As construções de personagens em “O Despertar da Força” que eu mais gostei

Eu fiquei muito tempo pensando, refletindo sobre o que mais gostei no novo Star Wars. Embarquei forte no trem do hype, mas estava bem receoso quanto à qualidade do filme. Afinal, já tinha vivido aquele momento antes, quando da estreia da trilogia nova, na década de 90. Então, eu tinha medo. Ainda bem que eu estava errado. O filme é muito, mas muito, mas muito bom. Pro inferno com Mad Max. #polemica

Isso posto, tem algumas características das construções desses personagens novos que eu amei de paixão. E gostaria de conversar com vocês sobre isso, focando nos dois personagens principais da história, que creio serem os pilares dessa nova trilogia. Claro que são opiniões pessoais, e não refletem a verdade absoluta.

Ah, cuidado. SPOILERS SEM FREIOS NESTE TEXTO. Teje avisado.


O propósito de Rey

Créditos: Lucasfilm

Passado o êxtase do filme, começam as críticas, e surpreendentemente a maioria delas recai sobre a personagem de Daisy Ridley. Rey, segundo críticos, seria o recurso que chamamos de "Mary Sue" desse filme — um termo que vem dos fanzines de Star Trek, que simboliza quando um personagem é perfeito, forte demais de uma forma gratuita e sem contexto, e chega para desequilibrar a trama. Essa impressão se dá pela rápida adesão de Rey à Força, e a maneira como ela usa o sabre de luz na luta final.

Eu já acho o contrário. Nenhuma característica de poder da Rey neste filme vem gratuitamente. Lembremos que, desde o começo de Force Awakens, Rey é caracterizada como uma sobrevivente. Ela caça para conseguir comer algo naquele microondas intergaláctico. Troca o muito que descobre por pouco dinheiro ou comida. Está abandonada em Jakku há muito tempo. Aprende o básico de luta com o bastão para se defender. E só consegue sobreviver porque tem um propósito maior — descobrir e esperar pela sua família, um sentimento que ela mantém dentro de si e a mantém neste estado de sobrevivência a qualquer custo.

Note que isso é parte da construção da personagem, e não uma característica entregue ao nada. Quando acontece o ataque da Primeira Ordem a Jakku e Rey foge com Finn, ele tenta pegar na mão dela para guiá-la e ouve um sonoro "ME DEIXA"! Isso é importante não só para caracterizar uma personagem feminina forte, mas para mostrar também a construção da história dela: ela sabe o que está fazendo, já está nisso de viver sozinha há muito tempo e não precisa de ninguém para ajudá-la. É contexto puro e muito bem amarrado. Rey é uma personagem forte porque precisa sobreviver para realizar seu propósito.

Isso é levemente colocado em xeque quando ela descobre, no porão da "cantina" de Maz Kanata, o sabre de luz de Luke. Ali, ela tem uma epifania e algumas visões (ainda não sabemos bem se do passado, ou do futuro). E Maz diz a ela, ao introduzir o tema da Força:

“ …You already know the truth … Whoever you were waiting for on Jakku, they’re never coming back. But there’s someone who still can: Luke. ”

Se você pensar na primeira parte da frase, Rey teria perdido ali toda a vontade de sobreviver porque foi confrontada com a verdade, e seu propósito ruiu. Assim, ela viria a sucumbir perante Kylo Ren logo em seguida. Mas atentem que há um novo propósito nesse diálogo logo em seguida: encontrar Luke, essa pessoa que apareceu na mente dela e com a qual parece ter uma forte conexão. Se há algum elemento "parental" nisso, não sabemos ainda. Mas há uma nova interrogação que lhe perpetua curiosidade e mantém a vontade de sobreviver, para descobrir o que é aquela ligação tão forte.

Isso é melhor representado ainda na sequência posterior, quando Rey é aprisionada e torturada por Kylo Ren. Do ponto de vista de um sobrevivente, o que ainda restaria a fazer em uma situação onde você está amarrado e sucumbindo mentalmente? "Opa, tem esse negócio chamado Força que eu posso usar". E assim é a sobrevivência: usar qualquer recurso disponível para seguir em frente, mesmo que você não saiba usá-lo bem. É o que Rey faz. Mesmo sem saber, começa a usar a Força para superar Kylo Ren porque não quer morrer ali, naquela situação, sendo que ainda tem um propósito pela frente. É uma baita construção de personagem.

