Lanternas

Estou deitado no deserto, é deserto porque é principalmente mortal. A guerra já se iniciou. Cinco garotinhos, eu os vejo de uma distância considerável, um ângulo provável. Um deles sorri em meus olhos. “Vou matá-los”, pensei. Levantei-me do chão que tornava-me invisível e corri. Eles atiravam. Continuei correndo em suas direções. Sinto que viram-me com o canivete, sentiam que seria fácil matar-me. Despreocupados, frios. O calor e a febre são intensos. Memórias ruivas ou fios pretos. Uma mulher que desafia o sentimento de um deus em minha mente, um deus interpretado por humanos, analisado e julgado por homens masculinos. Os garotinhos, têm cada um a minha idade. Ou mais ou menos. Sou um monstro corajoso e honesto. Em dez segundos dei a volta até suas costas portando um canivete e enquanto se viravam eu os matava com perfurações nos pescoços juvenis. O sorriso grave foi substituído por gemidos finos. “Estão morrendo”, pensei. Era fácil para eles, seria fácil para mim. Sentia que a necessidade de viver consistia necessariamente em encontrar as coisas perdidas na noite anterior. Salvar-me, resgatar-me contra toda a febre. Guiar-me até ela. Uma mulher, levantar-me do sono, do fim da noite que se repete. Admirei sobre o chão os garotos sonoros, silenciando. Corri continuamente para uma tenda. Não conseguia deduzir a fome e o cansaço. A sede era meu desafio. Deitei-me a cem metros ou mais dos mortos, sobre um tapete num chão gélido, na tenda abafada. Não sinto medo que entrem e me perfurem com armas, com unhas, que quebrem minhas costelas com chutes. Minha vida está abafada, não; o que permanece então abafada é a tenda; o meu sangue, os meus sonhos em meus desesperos frios e várias vezes perfurados. Levantei-me em busca de água, procurei líquidos transparentes, mijei numa das varas sob as lonas. Encontrei água numa jarra, sobre uma mala preta. Temperatura ambiente. Bebi a pequenos goles, fosse o que fosse. A honra está abaixo da vida, pensei, é o subterrâneo de um encontro. Voltei para o tapete e deitei. “ A verdade é que o que desejo é viver”, estou numa forma dolorosa de vida. A morte e o calor excitam-me. O amor, a esperança, a ilusão. Levantei e trouxe a água para o tapete. Deitei. Joguei o líquido sobre minha calça, minha virilha, meu pênis. Estou excitado, estou apaixonado pelo calor. Dormi e sonhei. Um universo de estrelas, um universo que seu amplia, que aproxima-se até o invisível, até o impossível. Estou sobre uma ponte, uma garota ruiva acena para mim. É horrível reduzi-la à cor que vejo em seu cabelo. Sinto-me covarde. A conheço bem, Vitória, seu nome. Inesquecível para mim. Ela desafia o vento, a neblina, se volta a um outro horizonte, seu indicador aponta para a superfície infinita de um rio. O som das correntezas entra em minha mente. Vira-se e se deixa cair de costas. “Não vai! Vitória, não vai!”. Corri para o parapeito. Era da altura de meus joelhos. Ela boiava, flutuava, sorridente, e acenava docilmente para mim. Não posso saltar, o rio é i n f i n i t o . Eu senti o doce de seu ser e o aroma de seus seios na neblina sobre a ponte. E na verdade senti o cheiro de eucaliptos. Eu gritei sobre a umidade. Ela sorria levada pelas correntezas. Eu sentia saudades das imitações dos mundos possíveis que, tendo o céu noturno como um transportador, nos incitava principalmente através de frágeis lanternas; os olhos eram a antecedência das lunetas dos sonhos. Eu estou sonhando, esvaindo em cabelos cujas cores se modificam. Ora ruivos, ora empretecidos. Mas era ela, definitivamente. Corri para uma pequena cabana entre as árvores, dei-me com o Gustavo. Há anos que morrera, pensei, mas ainda está aqui. Estava maior, seu rosto, suas pernas e braços cresceram. Ainda que sentado numa cadeira baixa, uma cadeira para infantis, podia olhar-me de cima, seus olhos e seus cabelos loiros mais altos que minha cabeça. “Pegue o cachimbo para mim” ele disse. Sua voz tinha um movimento lento. Peguei um cachimbo diante de um ventilador aleatoriamente pintado entre borrões amarelos e vermelhos. Entreguei-lhe o objeto. “Você está apaixonado, não está? É por isso que você sonha tudo isso”, disse-me e piscou os olhos. “Não, trata-se apenas de uma correnteza dentro de mim”, eu falei, “de uma água infinita, uma garota infinita, talvez; você não vai compreender, você não está aqui”. Acordei. Silêncio e calor. Estou vivo, não há soldados mortos nem perfurados, apenas sonhos e conspirações, apenas perdas nas noites.

Levanto-me com o sabor do sol sobre meu rosto, atravessando os galhos de uma jambeira. Na sala, dormia Vitótia, ou alguém que não recordo, visto que sonhei com ela, e ela estava ali e em muitas partes, não recordava-me de tê-la deixado dormir ali, não lembrava-me da noite anterior, alguém esbofetou-me, alguém esmurrou-me. “Eu a amo”. Fui ao mercado e retornei. 5 minutos. 10 minutos. Li num jornal, em que se conta as vidas em números, impossíveis seriam suas páginas para a morte, li neste jornal, neste tabuleiro de bajulações, a notícia é uma propaganda, óbvio, li uma certa decadência de moral das crianças em miséria. Era certo que eles pretendiam acusá-las, difamar os jovens que certamente não os leria, eu pensei. Acusa quem os ignora. Eles querem um pretexto para não denunciarem os seus patrocinadores e com isso entregam diariamente notícias doces e agradáveis. Receitas de bolos, “viva melhor”, “coma bem”, “você é o que come” e um conjunto de personalidades que agregam o sujeito livre a uma qualidade de gestos óbvios. “Você pode ser isso se desejar, você pode ser outra coisa!”. Joguei uma cortina fina sobre a garota e preparei meu café.

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