Sobre o Coringa do Jared Leto e a essência de personagens

Sim, eu fui ver Esquadrão Suicida. É um filme bem esquecível, nada demais. Uma sessão da tarde mal feita, que mostra uma DC Films/Warner tentando outros tons de cinza, mas derrapando na execução. De qualquer forma, este texto é pra falar de um personagem que nem precisava estar na história, mas está, e precisa ser debatido. O Coringa.

A interpretação de Jared Leto me incomodou profundamente. Mesmo que ele tenha tido poucos minutos no filme, eu não achei aquilo nada parecido com o Coringa que aprendi a gostar e acompanhar há anos nos quadrinhos, nos desenhos e nos filmes. Me questionei, inclusive, se não estava tendo uma reação exarcebada, afinal, vi tantos cosplayers desse Coringa por aí, então alguma coisa ele deve ter de bom.

Mas aí eu me lembrei porque eu me considero nerd. Porque eu sou chato. Aliás, nerd e chato é quase um pleonasmo na mesma frase. Nerds serão sempre chatos. Eles gostam, doam tempo, acompanham personagens e histórias. Sempre podem discutir e reclamar se algo não agrada dentro do que eles adotaram para acompanhar. Então, eu me julgo no direito de falar do que não gostei nesse Coringa.

Bom, eu vou primeiro falar de algo que muita gente coloca de lado: a essência de um personagem. Muita gente esquece disso. O que não é um problema. Mas acompanhe meu raciocínio: O personagem é mais do que o exterior ou o básico dos básicos, porque os personagens são pessoas, e pessoas são complexas. Não falo só de personalidade, mas, sim, de essência. Não adianta você ter todo o “Ah, ele é assim e assado em tal situação, medo disso e aquilo, usa a moral em tudo e blábláblá”. Tem que deixar claro que, como todo humano, ele muda de opinião sobre coisas grandes e coisas básicas. Ele cresce, ele aprende, ele evolui, se arrepende, muda. E muito por isso vemos interpretações diversas de personagens que amamos por aí. Essa liberdade existe, e é plenamente aplicável.

Mas a essência, quando você não tem um rumo pra onde levar sua nova interpretação, pode te resgatar e dar um caminho certeiro para que você conte bem a sua história. E pra mim, é onde falha o Coringa do Jared Leto: uma reinterpretação de um personagem que não traz um olhar ou uma evolução. E some-se a isso a falta de essência do Coringa que conhecemos.

Mas que essência é essa do Coringa, afinal?

O Coringa, por exemplo, em sua essência, é o palhaço do crime. Por mais psicótico ou louco que ele possa parecer em variações diversas ao longo dos anos, ele nos conquistou como personagem mesmo sendo um dos vilões mais temidos dos quadrinhos justamente por essa característica. O Coringa acha a piada e a graça no meio do caos, porque é assim que ele enxerga o mundo. A risada no meio da tragédia.

Das páginas de “Batman: Whatever Happened to the Caped Crusader?”, de Neil Gaiman.

E quando versões do Coringa não dão certo ou não simpatizam de cara com o público, pode contar: o equilíbrio entre o humor e a tragédia no personagem não foi alcançado. Pra mim, esse foi o problema com o Joker do Jared Leto. Um personagem psicopata e perturbado, mas que não divide com você em momento nenhum onde ele está enxergando a graça nisso. Aliás: se você fizer um exercício e tirar a maquiagem deste Coringa, ele é apenas mais um vilão psicopata. E o Coringa é tudo, menos apenas mais um vilão psicopata. Ele é o Palhaço do Crime. É algo muito mais complexo.

das páginas de “Arkham Asylum” de Grant Morrison

Resgato aqui a graphic novel Arkham Asylum de Grant Morrison. Na história , ele sugere que o estado mental do Coringa é de fato uma “super-sanidade” sem precedentes, uma forma de percepção ultra-sensitiva. E que ele não tem uma personalidade própria — em um dia ele pode ser um palhaço inofensivo e no outro, um assassino perigosíssimo, dependendo do que o beneficiaria mais. E alguém assim é completamente imprevisível. A ponto de você jamais esperar que ele desse uma “dedada” no Batman no meio de um diálogo tão tenso. É um dos melhores momentos da HQ, e merece ser relembrado.

Do filme The Dark Knight

Outra versão que traz esse equilíbrio em níveis mais agudos e é um dos marcos de interpretação do personagem: o Coringa do Heath Ledger, retratado no filme The Dark Knight. É um dos Coringas mais imprevisíveis e temidos que a gente já viu, inserido num mundo sombrio e realista que te deixa realmente incomodado com a possibilidade de um personagem desses realmente existir. Mas fala a verdade: como não achar graça do “truque de mágica”? Das três origens diferentes que ele conta pra cada uma das pessoas que ele encontra no filme? Do uniforme de enfermeira no hospital? É de um carisma inigualável. E nos deixa, como espectadores, até incomodados de certa forma: por que eu estou simpatizando com um psicopata assassino como este? A interpretação de Ledger entrou para a história por trazer, dentro da proposta realista de Christopher Nolan, um personagem completamente imerso no caos e na psicopatia, mas que nos faz rir de suas atitudes — mesmo que seja aquele riso meio nervoso, sentindo vergonha, que logo dá lugar ao susto de seu próximo ato doentio. Uma obra-prima.

Jared Leto no filme "Esquadrão Suicida"

E agora, vamos ao Jared Leto. Sua versão do Coringa é formada por várias épocas do personagem. O roteiro traz muitos momentos icônicos dele, principalmente em suas vestimentas. Visualmente, é bem mais próximo do Coringa atual dos quadrinhos, a fase Scott Snyder/Greg Capullo (nos Novos 52). O cabelo meio moicano, os olhos mais fixados, o visual gângster. A parte tatuada pode ter vindo dos quadrinhos de All Star Batman & Robin de Frank Miller e Jim Lee. A concepção visual pode ter sido tão diferente da essência justamente pra diferenciar o personagem das demais encarnações cinematográficas — o que não é um problema, já que Heath Ledger também usou disso em The Dark Knight, com seu emblemático sorriso talhado à faca.

E o que mais incomoda é que você não enxerga pelos olhos dele onde está a graça nisso tudo. Um personagem em essência psicopata e perturbado, mas que não divide com você em momento nenhum onde ele está enxergando a graça nisso. Aliás: se você fizer um exercício e tirar a maquiagem deste Coringa, ele é apenas mais um vilão psicopata. E o Coringa é tudo, menos apenas mais um vilão psicopata. Ele é o Palhaço do Crime.

E o engraçado (há) é que, no começo da produção do filme, parecia que veríamos uma interpretação única. Lembram dos teasers? Do Leto postando foto inspirada na clássica história A Piada Mortal? Tudo levava a crer que seria uma versão ótima, uma nova visão do personagem, atualizada para os novos tempos. Atualizada, ela foi — mas se esqueceu de muita coisa no meio do caminho.

É o tal negócio. Esses personagens dos quadrinhos não nos encantam há anos à toa. São histórias e personagens altamente cativantes. Suas essências permanecem no imaginário popular e na cultura pop. Se você vai brincar com esses assets, é bom trazer algo bem diferente e de qualidade para a mesa. Não foi o caso da DC e de Esquadrão Suicida. Cortes e problemas na produção à parte, o que foi entregue é um rascunho de um personagem que poderia ser muito mais — como o próprio trailer prometia.

Fica para a próxima.