Meu único ponto contrário ao que vem se construindo com a Rey é que eu gostaria muito que ela não fosse uma Skywalker. Eu sei que isso pode ser inevitável, dado o andamento da história até aqui, mas eu preferiria muito mais que a relação Luke x Rey fosse algo mais paternal sem genética envolvida, que isso se desenvolvesse durante seu treinamento, que ela adotasse o nome em forma de respeito e continuação do legado — mas que isso não fosse uma necessidade parental. Rey é uma personagem muito bem construída e isso seria diminuído se fosse justificado apenas por ela ser filha de um Skywalker. Deixa ela ser uma jedi fodona sendo ela mesma!


O despreparo de Kylo Ren

Se você analisar sem muito critério, Adam Driver foi o pior ator deste filme. Seu Kylo Ren (ou Ben Solo, como preferir) parecia sem expressão, despreparado para trazer um vilão à altura de um filme com o título Star Wars. Mas há muito mais contexto nisso, ao meu ver.

Ao ouvir as críticas sobre a inexpressão de Adam Driver, eu imediatamente me lembrei do episódio em que o ator brasileiro Reynaldo Gianecchini foi escalado pelo diretor Gerald Thomas para viver o personagem principal de "O Príncipe de Copacabana", sua nova peça inspirada em Hamlet, que foi a cartaz em 2001. Thomas foi severamente criticado pela escolha de Gianecchini para o papel — um ator tido pela crítica como inexpressivo, em começo de carreira, e aquém do papel designado. Houve até acusações de corporativismo, já que Thomas era amigo de Marilia Gabriela, namorada de Giane à época. E eis que Thomas manda uma resposta sensacional aos críticos de sua escolha:

“Preciso de um ator despreparado para mostrar uma pessoa despreparada no mundo de hoje.”

Eu associo essa escolha completamente ao cenário de Adam Driver em Force Awakens. Claro que, comparando as épocas, Driver é melhor ator hoje do que era Giane em 2001. Mas o ingrediente para focarmos aqui é o despreparo que Driver traz ao personagem, de forma bem proposital. Kylo Ren é um vilão em formação. Bem diferente de Darth Vader, que chegou pronto e fodão para mostrar a que veio. Isso é positivo. Não é preciso repetir a fórmula do vilão Sith mega poderoso. Já são tantas as rimas de roteiro deste novo filme com o Episódio IV, que mais uma tão clara não passaria fácil pela gente.

Notem que esse despreparo é ilustrado de forma genial em um único gesto de Kylo Ren: quando ele retira a máscara. Ali, ele deixa de ser o Sith foderoso que para blasters com a Força, e vira Ben Solo, um cara em conflito, que ainda não sabe bem como preencher seu propósito — que nem pra nós ainda é bem claro. Ele pretende ser um Sith por completo, ou ainda convive com a dúvida? E é importante que nós também tenhamos essa dúvida com o personagem. Esse despreparo é mais uma característica do personagem do que falta de qualidade do ator — pelo menos eu quero acreditar nisso.

Esse despreparo é fundamental para nos conduzir para a cena mais chocante do filme: a morte de Han Solo. Até aquele momento você não acredita que isso vai acontecer, mesmo que o cenário seja o clichê que te deixa atento. "Oras, como é que esse rascunho de Sith vai ter coragem pra matar o Han Solo, o cara que ganha tudo na lábia"? Justamente. "Tem algo me impedindo de seguir em frente, pai, e é você". Ali, você entende que o despreparo começa a sumir e Kylo Ren entra de cabeça no lado negro da Força, tirando da frente todas as barreiras. Inclusive algumas das mais fortes delas, como o pai. Não vem do nada. É um elemento importante para mostrar como Kylo Ren vai se desenvolvendo até virar um Sith completo nos próximos filmes. E também me deixou bem mais confortável para aceitar a morte de Solo. A cena foi muito bem feita e bonita, e teve contexto. Essa foi a primeira vez que o Han Solo perdeu na lábia. E para o filho.

Bom, agora é ver o que acontece com Kylo Ren nos próximos filmes. Ele abraçará o lado negro de vez? A morte do pai trará ainda mais conflito à sua mente? Como será o antagonismo dele com a Rey? A que nível do lado negro da Força ele ainda pode chegar, depois da finalização do treinamento?

Não sei vocês, mas eu já estou contando os dias para 2017.


"Mas Anderson, e o BB-8"?

Esse é hours-concours. Não conta. Mas se quiser, manda pra minha casa um bonequinho dele. BB-8 S2.