O motorista iraquiano

Além de conduzir o veículo, parece conduzir uma entrevista com seu passageiro e faz um interessante relato de um povo impedido de falar tanto assim.

Londres, agosto de 2010

O personagem dessa história não tem nome por culpa do meu ouvido mal treinado para o idioma árabe. Mas podemos chamá-lo de Aziz. Ele guiava o táxi que me levou do hotel para o aeroporto de Heathrow, na Inglaterra.

O cidadão iraquiano, morando em Londres desde que a guerra estourou sobre Bagdá em 2003, tem seus 40 e poucos anos, esposa e dois filhos. Dirige um charmoso táxi preto londrino, gosta de conversar. Além de conduzir o veículo, parece conduzir uma entrevista com seu passageiro — o narrador deste caso — e faz um interessante relato de um povo impedido de falar tanto assim.

Transportes da capital inglesa. Foto: Anderson Paes/2010

Partimos de Paddington rumo ao aeroporto. Ele me ajuda com a mala, um pouco pesada, na escadaria do hotel. Nos cumprimentamos e embarco no carro. Dou a direção e ele pergunta logo, curioso, ao perceber o sotaque carregado em inglês: “Você é holandês, estou certo?” — nunca conversei em inglês com um holandês, mas ele deve ter seus motivos para acreditar. Então conto que sou brasileiro. Aziz pergunta se as coisas são caras no Brasil — talvez pelo peso da mala, deve ter imaginado quanta coisa teria eu comprado na Inglaterra — sem saber que levava comigo apenas roupas para o pouco mais de um mês na Europa e da carga tributária ao sul do Equador.

Ele abre um sorriso e diz que somos muito parecidos. “Brasil e Iraque, você sabe, somos parecidíssimos. Não temos muita coisa e somos felizes. Temos bom humor, não?” — difícil não concordar. Apesar da situação diferente, o povo brasileiro tem certas semelhanças com o do Oriente Médio.

Tentando conhecê-lo um pouco mais, pergunto sobre família e a vida em Londres. Ele comenta sobre a vida que leva na Inglaterra e que está feliz. Com toda a paranóia que toma conta dos grandes centros do ocidente, Aziz nao se enquadra do perfil do preconceito que também invade essas cidades. Os cabelos grisalhos e olhos claros fogem do perfil árabe hollywoodiano.

Numa breve conversa paralela confirmamos o caminho para o Terminal 5, enquanto olhava pela janelas as casas sem grades. Quando ele comenta da guerra. Digo que os americanos estavam partindo do Iraque. Ele acena que sim e diz: “Mas essa guerra, essa coisa toda que acontece na minha terra, é por dinheiro. Ninguém se importa se somos muçulmanos, cristãos ou qualquer outra coisa. Disseram que havia armas por lá e não havia nada. Só desculpa. Só querem saber do dinheiro. E essa gente é tão gananciosa que no fim alguma razão têm uns loucos como Chávez e Ahmadinejad. É bem capaz de outra guerra começar. Gananciosos!”, em tom indginado.

A sinalização do caminho para o aeroporto já se podia ver. O clima londrino, com nuvens cinzentas viraram pergunta: — Você gostou do clima da cidade?

Concordei e disse que me sentia bem naqueles 19°C do verão inglês, depois de ter passado quase um ano nos invernos do sul e do norte do planeta.

“É aqui. Você já esteve aqui antes?”, perguntou enquanto parava o carro. Era minha primeira vez naquele aeroporto. Paguei a viagem e ele me ajudou com a mala. Agradeceu a corrida e a conversa e parti para meu próximo destino.

E hoje penso que o iraquiano de Londres gostava de conversar e talvez, mais que isso, precisasse ser ouvido. O povo não costuma ter espaço para comentar o que pensa e muitos não sabem como, onde ou a quem dizer. Ainda mais para alguém que vem de um país em conflito e é inconscientemente vigiado por todos no ocidente.

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