O mundo nerd precisa delas

Comemorar o dia do orgulho nerd é dar poder as mulheres.

Tributo de O Guia dos Mochileiros das Galáxia — Foto: Karolyn Andrade

O fenômeno nerd tem ganhado grande espaço na cultura social nos últimos anos. O cinema, a televisão, a música e a internet se apropriaram não somente do estilo desse grupo, que ganha cada vez mais adeptos, mas também de sua cultura, hábitos e gostos. Atualmente ser nerd se tornou popular, a história era diferente antes tímidos, reclusos e escondidos por trás de óculos de armações grossas, os nerds deixaram de ser vistos através do estereótipo de aluno estudioso e antissocial, e transformaram-se em uma referência, mas para as mulheres a história é outra.

O Dia do Orgulho Nerd celebrado em 25 de Maio, a história por trás começa com a morte do escritor britânico Douglas Adams o autor da obra O Guia do Mochileiro das Galáxias, uma série composta por 5 livros, publicados entre 1979 e 1992. A série, que envolve humanos e extraterrestres numa divertida trama de ficção científica, caiu no gosto de nerds do mundo todo e acabou se tornando um dos grandes clássicos da cultura, levantando um dos grandes símbolos: a toalha, citada nos livros como uma ferramentas essencial e útil para qualquer explorador interestelar. No dia 25 de maio de 1977 também foi lançado o IV episódio da saga Star Wars (Uma Nova Esperança) de George Lucas, outro marco importante para a cultura nerd.

O dia em que é possível enxergar o árduo caminho percorrido por homens nerds há tanto tempo. Eles, que se escondiam na hora do recreio, que eram zoados na escola por gostarem de quadrinhos e computadores, que jogavam Pac Men nas máquinas de fliperama e se reuniam para sessões de RPGs nos fins de semana. Esses homens que faziam tudo isso enquanto excluíam o convívio de meninas que gostavam das mesmas coisa que eles, ignorando as pressões que eles mesmo impunham sobre essas garotas.

“ A mulher precisa estar constantemente provando o que está falando, por causa do machismo instituído no mundo nerd. Como em alguma época os quadrinhos eram considerados de meninos, eles acabam não aceitando é como se estivéssemos invadindo o mundo deles.”

Ser mulher e ser nerd é incrível, mas também é um desafiador teste de paciência e de persistência. Ao mesmo tempo em que a mulheres viraram o troféu da “namorada perfeita que gosta das mesmas coisas que você, cara”, também é a qual está se envolvendo em um universo tradicionalmente masculino. Usar uma camiseta de algum personagem que gosta ou se dizer fã de determinada franquia pode ser o suficiente para serem taxadas e questionadas provar que sabe todas as insignias de star trek, que é fluente em Klingon e que entende até a cronologia dos X-Men no cinema, “A mulher precisa estar constantemente provando o que está falando, por causa do machismo instituído no mundo nerd” diz Ana Paula de Mello Carvalho, psicóloga. A luta está não apenas em provar que dominam o assunto mas que podem criar histórias para fazerem parte do orgulho nerd.

Representação das mulheres na cultura nerd

Keila Andrade fazendo cosplay da casa Corvinal de Harry Potter — Foto: Karolyn Andrade.

A representação das mulheres no âmbito nerd tomou grande proporção na maioria das vezes sexual, com trajes expondo seu corpo o transformando em um mero objeto, o problema não está no traje mas a vulgaridade que colocam na cena com artifícios que levam à conotação sexual. Ana Paula conta que não se sente representada “ A mulher é colocada na série através da sexualidade acaba objetivando e sempre acaba ficando em segundo plano, Antes eu não percebia mas com o passar do tempo fui percebendo o machismo nos roteiros, quadrinhos, ilustrações.”

A objetificação e a hipersexualização de personagens da cultura nerd não só incomoda muitas mulheres, como também legitima o assédio às cosplayers. Passadas de mão, cantadas obscenas e até lambidas estão entre as coisas pelas quais você pode passar se resolver ficar meses se dedicando a uma fantasia de algo que gosta muito. E não esqueça: não reclame. Você pediu, eles dizem.

O protagonismo feminino começou a crescer nas franquias nerds nos últimos anos com grandes produções como Mad Max (2015), Caças Fantasmas (2016), Rogue One (2016), o remake feminino de Onze homens e um segredo que estreia em 2018 assim como Mulher Maravilha são filmes importante, pois ainda assim temos menos falas do que os personagens secundários masculinos. Uma pesquisa realizada prova isto com o método de ligarem cada personagem com no mínimo 100 palavras em mais de 2000 roteiros as páginas do IMDB que identificam esses personagens e cruzam as informações com o gênero do personagem. Dentro dos roteiros estudados conta a lista de 25000 filmes de maior sucesso de bilheteria nos EUA.

Vermelho: Filme com meno de 10% de falas femininas.
Amarelo: Filme com a maioria de falas femininas.

Na pesquisa há apenas um filme cuja a maioria das falas são femininas, se a pesquisa tivesse o recorte de etnia os dados seriam mais assustadores ainda, a crítica ao papel da mídia na superexploração do corpo feminino, na objetificação, na falta de falas e no incessante bombardeio de ideias por um padrão de beleza inalcançável nos coloca dentro um combate contra a predominância masculina na cultura nerd que está longe de concordar com a necessidade de real emancipação das mulheres dentro desse meio “ Nós vivemos no sistema capitalista e o capitalismo dará um jeito de se aproveitar disso então existe os dois lados, o primeiro que sim será usada na intenção lucrativa e o outro lado é a representatividade onde crianças meninas poderão se identificar de uma forma diferente anteriormente ao que nos identificamos. “ relata a psicóloga.

Cabe aos produtores, roteiristas e diretores apresentarem essas mulheres de forma a mostrar que não há diferenças do papel entre elas e os homens, é preciso que não exista o preconceito subliminar nos produtos gerados. Isso não vai impedir que N tipos de personagens femininas sejam criadas, apenas vai garantir que as protagonistas não estejam sujeitas a inferioridade pelo gênero.