JUlliane, transporte.

Qual é a grande proposta que alguém tem ou o que possa me dar para que eu não viva estes laços confusos? Vivo dentro de mim meus estados e meus espíritos e não ouvi até agora uma proposta que me ordene. Existem pessoas muito pequenas a minha volta, cuja existência move-se apenas como uma mecânica política, seus sarcasmos inúteis se reverberam quando tomam as semelhanças de uma força, um desejo revolucionário de ser glorificado por todos os escravos, uma glória desprezível e magoada. O silêncio alheio é abominável, mas eu posso viver no movimento da escuridão. A minha existência pode permanecer para aquém de um suicídio e poderia viver com qualquer dor até ao momento que me restar. Mas um problema em meu coração é a resistência pelas múltiplas faces: quando meus pensamentos não permanecem apenas numa pessoa, mas sou carregado por memórias e pela vida de alguéns que realmente amo. Neste instante marco territórios para tornar esquecidas algumas personagens e uma espécie de felicidade me invade como que produzindo um aviso, uma satisfação. Este é um ponto de alegria.

Estou fugindo de amores assombrosos que lutam para permanecerem com imagens que não se apagam e é bem porque estou fugindo que vejo em Julliane um encontro, porque ela quis ser freira, uma espécie de consolo efetivo jamais consolável, a expressão humana em uma dívida divina e impagável. Uma história que não lembramos ter participado. Mas a Julliane o lembra, é o que parece.

Simplesmente não tenho forças dentro de mim pra prosseguir com tudo o que eu quero. Costumo julgar nas demais pessoas a incapacidade de amarem ou desejarem o bem quanto a mim mesmo, que todos eles podem cair num risco corruptusioso, decadentes e também oportunistas. Nenhum amor ali é realmente o que prometem, eles falam conforme os sonhos e estão todos enganados. Neste momento percebo que o que escrevo é uma ficção, uma evazão da minha carne. Mas posso continuar.

Exatamente por Julliane ser cética e ter observações críticas é difícil falar sobre ela. Tenho uma sensação que ela me olhava de cima para baixo. E meu temor é disto até hoje. A sua fé está muito mais em acreditar no inferno dos outros do que em seu próprio céu: observa de dentro de seu corpo a incoerência de todos à sua volta, amigos, amigas, vendo-os de fora e como são contraditórios. Ela andava com maneiras muito charmosas numas ruas do centro de Arraial e eu me sentia arrastado por ela, com o desejo que me chamasse até acompanhá-la.

Eu preciso me livrar das dores desnecessárias vindas de pessoas realmente desnecessárias e há alguns anos eu não saberia que me perceberia olhando para alguns indivíduos desta forma, como realmente inúteis e monstros egoístas. Se escrevo sobre Julliane e me proponho a isto é o bastante também para eu efetivar um meio pra existir. E também porque fazê-lo é a tentativa de tê-la através de mim.

Sinto as mágoas dos concretos diários e vou ao meu quintal e abraço uma jaqueira. Fico pensando nas pessoas que se comportam como se fugissem e ainda proclamam palavras de amor, com uma incoerência cheia de ódios que nem elas mesmas percebem, como se para amá-las teríamos que agir de maneira maníaca, perseguindo-as. Mas eu não o faço e fico só. É verdade que eu fracasso agora, como já fracassei para outras pessoas, com a tentativa de escrever sobre Julliane, mas isto apenas ocorre porque ela é um pretexto, e qualquer coisa e qualquer pessoa o são também, exatamente porque o que tentamos é muito mais exprimir. Estou tentando exprimir a Julliane que há dentro de mim, uma Julliane que existe em meu interior e somente lá, e me parece que toda essa expressão é muito mais possível em meu silêncio diante do sol ou das multidões de mundos da Via Láctea, de todas as estrelas que aparecem a noite, pela distância que estou da superfície de um planeta que observo enquanto ele brilha. Há espécies de desejos e eles me calam: todas as vozes estão em torno de mim vibrando a minha existência, impedindo que toda verdade seja verdade. Mas estas expressões podem ser a pura expressão do que me permitiria pensar quando o meio para isto é a Julliane ou a sua essência em pensamento. Muito diferente de outros rapazes e outras moças.