Valores: não os filosóficos

O que são valores? Não falo do conjunto de fundamentos éticos que se interagem entre os cidadãos de uma sociedade. Falo dos valores reais, de repente, falo até do Real. Valores seriam um indicativo de quantidade? Você vale o que você veste? Qual é o nosso valor? Somos valorizados? Por quem? Pra quem?

Na terça-feira passada, dia 24 de março, estava eu na parada de ônibus na av. Conde da Boa Vista, sozinho em meus pensamentos (que se rodeavam no dilema: Brejo ou Largo do Maracanã?), entretanto, cercado de pessoas que também estavam na mesma parada e, pelo horário — que já era tarde da noite, bem provável que seriam estudantes e trabalhadores. De repente, eu enxergo uma figura vindo em minha direção, mas antes, claro, passando, parando e falando com todas as pessoas.

Não sabia o que a figura (que até o momento não consegui identificar o sexo) estava falando. Contudo, como todas as pessoas que estavam ali e que eventualmente frequentam aquela parada, naquele horário, sabiam do que se tratava, eu também supus o que era e o que fazia: um pedinte pedindo esmola. E acertei em cheio.

Quanto vale R$ 5 para mim? Quanto vale R$ 5 para quem não tem nada ou muito pouco? Quanto vale R$ 5 para quem é milionário? Talvez a relatividade não seja algo exclusivo da Física. Enfim, essas foram algumas das perguntas que se passaram na minha cabeça depois que fui abordado pela tal figura, cujo sexo eu identifiquei, cuja idade eu suspeitei, mas sua condição física e socioeconômica estava óbvia (uma vez que a julguei pela sua roupa e pelo triste fato de estar “mendigando” numa avenida da cidade).

Chegamos ao ápice do fato. O momento no qual ele me aborda. E quem fui eu para aquele mendigo? Qual o meu valor diante de um excluído da sociedade? Eu não passei de mais um estudante egoísta “presenteando-o” com minhas poucas moedas, ou melhor, única moeda. Ou, talvez, eu tenha sido mais um estudante generoso, que com a única moeda que dei, ajudei na compra de algo de extrema necessidade para ele: um pão, um remédio, uma pedra de crack. Não façamos julgamentos! Ao menos tentemos não os fazer…

“Tem um trocadinho pra me ajudar? Eu tô precisando, por favor!”. Foi o apelo daquele homem — e modo no qual ele pediu, que me fez quase num gesto automático, de tirar a mochila das costas, abrir o bolso e procurar por moedas. “Moedas? Este homem precisa de cédulas! As poucas moedas que ele me mostrou em sua mão não compravam nem um pão… Eu tenho cédulas na minha carteira. Tenho sim uma nota de 5 reais, com certeza não me fará falta…” — pensei eu até o momento em que encontro uma única moeda de 5 centavos na minha bolsa.

Abrir ou não minha carteira diante de um mendigo, sobretudo um desconhecido, na parada de ônibus, por volta das 21h30 de uma terça, em plena “Boa Vista”? “Não abra, ele pode te furtar, assim como já aconteceu várias outras vezes, com várias outras “vítimas”, em várias outras paradas…” “Abra, ele realmente precisa! Talvez você mate sua fome por alguns poucos dias, talvez ele se cure com o remédio que comprará, talvez ele sacie o seu vício com uma ‘pedrinha’…” Os julgamentos e preconceitos pareciam não ter fim.

“Muito obrigado e que deus lhe abençoe…” — disse para mim com um olhar sincero de agradecimento, como se a moeda que eu dei fosse a minha última, como se eu partilhasse meu café com ele, como se a esperança de ter o que ele queria ter, tivesse renascido. E partiu para o próximo passageiro. Não foi desta vez! Transitei nas duas possibilidades, mas escolhi a moeda. Aquela única e triste moeda de 5 centavos. O meu preconceito venceu e não me orgulho disto!

Ah, se aquele mendigo soubesse dos conflitos que surgiram em minha mente, se ele soubesse das reflexões que ele me causou, se ele soubesse da compaixão que ele me trouxe, se ele soubesse do grande passo que dei diante do combate contra o meu preconceito, se ele soubesse disso, se ele soubesse daquilo… É muita “conjunção condicional” para quem não tem condições de escolher nada. E afinal, quanto me valeu este episódio? Quanto paguei por isso? Minha mísera e única moeda de 5 centavos? Talvez! Mas de “talvez” meu texto já está cheio. Preciso, ao menos, de uma certeza, e a certeza que fica é que os 5 reais, aquele 5 reais, já não me valem tanta coisa.

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