O medo de existir /

A procura de Amélie

Estou perdido em minha alma.
 Cafeteria. Sento e espero a Laris. Ela surge. Senta numa cadeira ao meu lado.
 As quatro ou mais bolhas em meu café se uniam fazendo aparecer um bicho que emergia. Que aparecia aos poucos em minha mente. Era uma barata afogada. O café estava frio e doce. Baloucei o copo e a superfície do líquido ficou uniforme. Era repugnante bebê-lo. Um café frio. Eu ouvia a Larissa. Quando ela falava comigo sua voz parecia realmente gemer, “era a vida”, eu pensava. 
 Algumas de minhas relações são muito bostas, ela disse. Naquele dia havia perdido a auto-estima, tudo o que ela disse sobre os homens apareciam como uma acusação contra mim. 
 A situação com suas palavras acumularam-se dentro de mim. Ela disse que queria pães de queijo. Eu pedi dois pães de queijo e uma atendente os pôs sobre a mesa em três minutos. Ela comia um e então eu também comecei a comer o outro. Eu sentia que fazia alguma coisa errado. Dentro de minha alma havia algo assim. Preocupava-me se o que ela esperava dos homens era uma postura machista. Sou do tipo absorto, eu não foco em cavalheirismos. Falávamos sobre pessoas, músicas, estávamos à vontade. Eu falei que não gostava do Beethoven. Ela disse “eu gosto” bem ríspida. Levantou e disse que esqueceu algo. Tinha a vontade de ir embora. Eu disse “a gente divide a conta”, ela respondeu “eu pago, eu tenho dinheiro aqui”. Estava aflita e não ouvia mais o que eu falava. Havia uns zunidos em seus ouvidos. Uma perturbação que me atordoou a noite toda, até que dormi. 
 Naquela noite chovia para beneficiar as flores e alguns sujeitos bateram a porta e andavam vagarosamente. Não desconfio que a tivessem arrombado; alguns minutos que o antecediam me ocorreu que fosse um gato, um felino preto que todas as noites entrava pela janela para devorar minhas comidas sobre a mesa, por isso não dei muita atenção. Lembrava que já não havia ninguém mais em casa. Minha mãe havia saído pouco depois do pôr do sol, eu a olhei, ela andava na rua com a mão esquerda sobre o peito. Eu a observei até que cruzasse a esquina. Retornei para dentro. Eu estava cansado, minha alma por dentro estava cansada e me deitei envergonhado pelas altercações de que os livros me consolam. Quando estamos nesses estados, abatidos, não realizamos qualquer tarefa mas sabemos que é inútil permanecer inerte. Dentro de mim já há músicas que não devem mais ser tocadas. “Sinto medo de dormir e acordar com a psiquê irregular e já disposto a cortar meu pênis e meus dedos com uma faca” escrevi num caderno da escrivaninha um pouco antes de deitar. Eu adormeci. Sentia a circulação viva de algo pela casa. Despertei. Abri a janela do quarto com violência e saltei por ela rasgando o solo, quebrei louças, e corri arremessado em todo o quintal ingrime abaixo e encontrei o córrego, um canal de águas sujas. Em meu interior somente tocam músicas de crise. Senti, lá de baixo, que os sujeitos se remexiam pela casa. Que desceriam até que me buscassem. O cenário é único, estou sendo perseguido após um sonho: um quarto preto e branco, uma mulher de topless estava com o pescoço desconhecidamente acima do teto, esticado para além da percepção, de modo que não se podia ver sua cabeça. Eu acordei após os gritos dela no cenário preto e branco do quarto sendo suspensa por um homem de gravatas, e a face desse sujeito desfigurava e sorria para mim deixando extrair algo dos olhos, um verme corria de um olho e pretendia ao nariz. Era um verme vermelho e muito fino. Dentro de minha mente uma voz: “Você pode correr agora para provar que tua fúria te deixa mais forte. Arremesse contra as pessoas as cadeiras, todas as disponíveis”. Eu acordei. Os homens estavam lá, entrando pela casa, substituindo gato. 
 Arrependi-me nos últimos dias do que disse para a Larissa sobre Beethoven, de que não o gostava. A verdade é que havia três anos que o ouvira pela última vez e já não fazia esforços em lembrar. O peso da sonata Moonligth teria me invadido quando parei à beira do córrego para observar uma entrada franca, suave para minha existência. As folhas de árvores mexiam e a Lua estava sobre o córrego, obscurecida por nuvens. Eu o entro. Uma imundície penetra por minha boca mesmo que tente impedir. O que basta aqui é que eu fique em submerso, permitindo que minha cabeça fique fora das águas, mas ainda assim escorregam-se lodos pela minha boca, de onde sairão longos arrotos. Aguardo que os homens desçam, que apareçam. Permaneci parado por cinco minutos. Minha cabeça emergia mas estaria escondida por todo aquele lodo, latas, pneus, e um imenso verdejante de plantas que não aprovariam viverem ali se tivessem a consciência.
 Se ficasse apenas cinco minutos naquelas águas já seria o bastante, mas o choque dentro de mim não parava, sentia-me ainda trêmulo em todo o meu corpo. Julgo que havia se passado vinte minutos quando me movi consideravelmente para tentar algo além de evitar o afogamento. Durante este período a lama se colocava sobre meus dedos e estava com a sensação de que afogava. 
 (Se temos como referência para o tempo o movimento dos objetos): Nos relógios cada ponteiro se mexe em ordenadas programadas para mover outro ponteiro. Quando encontramos um relógio digital não é assim: há os que escondem a passagem dos segundos, mostrando os minutos e horas. A ausência dos segundos nos entregam a desconfiança dos valores dos minutos. Naquela água não havia nada como referente do tempo, exceto a lua. Não conheço a velocidade imagética da lua. As folhas das árvores mexiam, também os galhos, nos chãos existiam coisas moventes. Eu estava iluminado pela lua e escondido pelos matos e camadas de lodos. Nenhum sujeito nas margens me veria. Eu me via ali suspeito e não me mexi durante muito tempo, eu suspeitava de homens invisíveis para mim. Não os via. Viam-me eles em todo o tempo, entre os movimentos das árvores e de minha paralisia? No meu universo os homens são invisíveis e atravessam as paredes das casas deixando todas as portas fechadas. São fantasmas de assombros dentro de mim. Eles se movem sobre todas as superfícies da vida.
 Caminhei pelo rio até sair dele. Andei agachado por alguns metros e depois considerei ficar em pé. Passei minhas mãos pelo tronco de uma árvore e deitei por ali.
 (Sonho no matagal) Um homem paralisado na cama tinha sua pele apodrecendo. Via de longe as formas de sua pele viva morrer e os olhares telúricos dele enviados por canais amarelos, vistos somente em minha percepção. Olhares telúricos para mim são os que gravitacionam o ambiente, causando um tremor. Por isso abri os olhos. O mundo estava sombrio e o Sol estava acima da chuva. Eu estava observando o outro lado do canal, pacífico, como se o mundo tivesse renascido para um novo momento de vidas, de crimes, de mágoas. Ascendi a uma outra personalidade, acreditava nisso, eu pareceria desdenhoso à Laris se nos encontrássemos novamente. Estou fugindo dos gatos, dos homens invisíveis, quando a chuva parar não suportarei meu cheiro. Beethoven ressurgiu para mim como uma crise, alguma coisa desnecessária dentro em meu interior, agora ele era um transporte e eu estava paralisado. Não sabia mais se deveria temer os homens invisíveis. Eu fugia de mais um encontro “de bosta” em que um único homem é anestesiado pela categorização de todos os outros. Nos últimos dias eu não sabia o que fazer, eu estava submetido e sonhei desesperado no matagal sem nenhum humano categorizante. “Eu gosto disso” é uma categoria, “eu me transporto por isso” é uma existência. Esta crise apresentava novidades para minha posterior juventude. Meus amores são complexos, suas confissões são reais desastres dentro de mim. Admiro borboletas coloridas como feixes de raios caídos do céu, borboletas num escuro quarto, dentro da minha mente: nela gira um movimento de memórias que rodopia a Larissa no interior de sua casa.
 Visão de duzentos metros: uma mulher abre uma porta e me observa. Ela está parada. Deitei sobre o chão na tentativa de me esconder. Sinto medo dos raios de seus olhares que denunciariam aos homens de minha consciência a minha falta no mundo dinâmico, no mundo das conspirações perversas. Eu estou fugindo.
 Dois minutos. Levantei a cabeça e a Ana Laritta havia se aproximado. O Sol estava abaixo das nuvens. Ana grita do outro lado “você está louco”, “eu estou é fedendo” eu gritei. Ela sorriu e disse “o seus dedos?” e sorriu novamente. Eu sorri e disse “estão comigo, eu não os cortei”. Levantei as duas mãos para ela. A luz do Sol refletia muito forte em seu rosto agora. “Eu vou derreter”, ela disse. “Eu te amo”, eu gritei. Então a luz de seu rosto ficou muito forte e aí eu acordei. As nuvens já haviam deixado de esconder o Sol e aquela mulher que abriu a porta naquele momento caminhava no quintal que já estava colorido com muitas toalhas. Não tenho senso de quanto tempo tinha se passado, ainda assim observava a mulher, uma jovem. Sei bem quem era ela, aquela era a Laris. Cadernos nas mãos, julgo. Talvez fosse dela que fugia esta noite, quando ela era invisível. Neste instante eu a vejo. Encontrei a Ana, mas ela evaporou, na verdade, no momento de uma confissão. Pude ver um lápis na mão da Laris. Uma borboleta colorida e grande passou a minha frente, suportando meu cheiro e continuando o voo.