Iogurte.

Quando eu era pequeno, com uns 9 anos ou menos, eu tinha uma mania bem estranha. Mania que nem sabia que era mania porque eu só fazia o que fazia e achava normal.

Antes de dormir, no momento da oração que minha mãe tinha ensinado a fazer, eu subvertia um pouco as coisas. Eu pedia para poder sonhar com Power Rangers, Digimon ou Qualquer Herói Que Tivesse Super Poderes. “Por favor, Senhor. Só peço isso e já tá bom. Mais nada. Tá bem? Amém, Senh… Ah, e se puder ter asas, melhor ainda. Né? Muito melhor. Ai, já pensou… Agora sim, em nome de Jesus, amém”.

Eu pedia com os olhos fechadinhos, emanando uma energia para o universo que, acreditem, voltava. E desse jeito, passei altas noites da infância sonhando que voava, soltava fogo pelas mãos, tinha força descomunal e sempre escapava dos piores pesadelos. Infelizmente, é verdade, não tinha algo fantástico que ajudava muito a segurar o xixi na madrugada, mas, afinal, o que é um lençol molhado perto de ter passado “horas” lutando e tendo poderes ilimitados? Saudades.

Depois de um tempo eu parei de sonhar isso. Não sei bem o porquê, mas eu também parei de pedir para sonhar com isso.

Corta para a pré-adolescência, início dos anos 2000 e alguma coisa.

Estou eu, como sempre fazíamos, fazendo uma carinha de gato de botas e esperando minha mãe e meu pai decidir se me levariam ou não para o supermercado. Era fim de mês e os dois estavam discutindo quanto poderíamos gastar na compra de comida que deveria durar 30 dias ou mais. Não era um cálculo fácil e só depois de grande eu entendi: eles precisavam saber como fazer para a pagar a conta do mês passado (que já tava pendurada no mercado) e ainda conseguir planejar quanto gastariam na compra atual que, novamente, seria fiada.

Eles também decidiam — o que para mim era ainda mais importante — se eu poderia ir naquela viagem ao paraíso que era passear por entre as gôndolas divinas, ver um sem fim de iogurtes, apalpar todas as bolachas recheadas e namorar os salgadinhos de sabor-isopor com embalagem brilhante. Imagina se eu tivesse a sorte de ir e descobrir que existia uma nova seção só das “besteiras” alimentícias que nunca estavam na lista de prioridades do mês? Seria um sonho acordado! Eu pedi, mas não pude ir nesse dia.

Não chorei porque já estava acostumado a ter uma probabilidade grande de quase nunca ir. Na fase adulta, a gente entende melhor o porquê de eles escolherem não levar a mim ou minha irmã mais velha nas compras. Era doloroso. Certamente era doloroso. Então eu fiquei em casa sonhando. Esperando quando as compras iriam chegar em casa e eu poderia fazer meu próprio ‘’unboxing’’ com aquelas poucas sacolas espalhadas pelo chão da cozinha. Enquanto minha mãe arrumava as compras e corria para o fogão, meu pai já tava na sala ligando a TV e eu estava me decepcionando, de novo, por abrir a quarta ou quinta sacola e ver dois pacotinhos de bombril ou um litro de óleo de soja e nada, nadica de nada, do que eu tava esperando por um mês. Cadê?

E então aconteceu. Aquele momento em que o mundo parece dar uma ligeira paradinha na sua eterna volta ao redor do Sol (minha mãe queria me convencer, às vezes, do contrário falando de Josué na Bíblia. Que era o sol que girava. Desculpa mãe).

Volta.

E então aconteceu. Achei no fundo de uma sacola dois copinhos de iogurte de morango (um para mim e outro para minha irmã). E, no canto da sacola, a bolacha recheada. O salgadinho, dessa vez, não pôde vir. Mas tava ótimo! Eu ia ser louco de reclamar? J-A-M-A-I-S. Nada se comparava com aquele instante em que pude olhar para aquele potinho que comportava o líquido rosinha, cremoso e que eu tinha esperado 30 dias para poder beber de novo.

Começava ali a eterna briga entre a fantasia de dar uma bebericada no potinho e a realidade de ver que ele, não se sabe a razão lógica, ia acabando aos pouquinhos. Eu bebia e acabava. Que absurdo! Eu corria para a cozinha. Guardava na geladeira. Abria a geladeira. Dava uma olhadinha no copinho. Fechava a geladeira. Não aguentava a pressão: abria de novo e olhava o copinho. “Pelo amor de Deus… Fecha a porta dessa geladeira, filho. Tá gastando mais energia!”. Dois minutos depois, sem minha mãe ver, eu abria a geladeira, dava mais uma bebericada e fazia o impossível: aquele iogurte, senhoras e senhores, durava pelo menos 24h. Não pensem que eu me sentia orgulhoso pelo feito. No fim, eu olhava o copinho e dizia: “Você pode melhorar, Anderson. 24h só? Vamos melhorar essa meta, querido. Mês que vem faça-o durar mais”. Economizar, economizar e economizar. Do mesmo jeito era com a bolacha recheada, com o salgadinho quando ele vinha ou com qualquer outro bem de consumo que necessariamente era raro em casa e que eu só poderia ter o privilégio de ver no final do mês que vem. Ou não.

Assim, alternando entre um ano bom (ter um pacote de bolacha mensal só para mim) e ano ruim (dividir um único pacotinho de bolacha recheada entre mim e minha irmã), as coisas foram passando e os sonhos foram mudando. No final de cada noite eu já não sonhava mais com super poderes. Nem pedia a Deus para poder soltar raios dos olhos ou coisa do tipo. Eu pedia outra coisa estimulado pelo frio paranaense: antes de ir pra cama, minha mãe, na época das vacas anoréxicas, servia (no que um dia foi a morada da massa de tomate) um belo copo de água morna com açúcar que vinha acompanhado de um pedaço de pão caseiro (a água morna doce começou a ser a saída constante já que nem sempre tínhamos leite diariamente).

Quentinho e feliz, eu pedia benção aos pais que estavam no quarto ao lado e ia orar. Dessa vez, depois de apertar muitos olhos e concentrar muito, não era possível que Deus ia me negar esse pedido já que ele nunca tinha me negado os antigos. Falava amém, virava para o canto, olhava meu nome escrito e os desenhos que fazia a lápis na madeira não pintada da casa e ia fechando os olhos devagarinho. Super concentrado, pensando só naquilo, eu adormecia finalmente. E então a oração era atendida, como na infância, e eu sonhava por horas o que tinha pedido sem precisar esperar pelos outros 30 dias.

Sonhava com o iogurte.

Mentira. Quem eu quero enganar né?

Eu sonhava mesmo era com ‘iorgute’. Muitos ‘iorgutes’.

Tô escrevendo pra não chorar.

Written by

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade