam com que não haja mais nem eu nem o outro, isto não em nome de uma generalidade mais alta, de uma maior extensão, mas em virtude de singularidades que não podem mais ser consideradas pessoais, intensidades que não se pode mais chamar de extensivas.
O campo de imanência não é interior ao eu, mas também não vem de um eu exterior ou de um não-eu. Ele é antes como o Fora absoluto que não conhece mais os Eu, porque o interior e o exterior fazem igualmente parte da imanência na qual eles se fundiram.
Bateson (Gregory Bateson, Vers une écologie de l’esprit, p. 125–126.) denomina platôs as regiões de intensidade contínua, que são constituídas de tal maneira que não se deixam interromper por uma terminação exterior, como também não se deixam ir em direção a um ponto culminante
Um platô é um pedaço de imanência.
Cada corpo sem órgãos é feito de platôs.
Cada corpo sem órgãos é ele mesmo um platô, que comunica com os outros platôs sobre o plano de consistência.
É um componente de passagem.
…a anarquia e a unidade são uma única e mesma coisa, não a unidade do Uno, mas uma unidade mais estranha que se diz apenas do múltiplo.
É isto que os dois livros de Artaud exprimem: a multiplicidade de fusão, a fusibilidade como zero infinito, plano de consistência, Matéria onde não existem deuses; os princípios, como forças, essências, substâncias, elementos, remissões, produções; as maneiras de ser ou modalidades como intensidades produzidas, vibrações, sopros, Números.
E enfim a dificuldade de atingir este mundo da Anarquia coroada, se se fica nos órgãos, “o fígado que torna a pele amarela, o cérebro que se sifiliza, o intestino que expulsa o lixo”, e se se permanece fechado no organismo, ou em um estrato que bloqueia os fluxos e nos fixa neste nosso mundo.
Percebemos pouco a pouco que o CsO não é de modo algum o contrário dos órgãos.
Seus inimigos não são os órgãos.
O inimigo é o organismo.
O CsO não se opõe aos órgãos, mas a essa organização dos órgãos que se chama organismo
É verdade que Artaud desenvolve sua luta contra os órgãos, mas, ao mesmo tempo, contra o organismo que ele tem: O corpo é o corpo. Ele é sozinho. E não tem necessidade de órgãos.
O corpo nunca é um organismo. Os organismos são os inimigos do corpo.
O CsO não se opõe aos órgãos, mas, com seus “órgãos verdadeiros” que devem ser compostos e colocados, ele se opõe ao organismo, à organização orgânica dos órgãos.
O juízo de Deus, o sistema do juízo de Deus, o sistema teológico, é precisamente a operação
Daquele que faz um organismo, uma organização de órgãos que se chama organismo porque Ele não pode suportar o corpo sem órgãos, porque Ele o persegue, aniquila para passar antes e fazer passar antes o organismo.
O organismo já é isto, o juízo de Deus, do qual os médicos se aproveitam e tiram seu poder.
O organismo não é o corpo, o corpo sem órgãos, mas um estrato sobre o corpo sem órgãos, quer dizer um fenômeno de acumulação, de coagulação, de sedimentação que lhe impõe formas, funções, ligações, organizações dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair um trabalho útil.
Os estratos são liames, pinças.
“Atem-me se vocês quiserem”.
Nós não paramos de ser estratificados.
Mas o que é este nós, que não sou eu, posto que o sujeito não menos do que o organismo pertence a um estrato e dele depende?
Respondemos agora: é o corpo sem órgãos, é ele a realidade glacial sobre o qual vão se formar estes aluviões, sedimentações, coagulação, dobramentos e assentamentos que compõem um organismo — e uma significação e um sujeito.
É sobre ele que pesa e se exerce o juízo de Deus, é ele quem o sofre. E nele que os órgãos entram nessas relações de composição que se chamam organismo.
O CsO grita: fizeram-me um organismo! dobraram-me indevidamente! roubaram meu corpo!
O juízo de Deus arranca-o de sua imanência, e lhe constrói um organismo, uma significação, um sujeito. É ele o estratificado.
Assim, ele oscila entre dois pólos: de um lado, as superfícies de estratificação sobre as quais ele é rebaixado e submetido ao juízo, e, por outro lado, o plano de consistência no qual ele se desenrola e se abre à experimentação.
E se o CsO é um limite, se não se termina nunca de chegar a ele, é porque há sempre um estrato atrás de um outro estrato, um estrato engastado em outro estrato.
Porque são necessários muitos estratos e não somente o organismo para fazer o juízo de Deus.
Combate perpétuo e violento entre o plano de consistência, que libera o corpo sem órgãos, atravessa e desfaz todos os estratos, e as superfícies de estratificação que o bloqueiam ou rebaixam.
Consideremos os três grandes estratos relacionados a nós, quer dizer, aqueles que nos amarram mais diretamente: o organismo, a significância e a subjetivação.
