Gilberto Freyre, Bolsonaro, Márcia Tiburi e como chegamos aqui

Quando nos idos de 2011 tive contato com uma certa esquerda que vivia nas franjas do petismo governamental, me vi surpreendido por um clima de festa e êxtase. O Brasil estava passando por uma revolução cultural, 68 estava chegando finalmente ao Brasil via periferia, todo baile funk era um novo Woodstock. Mas todo mundo sabe que Altamont está logo ali na esquina após qualquer Verão do Amor.

Havia declarações efusivas — deslumbradas, pra ser sincero — sobre como a ascensão das classes C e D iria romper com o conservadorismo ético e estético do Brasil. Tempos de Avenida Brasil, tecnobrega e funk proibidão. Havia uma espécie de glorificação de esquerda da mestiçagem, da brasilidade — na verdade, apenas um extreme makeover de Gilberto Freyre com doses de Foucault, daime, suruba e cenas do Hair.

Os elaboradores dessa tese eram típicos da classe média de esquerda originada de universidades federais. Especialmente da área cultural. Levei um susto como coreógrafos e designers pontificavam sobre geopolítica ou sobre distribuição de renda. Era uma banha cultura secretada pela prosperidade do lulismo que possibilitou que artistas plásticos, cineastas, documentaristas, críticos, dançarinos, atores e músicos se tornassem os profetas dessa Renascença festiva e popular que era o Brasil da época. E todos se colocavam como críticos ao PT, sempre com a mesma conversa sobre “o governo não ser de esquerda o bastante”… mas quando pingava o dinheiro estatal na conferência, edital, chamada pública, carguinho em órgão público, diária pra congresso… err… bem, eles estavam lá. Sabe como é, destruir o sistema por dentro, seja o Estado, a Família e o Capitalismo, tem suas vantagens quando se é amigo do rei.

O que era impressionante era a dissonância entre o discurso e a realidade. O fetiche pela classe D e C ascendente ignorava matizes, complexidades e contradições presentes em qualquer classe, ainda mais em um país do tamanho do Brasil. Pra mim era evidente que o maniqueísmo tolo que perpassava esse papo redentor era mera conseqüência dessa percepção da política como uma espécie de zoológico antropológico. Essa esquerda festiva e parasitária, do alto de seus Stuart Hall, Cultural Studies, documentário ou Doutorado, abençoava como revolucionário desde vídeo amador de “novinha” dançando funk em escola pública até a histeria em torno do sucesso mundial do Michel Teló.

Mas esse oba-oba não conseguia passar pelo crivo do senso comum, esse demônio da intelligentsia. Qualquer um sabia que a hipersexualização da adolescência nas periferias era normalmente acompanhada por uma reação religiosa na vida adulta. Que a safadinha de hoje, era a crente de amanhã; que o motoboy que faz zerinho com a moto hoje, amanhã ia pra Assembléia de Deus depois de largar o trampo como porteiro ou chapa em firma de transporte. O rolezinho de hoje era a viagem para o Santuário de Aparecida amanhã. Não precisa pegar ônibus todo dia ou depender de hospital público pra saber disso: uma noite de insônia e uma meia hora de Fala Que Te Escuto poderiam abrir esse portal interdimensional para essa esquerda festiva.

Ali se poderia deduzir coisas básicas que qualquer tiozão — esse arquétipo do mal presente nos domingos familiares da esquerda — sabe: filhos, gravidez e mesmo ter “o de comer” fazem com que a religião e certo conservadorismo façam da rapariga de 2011 a carola moralista de 2018.

Aí veio 2013: essa esquerda se deslumbrou, mas a dissonância continuou. Nem preciso me aprofundar: os relatos sobre o Cabo Daciolo e sua trajetória política representam bem a miopia dessa esquerda diante da realidade. Sim, vamos lembrar de Petrogrado, sim vamos lembrar da Primavera Árabe… olha, temos um Ocuppy WallStreet pra chamar de nosso.

Hoje se perguntam assustados de onde veio o eleitorado do Bolsonaro. Do alto da sua arrogância e ressentimento, inventaram o espantalho do “Pobre de Direita”. Hoje se refugiam em filosofar sobre seriado da Netflix, em fazerem textões, em tretas, em memes, em apoio acrítico — que em muito lembra o lulismo — a Marina. Se refugiam em temas específicos afundados em bizantinismo acadêmico ou histeria militante — racismo, sexismo, guerra às drogas, aborto, abolicionismo — como se fossem varinhas mágicas que resolveriam o todo.

Foram praticamente 15 anos de um clima favorável para que tais temas fossem discutidos e disseminados — e temos parte da população achando que Direitos Humanos, por exemplo, é aquele povo que defende bandido. O elitismo moral — normalmente originado pelo elitismo de classe, no fim das contas — é o esteio dessa esquerda tão ativa nas Marchas da Maconha, mas que mal consegue falar sobre feminismo com suas mães e tias…

Agora, em época de eleição, se iludem ainda com a grotesca discrepância entre quem dizem representar e quem vota neles (pesquisem os mapas eleitorais do PSOL no Rio de Janeiro). E ainda colocam a Márcia Tiburi como candidata ao governo do Rio de Janeiro.

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