Escola da Rua

Tem um projeto em São Paulo, que eu acho incrível, chamado Escola da Rua. O cara para em filas de metrô, praça, calçadas, e taca conteúdo.

Mete Paulo Freire bem gostoso na caixa de ideias dos passantes, explicando matemática pras mulheres que estão, naquele momento, preocupadas com as contas de mês. Ou pras que terão que escrever um currículo, um reforço na gramática.

Viado, a ortografia e a oração coordenada assindética tem que ir onde o povo está. Fvr repasse.

E eu começo esta gloriosa preleção digital-solitária (como quase tudo é solitário na web) falando do projeto dos outros, porque eu não sou murrinha, encruado, e félo da puta. Ao terminarem o texto, visitem a página do Escola da Rua.

MAS EU PEGUEI ESSA FITA AÍ, MEU BRAÇO, PRA FALAR DA UNIVERSIDADE DA CORRERIA.

Bagulho foi formado da seguinte maneira: Eu SEMPRE tive aulas na rua. As coisas que empreendo hoje foram aprendidas na rua. E não, não é figura de linguagem, metáfora de rap, a rua é nóiz etc, eu REALMENTE aprendi as principais lições que me tornaram empreendedor em situações em que me encontrava nas ruas. Like um boteco, uma entrada de estação do metrô, dentro do metrô, essas coisas.

Sempre me movimentando, de um lado pro outro.

Menores de idade, meus amigos: Ninguém aprende a fazer se não estiver em movimento. Você não criará um projeto ou negócio ideal ou "certo", você criará o projeto que "deu de fazer" e no movimento, tu vai melhorando o desenho do bagulho, modificando, alterando a porra toda, trocando tudo por outra coisa, mas sempre: movimento.

Minha primeira aula de rua foi numa lanchonete e bar, do lado da antiga sede da Fundação Telefonica, em São Paulo. Na real, eu tive aulas pra caralho em São Paulo.

Alguns amigos da Fundação liam meus projetos e tentavam me ajudar, dando literatura, textos, me chamando pra eventos e, neste caso, vendo meus projetos, num powerpoint todo bonitchenho.

Luis Guggen.

Eu devo ter mandado pra esse cara mais de 30 ideias. Sentava com ele nessa lanchonete, com outros amigos da Fundação, e eles viam minhas ideias. E apontavam questões que ainda não estavam fechadas. E, parça: eram muitas.

Eu vinha de ONG, e queria falar de projeto patrocinado, sem entregas. Tipo, o que na real, infelizmente, há ONGs que fazem.

Mano. Quem detém as chaves do cofre de uma firma que apoia projetos com grana, SABE onde mora o caô do teu projeto.

PORQUE. OS. CARAS. TRABALHAM. COM. ISSO.

A segunda aula de rua que eu tive foi na calçada da Avenida Rio Branco, com uma guria chamada Andreza Vieira. Andreza é foda. Hiperativa mil grau, conheceu a Dharma e na calçada me disse algo como:

"Dinho, cara, me desculpa. Mas você TEM QUE ACHAR UM JEITO DISSO QUE TU FAZ TE DAR DINHEIRO."

Sobe Maysa, cantando Meu Mundo Caiu.

Fiquei putanhasso na hora, e por meses. A mina me mandando livro de Canvas Business e eu querendo entender porque o mundo é tão cruel, porque tem que ter dinheiro nas coisa, porque cara, ME FALA, A GLOBO MALDITA, A FAMÍLIA MARINHO, OS CAPITALISMO, O DEUS DA CARNIFICINA, mérde.

Aí o Rivotril entrou na minha vida. Só saindo alguns anos depois. Quando, inclusive, eu já ganhava algum dinheiro.

Porque o dólar é maligno, mas Stalin, ó. Gente boníssima. E a esquerda brasileira, esses boy que conhece Marx.

Conflito existencial rasgando minhas carne e eu comendo o pão que Schopenhauer amassou com o cu.

Quando eu me liguei que, cara, não é nenhum pecado mortal tu fazer um BOLO DE MILHO e cobrar 5 reais por ele, eu então sentei com outra pessoa, na rua, e ela se chama Trinidad Pajares.

Trinidad, El General de Espanha e Reinos de La Objetividad.

Eu já tinha uma ideia que projeto era um barato que não podia ter muitos furos, se possível, nenhum, e já tinha entendido que precisava pagar a conta de luz com dinheiro e não amor. Mas eu não tinha: FOCO.

Eu queria salvar o mundo, ser campeão de torneio de Botcha, fotografar o BOPE hostilizando morador e criar a Coxinha Social, um novo modelo hipster-hype-yunus-gourmet de fazer coxinha e com o lucro transformar as ruas em caminhos floridos, cheios de poesia, amor e sexo tântrico.

Trini. Espanhola muito da bem resolvida na vida, viajada mundo afora e foda em modelar negócios, falou, durante anos apenas uma palavra pra mim: FOCO.

Ainda tive aulas sobre como tornar um projeto real, financeiramente falando, e dar lucro, com uma gaúcha, Barbara Wollf. Na rua. Aí eu já tava melhor de grana, conseguia tomar um café no Starbucks pra não ficar com a consciência pesada de usar o wifi dos caras sem gastar um puto.

Mas a aula mais foda foi a que tive, 3 anos depois de começar meu caminho, com Reinaldo Pamponet. Eu fui mostrar a Universidade da Correria pra ele. Um encontro de 15 minutos, no MAR, no Rio, num pequeno café no térreo.

Reinaldo olhou o projeto e desceu a lenha. A jéba. A rôla. A pica. A manguaça. O mandacaru. A caxôpa. A mandióba. O pau de lei. O valhe-me Deus.

O mal do século não é mais a depressão. É a falta de jéba. Melhor, de gente que desça a jéba. É a falta de gente sincera que te diga que tu tá fazendo isso errado.

Dali, eu saí pra me jogar debaixo da perimetral.

Depois de uns dias, peguei a porra toda, todos os erros, mais uma vez, todos os projetos, enfiei o orgulho no rabo, e comecei a desenhar tudo que tinha, mais uma vez.

Juvenil: o processo nunca acaba. Enquanto você tá fazendo, vai mudar. Conversei, na rua, com dois caras que saíram da perifa. Criolo e Emicida. Mesmíssima coisa. Caiu, levanta. Se movimenta, porque o tempo não para. Não se vitimiza, que é feio nessa idade.

Por isso, a Universidade da Correria não é um lugar para quem, mesmo sem ter projeto, não guenta a realidade.

E acredite, a realidade, é o ÚNICO filtro que temos na metodologia.

O que fiz foi pegar as aulas da rua, e fazer uma coisa que gostaria que fizessem por mim: falassem tudo de uma vez.

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