A superfície de organismo, o ângulo de significância e de interpretação, o ponto de subjetivação ou de sujeição.
Você será organizado, você será um organismo, articulará seu corpo — senão você será um depravado.
Você será significante e significado, intérprete e interpretado — senão será desviante.
Você será sujeito e, como tal, fixado, sujeito de enunciação rebatido sobre um sujeito de enunciado — senão você será apenas um vagabundo.
Ao conjunto dos estratos, o corpo sem órgãos opõe a desarticulação (ou as n articulações) como propriedade do plano de consistência, a experimentação como operação sobre este plano (nada de significante, não interprete nunca!), o nomadismo como movimento (inclusive no mesmo lugar, ande, não pare de andar, viagem imóvel, dessubjetivação.)
O que quer dizer desarticular, parar de ser um organismo?
Como dizer a que ponto é isto simples, e que nós o fazemos todos os dias.
Com que prudência necessária, a arte das doses, e o perigo, a overdose.
Não se faz a coisa com pancadas de martelo, mas com uma lima muito fina.
É necessário guardar o suficiente do organismo para que ele se recomponha a cada aurora; pequenas provisões de significância e de interpretação, é também necessário conservar, inclusive para opô-las a seu próprio sistema, quando as circunstâncias o exigem, quando as coisas, as pessoas, inclusive as situações nos obrigam; e pequenas rações de subjetividade, é preciso conservar suficientemente para poder responder à realidade dominante.
…o CsO não pára de oscilar entre as superfícies que o estratificam e o plano que o libera.
O pior não é permanecer estratificado — organizado, significado, sujeitado — mas precipitar os estratos numa queda suicida ou demente, que os faz recair sobre nós, mais pesados do que nunca
…o corpo sem órgãos é tudo isto: necessariamente um Lugar, necessariamente um Plano, necessariamente um Coletivo (agenciando elementos, coisas, vegetais, animais, utensílios, homens, potências, fragmentos de tudo isto, porque não existe “meu” corpo sem órgãos, mas “eu” sobre ele, o que resta de mim, inalterável e cambiante de forma, transpondo limiares).
Não é mais um Eu que sente, age e se lembra, é “uma bruma brilhante, um vapor amarelo e sombrio” que tem afectos e experimenta movimentos, velocidades.
O corpo sem órgãos é bloco de infância, devir, o contrário da recordação de infância.
Ele não é criança “antes” do adulto, nem “mãe” “antes” da criança: ele é a estrita contemporaneidade do adulto, da criança e do adulto, seu mapa de densidades e intensidades comparadas, e todas as variações sobre este mapa.
O corpo sem órgãos é precisamente este germe intenso onde não há e não pode existir nem pais nem filhos (representação orgânica).
É o que Freud não compreendeu em Weissmann; a criança como contemporânea germinal dos pais.
Assim, o corpo sem órgãos nunca é o seu, o meu…
É sempre um corpo.
Ele não é mais projetivo do que regressivo.
É uma involução, mas uma involução criativa e sempre contemporânea.
Os órgãos se distribuem sobre o CsO; mas, justamente, eles se distribuem nele independentemente da forma do organismo; as formas tornam-se contingentes, os órgãos não são mais do que intensidades produzidas, fluxos, limiares e gradientes.
“Um” ventre, “um” olho, “uma” boca: Ao artigo indefinido nada falta, ele não é indeterminado ou indiferenciado, mas exprime a pura determinação de intensidade, a diferença intensiva.
O artigo indefinido é o condutor do desejo.
Não se trata absolutamente de um corpo despedaçado, esfacelado, ou de órgãos sem corpos (OsC).
O corpo sem órgãos é exatamente o contrário.
Não há órgãos despedaçados em relação a uma unidade perdida, nem retorno ao indiferenciado em relação a uma totalidade diferenciável.
Existe, isto sim, distribuição das razões intensivas de órgãos, com seus artigos positivos indefinidos, no interior de um coletivo ou de uma multiplicidade, num agenciamento e segundo conexões maquínicas operando sobre um corpo sem órgãos.
Logos spermaticos.
O erro da psicanálise é o de ter compreendido os fenômenos de corpos sem órgãos como regressões, projeções, fantasmas, em função de uma imagem do corpo.
Por isso, ela só percebia o avesso das coisas, substituía um mapa mundial de intensidades por fotos de família, recordações de infância e objetos parciais.
Ela nada compreendia acerca do ovo, nem dos artigos indefinidos, nem sobre a contemporaneidade de um meio que não pára de se fazer.
A prova do desejo: não denunciar os falsos desejos, mas, no desejo, distinguir o que remete à proliferação de estratos, ou bem à desestratificação demasiada violenta, e o que remete à construção do plano de consistência (vigiar inclusive em nós mesmos o fascista, e também o suicida e o demente.).
…”

Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mil Platôs Volume 3.

o Ovo Dogon
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