Escovinha de pé

Toda vez que eu voltava da escola, eu passava em frente àquela casa e sentia uma sensação estranha. Ela não tinha nada de assombrada ou assustadora, pelo contrário, era a casa mais linda do bairro. Tinha muro alto, portão chique e era de alvenaria e, ainda por cima, pintada com mais de uma cor. A casa tinha até garagem… E carro! Um espanto!
Para quem morava em um bairro periférico como o nosso, aquilo era muito fora da curva. O que aquela gente fazia morando ali? Era verdade o boato que corria à boca pequena de que, pasmem, nos finais de semana aquela família saía para comer fora? Sabe? Saíam e pagavam para comer. Entende? Pagavam e comiam fora! Sério, era muito incompreensível tudo isso para mim. No fundo, a gente tinha até uma dúvida — daquelas que ninguém tem coragem de dizer — se na verdade aquele povo que morava lá era gente como a gente ou, no final das contas, eram alienígenas dos brabos [ou seja: gente rica perdida na parte pobre da cidade].
Eu tinha um amigo, pobre como eu e mais clarinho que eu, que era vizinho dessa gente. Lá na casa que chamava a atenção de todo mundo, tinha um menino bem branquinho, que ninguém via brincar na rua, mas que sabíamos que existia porque ele entrava e saía do carro assim que chegavam na garagem. O menino tinha um nome composto, desses de gente rica, que, quando a mãe dele gritava lá da casa, parecia que o bairro inteiro parava para ouvir. Outra prova da sua existência era que esse meu amigo tinha tido a sorte de, algumas vezes, ter sido chamado para brincar com o menino na “mansão”. Depois, quando ele saía de lá, a gente ouvia atentamente os detalhes de como era lá dentro, como eram os brinquedos, se era verdade que eles saíam para comer fora, se aquele cachorro imenso mordia mesmo ou era manso…
Então, um dia eu fui agraciado. Sem esperar, como é de costume das bênçãos divinas que chegam sem aviso.
Esse meu amigo, pobre como eu e mais clarinho que eu, correu até o meu portão e me disse. “Ele chamou a gente para ir jogar video game na casa dele”.
Choque. Sentidos fogem. Cabeça não consegue processar a informação. Na hora eu nem lembro se ri, ou se respondi, eu só lembro de como aquilo era insólito e maravilhoso. Eu, tipo, eu… Eu havia sido escolhido para entrar naquela casa e de quebra ainda jogar video game, sem saber jogar, mas só apertando loucamente os botões do controle… Mas eu ia jogar com o menino branquinho que a gente nem via pisando na rua não asfaltada e suja de terra vermelha?!
Dádiva. Mais tarde eu aprendi essa palavra e fiquei me martirizando por não sabê-la antes e poder usar naquele momento para descrever a situação para minha mãe. Na real, eu não tive coragem de avisar minha mãe do convite. A ideia era ir escondido mesmo. Mas não porque eu era um filho [sempre] mentiroso… Eu tinha um motivo: medo de ela não me deixar ir.
Tudo isso porque, depois do convite, meu amigo, pobre como eu e mais clarinho que eu, deixou bem claro um sinal de alerta piscando bem na nossa cara. “Olha, ele falou que você pode ir lá sim… brincar com a gente. Mas ele falou que você tem que lavar muito bem os pés. Lavar muito, muito! Porque a casa dele é muito limpa. Entendeu?”. Eu balançava a cabeça concordando, sem pestanejar um segundo sequer, só concordando e me sentindo privilegiado sem saber o porquê.
E lá fui eu, para o tanque, passando pelo banheiro e, sem minha mãe perceber, peguei uma dessas escovinhas de lavar pé que toda casa de um morador do norte do PR sempre tem. Uma escovinha que, anos mais tarde, fui entender que nas casas de gente rica ou mesmo de outros lugares do país, era usada só para lavar roupa. Mas para gente ela era multiuso: da calça jeans puída do meu pai ao pé sujo na hora do banho, a nossa única escovinha vivia uma eterna jornada em looping entre o tanque e o chuveiro. Agora, ela acabava de aterrissar comigo no tanque, ambos escondidos, numa relação de cumplicidade.
Eu lavava muito forte. Esfregava, esfregava, esfregava o pé. Esfregava as unhas, cada cantinho dos dedos, o calcanhar meio rachadinho de tanto andar descalço pelas pedrinhas do quintal… Esfregava como se, no lugar do meu pé, eu tivesse lavando em vão um sapato velho desses que, encardido, a gente tenta limpar, mas sabe que o que antes era bege, agora, será para sempre marrom.
Eu continuei a lavar. Lavava, enxaguava, a pela já vermelha, e a escovinha comendo solto. Quando eu finalmente, orgulhoso do trabalho, parei, respirei ofegante e olhei para os pés limpinhos… Uau, senti que aquilo valia muito a pena. Afinal, quem no bairro iria jogar video game na casa chique? Euzinho. Rá! E sorria por dentro, sorria por fora e sorria e sorria.
Saí de dentro do tanque, sem fazer muito barulho, puxei a cadeira para poder me apoiar a descer e, enxugando o pé numa toalha velha, eu olhei desolado para o chão. Tinha esquecido de lavar meu chinelo. Um chinelo velho, com os preguinhos à mostra na sola que, inadvertidamente, eu deixei virado pra cima (desculpa, mãe, nunca desejei sua morte). Olhei desolado… Como eu ia usar aquilo? Tristeza e decepção. Não tinha jeito. Ou tinha?
Sempre tinha: o jeito era perder mais alguns minutos na tentativa de deixar o chinelo com aparência de novo. Lavar bastante para não sujar a casa chique. Então, no momento em que eu começava a lavar o chinelo, num auto-engano de que ele ficaria tão branquinho quanto o chinelo do menino rico deveria ser, eu ouvi um grito conhecido no portão. Era meu amigo de novo.
“Olha. Ele falou para gente brincar outro dia. A mãe dele não deixou voc… não deixou a gente ir. Mas podemos brincar lá em casa depois, amanhã. Tô com uma bola nova. Tá bem? Fui! Tchau!”.
Com o chinelo molhado na mão e a dignidade escorrendo pela outra, eu voltei para o tanque. Coloquei o chinelo lá dentro com o seu par. Saí descalço pela varanda e entrei em casa com a cabeça baixa. Minha mãe, vendo como meus pés estavam limpíssimos como nunca antes, não se aguentou com a surpresa: “Ander, que maravilha. Tirou de vez a caraca? Lindinho, não precisou nem de eu pedir de novo né!”. Eu sorri afirmando que sim com a cabeça. Ela me abraçou bem forte e sorriu para mim. Eu sorri de volta, um sorriso amarelo, e fui para a nossa sala olhar pela janela a casa do menino branquinho que ficava do outro lado da rua.
Até hoje não tenho certeza se vi o que vi. Até hoje não sei de quem era o vulto que vi entrando naquela casa e, ao passar, deixou balançando o portão entreaberto que ia se fechando devagarinho. Parecia o vulto de um menino pobre, mas mais clarinho que eu.
