O delírio do Andred

Os homens estão escrevendo acerca das coisas tristes. Lembrei do jovem que não é camponês e que não obedece aos poetas. Imaginei também a singelidade da queda de um helicóptero diante de minha celebridade de ordem para que caísse. A queda singela fica então sublime. As dissimulações dos gestos, aqueles que me fazem sofrer, que por causa deles fui sublime na ordem que parte de minha ira, estas dissimulações perfurou meu coração em busca de maldade. Agora tenho maldade. A garota que me recuso os sentimentos elabora em seu coração uma paixão. Fica crente que cuidará do vício do que abraça; ela não o quer. E minha verificação de longe, ao perceber ali o labor das imagens: eles querem que lhes perguntem sempre: “vocês amam ou não?”, esta imagem tem em labor, porque exageram nos gestos para parecerem isto, e ela tortura seu coração ao tentar a educação de longe, esta educação que se faz nos gestos que recuso, tenho nisto repúdio. Seu desejo, que cause então sensação de ensejo raro, este desejo se fixa em ser heroína. Tenho que avisar-lhe que ela não o será; será a sofredora, aniquilada porque forçou-se a amar. Mas os poetas dirão: “amor é sacrifício”, coitada literária! A emoção dos homens pelos emblemas cruéis, a sensação de sentir-se querido e suas crenças acerca da justiça feita, o que não requer tempo, quando podem faze-la no instante, jugando-se forte e hábil, os homens que ficam débeis de tanto que se dizem sóbrios e os abraços de educação, querendo-me ensinar à distância, isto não ensina-me a coragem senão a covardia dentre os peitos destes, porque são já tímidos e danificam com suas articulações danosas enquanto sentem-se bem. Isto que chamam de amor ou conquista não se fará de longe, porque cada corpo tem sua moral e é como que por território disputado. O preâmbulo de minha pequena situação e a confusão de meu interior foi revelado; esclareço a cena: Observei adiante os casais. E casais de amigos, e amantes e namorados. Vi a querida que engana seu coração e sua face: ela ri de forma falsamente e lhe será humilhante quando os que sabem de seu opróbrio dos gestos lhe contarem que isto não cabe. A pouparei; poupo-a porque é cruel e elabora em si a bondade: ela diz com suas falsas amizades, diz em seu coração: “ele me ver como acaricio este, ele verá que sou carinhosa e saberá de meu corpo”, vendo isto penso-a como a covarde que humilha; ela humilha porque acredita que o sujeito lhe será por rocha. As vulgaridades que saem de sua boca, e da boca então da que me quer, mas é que me quer educar para abraça-la, o que sai da boca dela é dissimulação, uma falsa adaptação ao indivíduo e em nada me atrai, e ele é tão somente feio em gestos, mas a agrada, porque sua sabedoria é inocente. 
 No momento mesmo em que a aeronave caiu eu havia dito “por causa de minha ira há de explodir aquela aeronave”. A máquina voadora caiu e se fez em fogo. Foi para além dos muros do local. E o povo ao redor, todos os homens ainda atônitos, ali professores e alunos, ficaram de pé os que estavam sentados e se tremeram os que estavam de pé. Poderia ser mesmo desta forma: eu ordenaria e cairia, para temor de todos, os objetos dos céus. Mas lembro e torno real: disse há antigos tempos que — e isto é verdade dos antigos ainda fixos em nós — que o que veio do pó ao pó tornaria, algo mesmo assim. Daí que a aeronave haveria de descer. O que consterna-me, pois parece, é que o natural se perdeu dentre as pronúncias: a pronuncia não é o pronunciado. E o pronunciado é cultura devido a pronuncia “natureza”, por exemplo. A ordem destas velhinhas da direita, destas velhas que nos observam, pode parecer irreal, pode se ver mesquinho, mas suas observações, suas loucuras há de parar tudo, que nada pudesse acontecer, a loucura para acalmar meu delírio, nave nenhuma cai, deus nenhum retorna, mas é tudo confusão, quando o significado é criado para ordens de ciúmes, de abraços, de tragédias e justiças sem nunca sabermos quem nos dominam, mas estamos aqui, estamos com medo de toda queda, visto que não podemos cair mais, eu deliro, sou eu caindo, morrendo. Ela retorna a ele, não me olha, estou ali, naquela nave, naquela morte, fui junto, estava, junto a toda ferragem. Junto a todo pó. A imaginação me esvaia em queda, os derreteu ainda vivos, ela estava dissolvida. Todos com o medo.