Longe de casa

O Brasil se consolidou como destino de imigrantes e refugiados. As razões que os trazem até aqui são as mais diversas. Pode ser uma busca pessoal ou uma fuga para uma nova vida. Para Mateus Muller, advogado especialista em direitos humanos, apesar da fama de acolhedor, o país precisa fortalecer as políticas públicas de abrigo e emprego para que a projeção de um fluxo cada vez maior não se transforme em crise.

As imigrações contemporâneas, em sua maioria, trazem pessoas com um mesmo perfil. São provenientes de regiões com idiomas não tão comuns em outras partes do mundo e geralmente falam mais de uma língua. Possuem facilidade de adaptação ao ambiente, o que se deve ao meio em que viviam anteriormente, como países em guerra ou com escassez extrema de recursos. Também costumam ser mais abertos a aprendizados e a sincretizar experiências.

A diferença entre refugiado e imigrante vai muito além da semântica das palavras. O tipo de visto concedido ao estrangeiro traz benefícios e deveres diferentes.

Segundo Müller, é considerado refugiado quem precisa deixar seu país de origem para escapar da guerra e da perseguição, podendo provar isso de alguma forma. A Convenção de Refugiados de 1951, realizada após a II Guerra Mundial, define refugiado como uma pessoa que por medo de ser “perseguida por motivos raciais, religiosos, de nacionalidade ou por fazer parte um grupo social ou ter determinada opinião política não está disposto a se colocar sobre a proteção daquele país”.

Já a imigração é a entrada de estrangeiros em um país; O estabelecimento de indivíduos em cidade, estado ou região que não é de sua origem.

Segundo o Comitê Nacional para os Refugiados, CONARE, o número total de pedidos de refúgio no Brasil neste ano, contabilizados até agosto, já ultrapassa a marca dos últimos anos. Por enquanto, o Ministério da Justiça já recebeu 8.400 pedidos.

Pedidos de refúgio no Brasil

Em maio de 2015, o Governo do Acre contratou oito ônibus para transportar a grande quantidade de imigrantes e refugiados que chegaram ao estado. Ao total, 60 migrantes vieram a Porto Alegre via convênio entre Ministério da Justiça e Governo do Acre. O Centro Humanístico Vida foi o órgão responsável por ajudar os estrangeiros na adaptação com a rotina e costumes do país, além de ajuda-los a encontrar moradia e emprego.


Sete mil quilômetros depois

Dor, miséria, sofrimento, angústia, morte, guerra e fome. Motivos mais que suficientes para se abandonar o país de origem. Hoje, nenhum destes sentimentos fazem parte do cotidiano de Misleine.

Um filho morto em decorrência da guerra civil que assola o país a anos; Três membros da família entraram para a estatística de 316 mil mortos durante o terremoto de magnitude 7 que destruiu Porto Príncipe em 2010. Essa mesma catástrofe, a pior de toda a história do país, derrubou a casa em que vivia junto com o marido e os três filhos.

Misleine René entrou no Brasil pela fronteira com a Amazônia depois de passar pela Venezuela e permanecer dois meses na Colômbia aguardando a autorização brasileira. Veja no mapa o caminho que ela percorreu.

Ela se juntou ao marido que já estava trabalhando em Manaus. Após se estabelecer, trouxe as duas filhas: Lusana, de doze anos e Micheline de dezoito. A família permaneceu unida no Brasil por um ano e oito meses, época em que todos residiam na capital amazonense. Após a demissão do marido de um trabalho na construção civil, resolveram que era o momento certo para tentar mais uma vez em um lugar diferente, porém a filha mais velha decidiu ficar na cidade morando com uma tia. Dessa vez passaram por São Paulo, mas só até conseguirem o restante do dinheiro para a viagem de avião até Porto Alegre. Mais de 7 mil quilômetros depois da saída de Porto Príncipe, finalmente chegaram ao local onde pretendem fixar moradia e criar suas filhas.


Busca pessoal

Christoper, 23 anos, saiu de Montevideo buscando ver os desafios do mundo com seus próprios olhos. Sua família, que ficou na capital uruguaia, é bem estruturada, todos trabalham para se sustentar e vivem bem. Sem luxos, mas bem. Há três anos, o rapaz se viu terminando os estudos e, como muitos jovens nessa época, totalmente perdido em relação ao que faria de seu futuro. Segundo relatado por ele, o mercado de trabalho estava muito restrito na época. Além disso, as dificuldades na hora de encontrar um emprego estavam o decepcionando. Escolheu então o destino mais improvável: colocou algumas roupas em uma mochila, pegou alguns itens pessoais, resgatou todo o dinheiro que tinha e pôs na carteira. Aquele era o momento de conhecer pessoas, ter experiências e aprender sobre si mesmo.

Decidiu instalar-se em Porto Alegre após algumas semanas viajando. Ele conta que foi muito bem recebido na capital gaúcha, logo conheceu outros jovens que vieram de diversos lugares da América Latina para tentar a sorte no Brasil. Uma de suas maiores dificuldades ao chegar foi encontrar um lugar para se instalar. A Prefeitura de Porto Alegre não possui o dado de quantas casas para imigrantes existem na cidade, pois a maioria não é nem identificada. Para conhecer esses locais de hospedagem, os imigrantes precisam achar alguém que possa ajuda-los. Este foi o caso do jovem, que após passar um tempo hospedando-se em hostels, hoje mora com outros viajantes em uma casa na Avenida Carlos Gomes. Para se sustentar no Brasil, o imigrante vende artesanato no centro da cidade, conseguindo se manter de forma confortável.

Uma história de imigração não precisa envolver mortes, tragédias e desespero. O motivo de mudança de Christoper foi uma busca por emprego e desenvolvimento pessoal.


“Só de estarmos aqui, já nos sentimos vencedores”

Quando perceberam que a formação no exterior era valorizada em seu país, três angolanos escolheram o Brasil como destino. Domingos Guerra Filipe, 24, e os gêmeos Arquimedes Kenny da Costa Paulo e Aristoteles Garreth da Costa Paulo, 22, moram há mais de dois anos em Criciúma, Santa Catarina e não descartam a possibilidade de fazer do país residência definitiva. Mas isso só ocorrerá com uma condição: se a alma gêmea de algum deles for de terras tupiniquins. “Além do vínculo amoroso, já nos dará acesso à dupla nacionalidade, por intermédio do casamento, essa é a maior possibilidade.”

Por enquanto, o projeto é retornarem a Angola depois de formados. Contribuir com o desenvolvimento do país é o objetivo dos jovens e o que impulsionou a decisão. Filipi é estudante de secretariado executivo, Arquimedes optou pela engenharia mecânica e Aristóteles preferiu a área de recursos humanos. Cursam na Universidade do Extremo Sul Catarinense, a UNESC.

O conhecimento do Brasil provinha apenas de pesquisas na internet e de assistirem a programas de televisão brasileiros. Mas como a língua oficial da Angola é o português, não tiveram dúvidas na hora da escolha. Diferente da maioria dos estrangeiros, o idioma não foi um grande obstáculo. O sotaque entrega os estudantes e Filipe aponta: “tivemos dificuldade para entender vosso sotaque e a vossa gíria”. Se falam em pagar propina em Angola, estão se referindo apenas à mensalidade. Aqui, precisam ter cuidado com o sinônimo escolhido.

O que predomina na fala dos angolanos é o relato de um ponto de vista distinto do que conhecemos superficialmente sobre o país. “A Angola é rica em madeira, petróleo e diamantes, onde existe, também, muita gente rica. É um lugar de oportunidades, empreendedorismo, que recebe vários imigrantes sul americanos e europeus. Existe emprego pra quem quer. Mas, assim como aqui, lá têm partes ricas e pobres,” conta o estudante. Ele acrescenta que Luanda, capital do país, lidera o ranking das cidades com custo de vida mais elevado no mundo.

Na fala, um ponto em comum entre os países é destacado: “o governo é corrupto”. O elevado índice de tráfico de drogas no Brasil também chamou a atenção dos estrangeiros. Mas a recepção dos brasileiros qualifica o país na análise. “A recepção foi cordial e simpática. Dentro da universidade alguns nos receberam com certa ignorância, mas no geral são educados e atenciosos”.

Ao fazer um balanço sobre a experiência que está vivendo, Filipe mostra que os pontos negativos não interferiram na análise. Falando pelo trio ele relata: “Só de estarmos aqui, já nos sentimos vencedores. As melhores lições são aquelas que nos fazem enxergar o quanto ainda temos para conquistar. Quando a saudade aperta e surgem dificuldades, o que nos dá forças são os nossos sonhos e objetivos. Afinal, as dificuldades só aparecem para moldar e estruturar mais nosso caráter, princípios e valores. Mesmo que não sejamos os primeiros na linha de chegada, sempre lembraremos do prazer da meta alcançada,” poetiza.