Bóra Brincar?

Brincar me remete as crianças, e crianças, ahhhhhhhh as crianças: grandes mestres, diriam os palhaços. A sua originalidade, criatividade, espontaneidade e tantas outras valorosas qualidades (que infelizmente vamos perdendo com o passar das fases) são vitais para nossa existência … E uma delas é o brincar!

Acredito, no meu caso, que um dos fatores que me levam à depressão no dia a dia é a ausência do brincar, pelo hábito que tenho de levar a vida tão a sério.

É gostoso demais brincar e sentir aquela sensação de libertação. Sinceramente não sei por que os adultos perdem a rotina de brincar. A impressão que tenho é que no mundo dos adultos só é permitido brincar quando se está acompanhado de uma criança.

Imagina você brincar em todas as situações da vida? Não dá né?

Mas será que é possível encaixarmos em nossa agenda a tarefa de brincar, pelo menos durante 1 hora por dia?

Pensa que gostoso seria deitarmos e rolarmos em gostosas travessuras?

O primeiro “bobo” que conheci, ou melhor, o ser que conservou o seu lado criança dentro de si, foi o meu avô materno: o velho Pedrão.

E que sempre me remeteu a famosa frase de Liv Ullman, no seu livro Mutações: “Dentro de mim existe uma criança que se recusa a morrer”.

Ele, o Pedrão, tinha a todo momento no rosto um sorriso gostoso ou uma piada besta para compartilhar com quem quer que fosse… Me lembro dele dessa forma, brincando com todos.

Meu pai dizia que ele não gostava de trabalhar e que não levava nada a sério. Talvez meu pai estivesse certo, mas quem sabe a missão do Pedrão não era exatamente essa: a de fazer sorrir todo aquele que cruzasse com o seu caminho.

Assim, via nele um exemplo negativo e no meu pai um positivo. Meu pai sempre foi muito trabalhador, disciplinado e honesto. Ou seja, um homem super sério. E o Pedrão, parece que sempre viveu no ritmo do deixa a vida me levar, sabe? Aquela mesma, da canção do mestre Zeca Pagodinho…

Quando criança brincava muito, vivia em uma pequena rua do bairro do Tatuapé, na cidade de São Paulo. Lá fui muito feliz e me divertia muito. Naquela época, as crianças ainda brincavam na rua, jogávamos bola, tocávamos a campainha e saímos correndo, esconde-esconde, pega-pega, pula corda, amarelinha, escorrega (íamos à casa de alguns amigos escorregar no chão encharcado de espuma), e tantas outras brincadeiras deliciosas que passávamos os dias totalmente focados com este tipo de atividade.

Confesso que durante essa fase da minha vida, eu detestava estudar, só queria brincar. Tomei gosto pelo estudo somente na universidade. Quando adolescente vi na dança talvez uma oportunidade de não perder o poder de brincar, sempre enxerguei na dança um momento tão prazeroso e libertador, e sabe por quê? Porque não tinha a obrigação em dançar de uma forma certa, seguindo os passos de X ou Y, na dança o único compromisso era me divertir. Aí criava danças do homem aranha (encostava na parede, ficava de costas para as pessoas da balada fazendo movimentos conhecidos do super herói), da mobilete (subia em uma moto imaginária e ficava fazendo graça), do ping pong (fingia estar jogando ping pong sozinho) e de tantas outras maluquices que surgiam em minha cabeça… e as pessoas adoravam, abriam rodas para eu ficar no meio e fazer as minhas “macacadas”.

Quando comecei a minha vida profissional e entrei no universo corporativo, aí humanos, a coisa mudou de figura. Parece que nas empresas o sorriso não é bem vindo, ele só faz parte da embalagem sedutora para conquistar clientes. Já notou? A imagem que aparece nos websites, newsletter e nas diversas formas de comunicar são pessoas sorrindo, dizendo que a empresa é “descolada”, mas que na realidade, na maioria delas isso é só fachada, faz parte apenas da comunicação, infelizmente!

Como eu vivo no ambiente corporativo há mais de 15 anos, já vivenciei muita coisa legal, é claro! Mas também muita chata e nada inspiradora…Lembro-me com tristeza de uma reunião que fiz em um grande datacenter (empresas que fornecem um ambiente para concentrar servidores físicos ou virtuais para seus clientes), um dos maiores do Brasil, que quando entrei na empresa a minha sensação era estar chegando num velório. A energia, as expressões das pessoas eram tão baixas e carregadas que me senti sufocado e o que mais desejei naquele momento era sair de lá o mais rápido possível e que nunca precisasse trabalhar em um ambiente tão pesado como aquele.

As empresas e seus dirigentes precisam entender de uma vez por todas que o bem estar e saúde da organização está diretamente ligado ao bem estar e felicidade de seus funcionários.

Empresas gigantescas como o Google, Apple e SAS não oferecem um ambiente de trabalho incrível e maravilhoso apenas porque são boazinhas, mas por saberem dos resultados efetivamente positivos para eles.

Visitei o Google em 2015 e fiquei encantado, como todos aqueles que têm a oportunidade de conhecer um ambiente de trabalho que mais parece com a Disneylândia. Fui apresentado a academia e demais áreas de lazer, bar, cafeteria, um belo restaurante, um terraço de dar inveja a muitos condomínios de alto padrão, ambientes coloridos, salas de reuniões com nomes divertidos, um espaço que simboliza uma feira, com muitas frutas deliciosas para degustar, mesas de bilhar e ping pong espalhadas pelos andares. Enfim, um espaço delicioso, especialmente planejado para desfrutar bem estar. E sabe por que proporcionam estes benefícios? Justamente para obterem dos colaboradores empenho e desempenho acima da média, fazendo com que somente os melhores realmente fiquem na empresa e por isso tão valorizada por eles mesmos.

Esta atitude empresarial é validada no livro, O Jeito Harvard de ser feliz: “O benefício da felicidade explica por que empresas de vanguarda disponibilizam mesas de pebolim, massagem e liberam que seus colaboradores levem consigo seus cachorros para o trabalho. Cada vez que os funcionários vivenciam uma pequena descarga de felicidade, eles se predispõem a criatividade e inovação. O famoso CEO Richard Branson disse que “mais que qualquer outro elemento, a diversão é o segredo do sucesso da Virgin”. A diversão também leva a resultados concretos”.

Ter momentos lúdicos e de abstração é fundamental para o desenvolvimento profissional e essencial para uma vida saudável, principalmente para nos deixar bem longe a depressão.

E sabe por que eu gosto tanto do universo do palhaço?

Porque o palhaço brinca com a vida, não a leva tão a sério.

No curso de palhaço a gente brinca, se joga, pula, tem relações verdadeiras… O palhaço tem menos medo de se expor, de expor o seu ridículo, de mostrar a sua fragilidade, e como diria o meu mestre Felipe Mello: “O palhaço é um perdedor feliz. Para aprender a ser Clown é necessário sair da lógica determinada pela sociedade e abrir espaço a uma lógica particular na qual a diversão de poder ser criança novamente é resgatada. Um retorno as nossas ingenuidades que, no picadeiro, se tornam arte”.

E aí, bóra voltar a brincar?

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