“Eu sou Flamengo”

FOTO: Campanha VISA

Sempre achei interessante a forma como as pessoas falam sobre futebol: “Eu sou Flamengo”, dizem crianças, jovens e adultos, com os mais diversos níveis de escolaridade. Está até na música.
 “Mas gramaticalmente não é correto”, há quem conteste, o certo seria “Eu torço para o flamengo”. E, confesso, até pouco tempo concordava com estes fiscais de linguística de plantão. Até que parei para pensar e, hoje, discordo.
 Dê-nos licença! Ou, melhor. Nós, os torcedores, já temos licença: licença poética. Somos permitidos pela pura poesia em movimento que é este esporte. Assim, o que alguns podem ver como erro, eu vejo como figura de linguagem. Um verso discreto em tamanho, mas não em significado.
 Porque, convenhamos, “torcer” é muito vago comparado a tudo que fazemos — e somos capazes de fazer — por nossos times do coração. Não é só isso. Nunca será.
Pra começar, a gente dedica a ele as coisas mais valiosas do século: tempo e dinheiro. Assite jogo, acompanha notícia, debate. Se associa, paga TV por assinatura, compra ingresso, camisa, boné, relógio, caderno e o que mais lançarem com o escudo. E isso não é nada. Muito maiores são as coisas que fazemos fora dessa materialidade.
 Somos apaixonados, e agimos como tal. Riso, choro, frio na barriga, arrepio, taquicardia, crise nervosa, tesão: tudo incluso nessa história. A gente fica com raiva e diz que desiste, mas na outra semana tá lá de novo, amando do mesmo jeito, ou ainda mais. E como quase todo amor, no ápice, nos casamos e viramos um só. Eu sou Vasco, e o Vasco sou eu.
 Meu time sou eu sim. Porque eu, e todos os outros que “torcem” por ele somos, muitas vezes, a razão pela qual ele existe e se mantém. Somos a voz alta que incentiva e canta, as palmas, o braço para o qual correm na comemoração, quem buscam agradar e fazer feliz a cada jogo. É a família de suor, e não de sangue. A quem dedicam o troféu e parte de suas vidas. 
É também o destinatário do pedido de desculpas encharcado em lágrimas de quem não conseguiu ganhar, e de onde tiram forças para secarem as mesmas e tentarem de novo. Mais uma vez.
 E se você só torce para um time, tudo bem. Mas eu, e mais um multidão, SOMOS o nosso time. E isto está longe de ser errado.

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