Carta íntima para minha mãe. Ou quando minha mãe me alimentou de amor.

"Andi, eu não gosto de te ver assim."

Foi com essa fala que minha mãe se aproximou de uma versão minha de alguns anos atrás, que chorava no quarto a "perda" de um grande amor.

Meu pai tinha falecido meses antes. Acredito que a morte sempre provoca mudanças e nos faz refletir sobre a vida. Na época eu deixei o emprego e a cidade onde morava e voltei a dividir o mesmo teto que minha mãe e meus irmãos. Meu namorado, com quem vivi a minha primeira relação amorosa, também repensou suas escolhas. Decidiu fazer o desejado e necessário intercâmbio que adiava desde que nos conhecemos. Dentro de um curto espaço de tempo enfrentei duas mortes. Uma real, outra simbólica. Sofri. Talvez uma das coisas mais difíceis para quem é mãe seja ver o sofrimento de um filho.

Minha mãe me via assim. E não gostava.

Minha mãe não compreendia a minha sexualidade — o tempo ajudou nessa e em outras questões de nossa relação. Não fazia muito havia me escrito uma carta me perguntando se aquele meu amigo que nos visitava de tempos em tempos era mais que um amigo.

Era, sim, mãe. Ele era meu namorado. Não estamos mais juntos. Acho que o que você me pergunta é se sou gay. Já que você me questionou, vou responder com a verdade. Essa é a realidade, não a que você gostaria mas a única que se apresenta.

Minha resposta não foi muito bem recebida por ela. Seu modo de lidar com a situação — e, acredito, com os pensamento e sentimentos que aquilo lhe causava — , foi ficar sem contato ou comunicação comigo por algumas semanas, demonstrando todo seu incômodo. Ao entrar naquele quarto e dizer "eu não gosto de te ver assim" minha mãe quebrava o silêncio e se aproximava.

Uma aproximação que não era meramente física, mas sim emocional. O que mais define o amor se não amar o outro mesmo com e além de nossas incompreensões sobre ele?

Segue tua vida, disse ela.

Um conselho tão simples e tão sábio. Porque tudo o que a vida nos pede é seguir, independentemente da forma como ela se apresente. Essa é uma lição ensinada pelos maiores mestres do mundo. Minha mãe é um deles.

A vida seguiu. Vivi outros amores. Outras perdas. Alguns ganhos. Novas mudanças. E sigo.

Atualmente minha mãe e eu moramos há mais de mil quilômetros de distância, em Estados diferentes — eu em São Paulo, ela no Rio Grande do Sul. Mas continuamos cada vez mais encurtando as distâncias entre nós.

Não sei como é, para uma mãe, amar. Para um filho, ou ao menos para mim, isso inclui me separar um pouquinho da história da minha mãe (e também do meu pai, da minha família), compreendendo que escrevo a minha própria. É aceitar o seu amor, do jeitinho que ele vem. A gente fala tanto em amor, mas amar e ser amado requer coragem. Como filho, trilho um trajeto que inclui agradecer, aceitar, respeitar, perdoar e, principalmente, amar minha mãe. Hoje sentindo mais vontade de dar do que de receber.

Porque minha mãe e eu (e você!) somos um só. Dois seres humanos em busca do mesmo objetivo, ser e fazer os outros felizes. Mãe e filhos são apenas rótulos, como tantos outros que damos.

Para terminar a história daquele dia: minha mãe me pegou pela mão e me levou para a mesa, onde almoçamos a sós. Em silêncio. E chorando.

Minha mãe me alimentava de amor.